Domingo à noite, procissão do Senhor Ressuscitado, a gente encontrando irmãos e amigos que, na noite anterior, não deu pra ver porque a catedral estava lotada. Desejamos efusivamente feliz páscoa uns aos outros, no meio daquela algazarra gostosa e bem definida como “nossa”. Eita, que é bom demais!
Um irmão muito querido também se aproxima, nos saudamos e começamos uma animada conversa. Ele é um dos irmãos simples e doutos da Comunidade. Sem deixar mais uma vez escapar a oportunidade, pedi pra ele me tirar uma dúvida, afinal, pra ele eu teria coragem de perguntar o que eu queria com muita liberdade. Na verdade não era uma dúvida, era um incômodo. O “problema” é que minha querida editora-chefe estava ao meu lado, e como ótima jornalista que é, não perdeu a história, e pediu pra eu expor o meu incômodo aqui neste texto. Lá vai: humilhação, abraça-me!
A liturgia pascal é fascinante, nos deixa igual aos discípulos de Emaús, com o coração “pegando fogo”, como se fala no nordeste do Brasil. Comunica entusiasmo, coragem, alegria, porque afinal, encontramos e vemos o Senhor ressuscitado a cada dia no evangelho. No entanto, quando Jesus encontra Maria Madalena no trecho de Jo 20,11-18 , confesso que eu ficava meio sofrida por causa das palavras que Ele dirige a ela. Claro que sei com minha inteligência, meu coração, minha fé e minha vida, que Jesus é Amor sempre, incondicionalmente, mas precisava compreender mais profundamente as palavras: “Solta-me!” ou “Não me toques!’ ou “Não me retenhas!”. Deus é Amor mas é também mistério. Às vezes Ele se esconde, para depois se revelar de forma inédita e ensinar uma maneira ainda mais profunda e íntima de usufruirmos de Sua presença. Mas a despeito de tudo isso, me sentia incomodada, sem compreender profundamente o que Jesus queria dizer.
No trecho citado, Madalena O procura chorosa. Ela ainda não consegue enxergar a vida de maneira Pascal. Ainda quer ver Jesus na tumba e insiste em querer ver um cadáver. Quando O encontra, pensa ser o jardineiro e somente quando escuta seu nome, naquela inflexão de voz inconfundível, é que O reconhece e grita: Rabbuni! (Tratamento mais solene do que Rabi e, muitas vezes, usado quando se dirige a Deus)¹ …Às vezes não enxergamos Deus no que nos acontece, por isso, como é importante ter um ouvido acostumado à Sua voz, para nesse momento percebê-Lo bem ali, ao nosso lado…
É aí então que acontece a cena em que Madalena corre para abraçá-Lo. Supomos que ela o tenha feito por causa do verbo que Jesus usa ao pedir que ela O solte. Em grego significa apegar-se, agarrar, atar a si. Madalena quer abraçá-Lo e ter o Mestre da mesma forma de antes. Só que Jesus agora é o Ressuscitado que passou pela Cruz, a morte, esta sim, nunca mais ousará ou poderá tocá-Lo. Ele não estará mais sobre a terra de forma corporal, não andará mais como outrora no meio dos homens, mas de uma forma inteiramente nova Ele estará conosco, nos amará, falará conosco, se relacionará com os Seus. É isso que Jesus quer ensiná-la. É pela fé agora que se dará o novo relacionamento de Jesus com Madalena. Nesse novo relacionamento, baseado na fé Ele a transformará na grande evangelizadora que ela foi. Ele não a rejeita, nem nunca o poderia, porque a natureza de Deus é Amor. Ao contrário, quer estar com ela e comigo e com você para sempre. Não simplesmente ao lado mas dentro, por isso nos dá o batismo. Ele abre olhos e coração de Madalena para um relacionamento superior, para uma união esponsal e eterna, que gerará frutos na vida de outros; onde de forma transcendente podemos tocá-Lo, tê-Lo e dizer como no salmo: “minha alma se agarra em Vós…” (Sl 62,9)
Não pude deixar de fazer um link com nossos relacionamentos: às vezes a amiga se casa, os irmãos vão morar fora, o amigo vai ser padre, e aí muitas coisas ficam diferentes. A amizade acabou? Não. Mudou! Claro que vou sofrer saudades mas eu vou amá-los querendo que eles cumpram santamente o desígnio de Deus pra vida deles, e eles vão me amar da mesma forma. Dos dois lados cada um procura animar o outro a sempre se dar mais, mais, mais, sem querer reter ou deter os passos do amigo para o céu, para frente e para cima… é o divino Amigo quem nos ensina a ser e a fazer assim…
Termino repetindo que Jesus nunca nos rejeita, como nunca rejeitou Madalena, precisamos só permanecer com confiança nesse Amor que às vezes está acima da nossa compreensão humana, e deixar que Ele aprofunde e estreite a cada dia seu relacionamento conosco. Não do nosso jeito, mas do jeito Dele, porque, afinal, Ele é o Senhor!
Valeu, Eltinho!
Cristo ressuscitou! Aleluia!
¹Nota Bíblia de Jerusalém Jo 20,16
