O transtorno afetivo bipolar (TAB) se manifestou na minha vida aos 21 anos, estudante de geologia na UFBA, técnica em mineração. Trabalhava e residia em Salvador-Ba, longe de minha cidade natal que é Serrinha-BA, mas possuía alguns amigos. Uma vida normal como todo jovem na minha idade, no entanto, o primeiro surto bipolar desordenou toda essa estrutura de vida.
As característica mais marcante da bipolaridade é a alternância, às vezes súbita, de episódios de depressão com os de euforia (mania e hipomaníaca). As crises podem variar de intensidade (leve, moderada e grave), frequência e duração. No meu primeiro surto tive a predominância da mania, da qual, sai viajando da Bahia até Curitiba-PR num período de 15 dias onde não tinha o menor controle e consciência do que estava acontecendo, retornei pra minha cidade com vida e segurança por graça e misericórdia de Deus.
As flutuações de humor tinham sempre reflexos negativos sobre os meus comportamento e atitudes, e a reação que provocava era sempre desproporcional aos fatos que serviram de gatilho. A partir do primeiro surto percebi que algo muito maior trazia instabilidade e descontrole sobre as minhas ações. Nessas condições estava completamente impossibilitada de prosseguir com os estudos e o trabalho, retornei para minha cidade no interior para receber os cuidados necessários por meus pais e familiares, ou seja, perdi o que julgava ser o meu “Tudo”.
O Diagnóstico correto
Após três anos entre surtos e depressão pude enfim receber o diagnóstico correto e iniciar o tratamento adequado e reduzir as incidências de surtos. Nesta época cheguei a passar em um concurso da Petrobras para técnico em mineração, no Rio de Janeiro, mas fui reprovada no psicoteste. E essa experiência gerou essas crenças: não posso sonhar nada, não posso construir nada que a onda da bipolaridade vem e derruba os meus “castelos de areia”.
Em 2016 tive minha experiência com Deus no Renascer em Retirolândia-BA, e Ele de maneira muito clara me mostrou porque os meus projetos de vida não se sustentavam, porque eu depositava toda a minha segurança em pessoas, estudos, sonhos e em mim mesma. E assim “descobri que a bipolaridade foi a grande oportunidade de retorno para Deus” e me reconstruir sobre a rocha firme que Ele é, onde nenhuma onda poderia me desestruturar.
Hoje posso afirmar de forma bem concreta que vivo uma fase mais estável, há dois anos sem surtos, cuido da saúde com muita responsabilidade e assim levo uma vida tranquila, para tanto faço consultas com psiquiatra regulamente, tomo as medicações nos horários certos, faço psicoterapia, atividade física semanal e uma alimentação saudável. Todas essas coisas em conjunto com a saúde espiritual que consiste na a vida de oração diária e sacramental que nada mais é que a intimidade com Deus, pois sem Ele nada faz sentido.
Hoje há sete anos com a bipolaridade não estou curada, pois a ciência afirma que não existe cura, mas eu creio que para Deus nada é impossível, e nessa certeza eu me disponho a viver tudo que Deus vai me permitindo, trabalho, estou cursando o 5º semestre de Administração na Universidade Estadual da Bahia, tenho um filho de seis anos e faço parte da Obra Shalom da Diocese de Serrinha-BA, onde sou muito feliz em gastar a minha juventude em vista da evangelização dos jovens.
Superando os desafios
Os desafios são muitos com a vida acelerada em que nós vivemos, a produtividade no trabalho, as exigências nos estudos, as dificuldades na vida familiar que levam a uma maior vulnerabilidade ao estresse e as crises de ansiedade, mas é possível equilibrar todas essas coisas buscando a sabedoria de Deus, eleger as prioridades, conciliar os conflitos e dar o melhor de si, mas é preciso perseverar e acreditar que vai dar certo.
Confesso que assim como Santa Teresinha, desejosa de ir em missão apostólica a servir em Carmelo estrangeiro reconhecia que mesmo possuindo vocação, sua enfermidade (tuberculose) era um obstáculo para tal, e assim eu pensava também que o Transtorno Bipolar era um empecilho para realizar meus sonhos, para ter amigos, estudar novamente, trabalhar, ter um lugar na sociedade, ser aceita pelas pessoas e finalmente ser feliz na vocação que Deus escolheu para mim.
Santa Teresinha, porém, esclarece para si: “se essa for a vontade de Deus ele fará desaparecer todos os obstáculos”, faço dela as minhas palavras e mesmo com todos traumas, dores e limitações que essa doença psíquica traz não me deixo mais determinar por ela escolhendo lutar diariamente e encontrando no auxílio médico um caminho de superação, mesmo que para isso lute a vida inteira. Tenho a plena convicção de que o plano de felicidade de Deus se cumprirá na minha vida, contanto, que o busque diariamente de coração sincero.
Sim, em Deus eu sonho, planejo, executo, sou plenamente Feliz!
Alline Souza Barbosa, Obra Shalom da Diocese de Serrinha-Ba


Esse ano recebi alta de algumas medicações de depressão e de ansiedade. Sinto que a obediência em tomar a medicação todos os dias é o que evita os surtos. As vezes sinto fortes dores no corpo quando me estresso. Mas já se foram 6 anos sem surto. Eu passei a me conhecer mais e sei quando preciso de um descanso maior, um lazer e principalmente ter mais intimidade com Deus…sinto que Deus me sustenta e não paro nenhum dia! Tomar medicação e autoconhecimento…tem sido elementos chave…