Formação

Shalom: uma vocação universal

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Os tempos eram desafiantes. Éramos poucos, mas muitos não acatavam a autoridade espiritual do Moysés. Devia ser lá pelo ano de 1983, ano em que Deus aproveitou-se da situação para sinalizar ao fundador que era tempo de escrever o que Ele mesmo havia colocado em seu coração. O tempo cronos trazia a dor do desafio. O tempo kayrós escondia uma grande graça, da qual usufruímos até hoje e usufruiremos sempre, como é próprio de um kayrós. Era o hoje de Deus produzindo, ao Seu modo, os nossos tão queridos e ricos Escritos.

Bendito kayrós! Benditos todos estes kayrós disfarçados em tempos difíceis! Sua aparência é desagradável, sua experiência traz dor, sua vivência ameaça nossas seguranças, mas seus frutos são os melhores. Melhores mesmo que os kayrós muito explícitos que nos fazem correr o risco de achar que chegamos a algum lugar.

 Pois bem, no primeiro destes kayrós de luz disfarçados de paixão em nossa história, o Moysés, em conversa informal com alguns, disse: “O Shalom não é só para nós. É universal”.

Em minha pouca fé e bem cumprindo minha missão de co-fundadora, embora, naturalmente, de forma inconsciente, retruquei: “Você quer dizer que é uma vocação universal no sentido de que atinge o homem inteiro: sua vida, sua família, sua cultura, a sociedade, a mentalidade…”

“Não, quer dizer, isso também, mas o que eu quis dizer, mesmo, é que a vocação que Deus nos deu é para todo o homem e todos os homens em qualquer lugar do mundo”. (Naquele tempo, não sabíamos distinguir carisma de vocação, aliás, nem sabíamos direito o que era um carisma, por isso, usávamos a palavra vocação, indistintamente).

Com esta simplicidade, em uma partilha informal, começaram a ficar claros para nós alguns conceitos fundamentais:

1. O carisma que Deus nos deu é autêntico. É, realmente, uma profecia para a Igreja hoje. É, de fato, uma manifestação de Jesus Cristo para a Igreja, para o mundo, para o coração ressequido do homem de hoje.

2. O homem, onde quer que esteja, independentemente de viver nesta ou naquela cultura, busca e tem sede do Shalom do Pai, deste Novo Poço de Jacó, cuja experiência vai libertá-lo, fazê-lo santo e, consequentemente, feliz.

3. Nossa vocação é, portanto, missionária. É uma exigência de nossa identidade sair e anunciar, ultrapassar muros, oceanos, continentes, culturas, preconceitos, indiferenças, em missões não só geográficas, mas também no interior da alma do homem.

Dentre as muitas graças e manifestações de Deus para nós neste tempo, o aspecto da universalidade viria a ser trabalhado aos poucos por Ele, aguardando o tempo oportuno. Alguns anos depois, faríamos rápidas missões de socorro aos flagelados pelas secas no interior do Ceará e veríamos, surpresos, com que alegria as pessoas, ainda que muito sofridas, acolhiam o Shalom que levávamos através do anúncio e  da vida. Vieram, também, os diversos convites para pregações fora do Estado, sempre com a mesma acolhida. Sim, Deus nos havia dado algo novo e universal!

Seguiu-se a primeira fundação, em Quixadá, as missões no Brasil e, quando Deus nos julgou preparados, as missões no exterior, precedidas de algumas peregrinações de membros da comunidade que “pisaram no solo” da Europa conquistando-o para o Carisma e diversas viagens do Moysés e minhas em divina e misteriosa preparação para o que Ele queria de nós. Itália, França, Austrália, Malásia, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Inglaterra, Israel. Nenhuma destas viagens missionárias foi aleatória. Nada foi alheio ao plano perfeito de Deus que nos criou para todos os homens e o homem todo. Sem saber como, fomos até lá para abrir caminhos para o Carisma e a Vocação e ouvir ordens explícitas de Deus, como “Quero que evangelizem a China”, ou “O mundo esqueceu-se da África. Evangelizem a África”.

Durante nove anos seguidos, Moysés e eu participamos de reuniões na Europa e no México de 3 a 6 dias, por vezes desafiantes, com a presença de quatro continentes diferentes e pelo menos quatro línguas faladas ao mesmo tempo. Testemunhávamos, incansavelmente, o Carisma. Partilhávamos nossa experiência comunitária, orávamos pelas pessoas das reuniões que nos buscavam porque, segundo diziam, viam em nós algo diferente. Era Deus a preparar os caminhos para o Carisma. Preparava-o também através das inúmeras visitas de irmãos europeus e americanos do norte e do sul. Suas reações ao que viam eram voz de Deus ao nosso coração: “Sim, o carisma é universal! Vão em frente!”

As primeiras vocações internacionais foram uma surpreendente alegria. Com o Dominique, Fabiana, Nicola, Alexandro, Rita, Furio, Federica, Ana Paola, hoje na comunidade, e outros vocacionados que se ajuntam a cada ano, vemos a força do carisma, apesar de todos os nossos inúmeros limites, e sua universalidade.

Deus, realmente, realiza uma obra nova na face da terra, forma um povo novo, chamado de todos os continentes, raças e nações, um povo que Ele mesmo reúne e forma para a Sua glória. Povo chamado a ser imagem do Shalom do Pai em todos os continentes. Nossa amada vocação é universal.

Lembro-me do olhar brilhante do Xu, chinês a quem tentei explicar a vocação e do entusiasmo do bispo de Madagascar; do Pe. Inocent, do Congo; do senhor da Noruega, meu colega de italiano. Sim, nossa vocação é universal.

Hoje, estamos vivendo a alegria de uma nova missão, de um novo aspecto da universalidade do Carisma e da Vocação, com o convite ao Moysés para participar do Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia. A cada dia aprendemos com a nossa história os detalhes que Deus guardava em seu coração quando inspirava ao Moysés aquela primeira partilha informal. Somos uma vocação universal porque todo homem precisa do Shalom do Pai, porque toda nação e cultura precisam do Shalom do Pai. Como bem diz o Moysés, anseiam por Ele sem o saber. Agora, também a Igreja como instituição convida a Igreja como carisma para partilhar consigo o que significa o Shalom do Pai na Eucaristia. Como aquele primeiro Bispo que nos convidou – D Adélio Tomasin – o Santo Padre crê que temos algo a contribuir para a Igreja também com relação à Eucaristia e isso antes mesmo do reconhecimento pontifício. Nossa vocação é universal!

O que virá depois? Tenho cá minhas impressões, mas vou deixar vocês curiosos. Afinal, o universo da cultura, da ciência, da filosofia, das ciências humanas, da tecnologia, do conhecimento, da mídia, da educação, da economia, nos espera. Além de todos estes universos vastíssimos, espera-nos o universo interior de cada homem ansioso pela experiência com o Ressuscitado que passou pela cruz. Esperam-nos, também, a África e Ásia, mas não por muito tempo. Aguardam-nos a Oceania e os países nórdicos.

Um dia, as gerações futuras vão, talvez, reler este texto e dizer: “Será que era isso que a gente está vivendo o que a Emmir imaginava ao escrever aquele texto?” Lá do céu, cutucando o Moysés, junto com os outros que lá estarão, responderemos em coro e com a alegria própria de nossa identidade: “Que nada! Deus superou em muito todas as nossas expectativas. E, presta atenção, galerinha, porque Deus tem ainda mais, muito mais”.

 

(Emmir Nogueira /Texto publicado em abril de 2008)


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