Formação

Série vida interior: As potências da alma

Santo Tomás apresenta os sentidos como potências da alma. O Aquinate não ignora a existência nem a importância dos órgãos corpóreos, antes ensina que eles estão associados às faculdades da alma.

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a) A parte vegetativa da alma

A parte vegetativa da alma ou, como Aristóteles chama, a alma vegetativa, corresponde ao princípio mais elementar da vida, presente em todos os seres vivos. Seres humanos, animais e até as plantas a possuem.

O Aquinate apresenta as três faculdades da parte vegetativa da alma:

1) Nutrição

O ato da nutrição é um processo de assimilação, consistindo em tornar semelhante o que é diferente: os alimentos são alterados e tornam-se da mesma substância do que está sendo nutrido.

Nada se nutre sem participar da vida, e ao mesmo tempo, nada vive sem nutrir-se devidamente. Em todos os níveis, a formação do organismo material vivo se dá através da absorção de nutrientes. Desde o início da formação do corpo, a vida é conservada pela nutrição. Um corpo animado, ou seja, que possui vida, deve nutrir-se e tem a capacidade para isso. Portanto, a nutrição diz respeito ao ser animado de maneira essencial, não de maneira acidental. Sendo uma necessidade do ser vivo, é também uma capacidade da alma, pois, a natureza não poderia exigir do ser algo para o qual não tivesse capacidade.

2) Reprodução

A capacidade de gerar ou de se reproduzir é a função mais natural dos seres vivos. Consiste em produzir outros semelhantes a si, segundo a natureza própria. Aristóteles afirma que “o mais natural dos atos é produzir outro ser igual a si mesmo: o animal, um animal; a planta, uma planta; a fim de que participem do eterno e do divino.” Desta faculdade depende a existência dos seres, pois, nenhum ser animado vive sem ter sido gerado. É graças a capacidade de gerar que pode haver preservação das espécies.

Enquanto os seres inanimados são gerados por elementos puramente externos, como é o caso de uma mesa que é construída pelo trabalho de um carpinteiro sobre um pedaço de madeira, Santo Tomás explica que a geração dos seres vivos não se realiza por agentes externos, mas pelos mesmos seres que se reproduzem.

3) Crescimento

A faculdade do crescimento leva o ser vivo a atingir o tamanho que corresponde à sua espécie. Quando um ser vivo é gerado, independente da espécie, inicialmente se encontra em pequeno tamanho e com o passo do tempo ele vai crescendo. Isto é graças à faculdade do crescimento. Santo Tomás ensina: “é preciso que no começo, o animal seja gerado em tamanho pequeno, donde a necessidade de uma faculdade da alma que o faça atingir o tamanho devido.”  

Nisto se verifica uma diferença com os seres inanimados, que geralmente já são elaborados com o seu tamanho final, como um prédio ou um carro.

b) A parte sensitiva da alma

A parte sensitiva da alma é, segundo Aristóteles, que a chama de alma sensitiva, o princípio que preside as funções da percepção sensível, apetite sensível e movimento. Os animais e os homens a possuem. As faculdades desta parte da alma são chamadas de inferiores, em contraposição às da parte intelectiva que são chamadas de superiores. As faculdades da parte sensitiva da alma (ou faculdades sensitivas) são os sentidos externos (visão, audição, paladar, olfato e tato), os sentidos internos e o apetite sensitivo ou sensibilidade.

1) Os sentidos externos

São conhecidos os cinco sentidos externos: visão, audição, paladar, olfato e tato. Contudo, pode resultar difícil associar os sentidos à alma, uma vez que aprendemos desde cedo que a capacidade deles depende dos órgãos do corpo. Desta maneira, associamos a visão aos olhos, a audição aos ouvidos, o paladar à língua, o olfato ao nariz e o tato à pele. Pois bem, sem ignorar a participação dos órgãos corpóreos, os sentidos externos são faculdades da alma.

Santo Tomás apresenta os sentidos como potências da alma. O Aquinate não ignora a existência nem a importância dos órgãos corpóreos, antes ensina que eles estão associados às faculdades da alma. Basicamente, a alma precisa e conta com os órgãos corpóreos para que as faculdades dos sentidos operem. Lembremos que a unidade corpo e alma é substancial e não acidental, de modo que a alma conta com o corpo para empregar a plenitude das suas capacidades. Dessa maneira, não devemos compreender os órgãos do corpo como substitutos das potências da alma, mas que eles existem em virtude das capacidades da alma. Ensina o Doutor angélico:

“As potências não existem para os órgãos, mas os órgãos para as potências. Por isso, a diversidade das faculdades não provém da diversidade dos órgãos, mas a natureza instituiu órgãos diferentes para corresponder à diversidade das potências.”

A importância dos sentidos externos recai em que eles são a porta de entrada para a alma (cf. Mt 6,22). Tudo aquilo que os sentidos recebem é armazenado na memória, desperta os apetites, que podem influenciar a vontade para realizar atos. Nesta lógica, convém ter cuidado com aquilo ao qual expomos os nossos sentidos. Se eles forem expostos a coisas santas, consequentemente a alma tenderá à santidade. Pelo contrário, se forem expostos a coisas pecaminosas, consequentemente a alma tenderá ao pecado.

2) Os sentidos internos

Os sentidos internos, como seu nome indica, são aqueles que se encontram na interioridade do homem, diferente dos externos, cuja função recai diretamente na relação com os objetos sensíveis que estão na exterioridade do homem.

Usar o termo “sentido” para nos referir a qualquer coisa além dos cinco sentidos externos apresentados anteriormente pode soar estranho a muitos de nós. No entanto, Santo Tomás de Aquino emprega esta nomenclatura para indicar a pertença destas faculdades à parte sensitiva da alma e, consequentemente, que é comum aos homens e aos animais.


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