
Isto porque todas as vezes que um batizado procura se aperfeiçoar espiritualmente está demonstrando por isto mesmo uma irrestrita confiança na sabedoria e no poder de seu Senhor, abandonando-se inteiramente a Ele. A todos Ele abre as veredas da alegria, da imperturbabilidade, mas bem mostra a Bíblia que Deus se revela no sussurro do silêncio (3 Rs 19,12). No meio do bulício das complexas atividades diárias é preciso, todas as vezes que isto é possível, entrar no país do recolhimento interior e aí ouvir as mensagens da Trindade que habita a alma em estado de graça.
Não são apenas os que se consagraram ao serviço de Deus os chamado a usufruir das delícias da dileção de um Ser Infinito que envolve de coragem aquele que O quer escutar e seguir. Porque correspondeu a sua vocação, Maria foi a cheia de graça e bem disse o anjo que Deus estava com ela. Trata-se de uma fidelidade que abre passagem do efêmero para o que é perene, da terra para o céu. Quem penetrar lá no íntimo de si mesmo perceberá o anseio irreprimível daquela paz completa que se contempla na existência da Virgem Maria, Mãe de Jesus.
O arcanjo Gabriel lhe trouxe uma proposta de Deus, mas ela já estava ininterruptamente disposta a só querer o que Deus desejava e, deste modo, livremente acatou os planos salvadores da misericórdia divina. O ser racional é livre para dizer “sim” ou “não” a seu Criador. A palavra de Deus que chega a cada um pelos mais diversos meios são intrigantes, mas não coercitivas. A Bíblia, os bons exemplos, aos bons conselhos esclarecem, os sinais dos acontecimentos deixam recados misteriosos, mas cabe ao cristão saber discernir e aderir fielmente ao que Deus quer a cada instante, sobretudo nos momentos das grandes e graves resoluções, nos passos decisivos da existência pessoal.
Entretanto, nem a poderosa palavra divina, nem as mais abundantes graças podem tolher o livre arbítrio humano. Deus quer uma adesão pessoal, consciente de cada um, como ocorreu com Maria. Por isto é tão beatificante a entrega a Ele pela fé, pela sinceridade, pela confiança irrestrita e aí está o valor da virtude, pois é um ser dotado de inteligência e liberdade que se volta para o seu Senhor. Aí a fonte de todo o mérito. Maria tornou-se pela sua fidelidade a “bendita entre todas as mulheres” (Lc 1,42).
Há, porém, um grande obstáculo ao poder dos influxos celestiais, por assim dizer maior do que a palavra do Todo-Poderoso e de que tudo que está no Evangelho, que é o endurecimento do coração. Este impede definitivamente que Deus possa atuar plenamente na existência humana, plenificando-a com sua beatitude. Bem-aventurados, entretanto, aqueles que se deixam iluminar pelas inspirações do Espírito Santo e se imergem na beleza das mensagens de Jesus, na grandiosidade de seus prodígios, pois este conhecerá felicidade neste e no outro mundo que há de vir. Apenas, aqueles que a exemplo de Maria, livremente aderem a Deus podem obter esta ventura no tempo e após deixar esta terra de exílio.
Este não se deixa condicionar pelos extravios daqueles que se divorciam da verdade. O engajamento sincero é fator determinante para o autêntico sucesso pessoal. O que se esquece muitas vezes é que a história de cada um não é a soma de muitos instantes, mas o fruto da liberdade que sabe explorar tudo de bom que Deus continuamente oferece. Jesus, que um dia nasceu em Belém, deu consistência a todo instante da vida humana, porque Ele abriu as ações do ser racional para uma eternidade feliz na Casa do Pai.
As adesões à graça transformam o cristão e o faz degustar já na terra as delícias da vida futura. O tempo que passa toma uma dimensão definitiva, magnífica. Como aconteceu com Maria, o Espírito Santo desce sobre cada um e a força do Altíssimo dá rumos certos a sua peregrinação terrena. Nada se perde para aquele que se situa no tempo de Deus. Maria está a ensinar que se entregar a Deus é lhe oferecer todo o seu ser, com seus desejos do coração e com todas as aspirações do corpo e da alma.
É deste modo que se percebe que o céu já está entre nós, como estava para a Virgem Santa. O cristão a seu exemplo deve viver pela entrega a Deus já na eternidade deste Deus três vezes santo, fonte de toda beatitude. Apenas assim o Natal terá todo seu significado e ele não passará como mera comemoração, mas como garantia definitiva da salvação eterna.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.