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Solidão e Ministério

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A individualização dos ministérios

Tendo visto como, num mundo guiado pela emergência, a solidão tem capacidade para realmente aprofundar o testemunho comunitário de amor, temos agora de examinar como a solidão também fortalece o testemunho comunitário de serviço. Uma das reações mais obvias a uma situação de emergência é que as pessoas abandonam suas finalidades de longo alcance e concentram-se nos problemas mais prementes. Quando uma cidade ou vilarejo está sendo bombardeada, os médicos param suas pesquisas sobre problemas complexos de medicina e prestam primeiros socorros aos feridos. Quando um sentido de emergência começa a permear uma cultura, soluções de curto prazo, preocupações provisórias e ajuda temporária facilmente obscurecem a necessidades de projetos a longo-prazo cuidadosamente estudados.

Pergunto-me se grande parte do ministério de comunidades religiosas não está gravemente afetado por esse sentido de emergência. Formas de ministério com as quais muitas comunidades estiverem comprometidas durante décadas subitamente perdem ao atrativo para muitos de seus membros. Ministérios de ensino, ministérios hospitalares e muitas outras formas de ministérios parecem não ser mais respostas às necessidades urgentes da época, e muitas comunidades religiosas acham-se em processo de reavaliação e reordenação. Em meio a essa busca por uma nova relevância, torna-se muito difícil para as comunidades religiosas apresentar o próprio ministério como um ministério comunitário.

A pergunta, “qual a vocação especial da sua comunidade?”, é freqüentemente difícil de resp onder. Em sua maior parte, a resposta é: “Alguns de nós trabalham em hospital, alguns lecionam, alguns trabalham em paroquia, alguns poucos de nós tem apostolado individual e, juntos, esforçamo-nos por apoiar uns aos outros em nossas diferentes vocações”.

O maior ganho é, obviamente, a larga variedade de ministérios que se tornaram disponíveis: ministérios para detentos, dependentes de drogas, doentes reclusos, homossexuais, ministérios em paroquias, fabricas, instituições psiquiátricas; também ministérios que se concentram em musica, pintura ou meios de comunicação social. A desinstitucionalização da vida religiosa abriu uma enorme gama de opções ministeriais que , há muito tempo, eram praticamente tabu para homens e mulheres que viviam em conventos religiosos.

Mas há também uma perda envolvida nisso, que é a perda do caráter comunitário cristão. Muitas vezes, parece que nossos ministérios tornaram-se tão individualizados que ficou muito difícil dar convincente visibilidade ao nosso ministério enquanto tarefa comum. A ênfase nos talentos peculiares dos indivíduos torna muito difícil ‘as vezes falar de um ministério da comunidade. Freqüentemente, só conseguimos falar a respeito dos ministérios de seus membros.

Pergunto-me, se, pela individualização de nossos ministérios, não perdemos a possibilidade de ser uma testemunha comum. Enquanto comunidades religiosas, temos não só de servir às pessoas individuais e às suas necessidades concretas, mas precisamos também ser um sinal de coragem e confiança para a sociedade mais geral. Precisamente, numa cultura tão rasgada em pedaços por emergências, não é suficiente assistir às muitas pessoas vitimadas, mas é também urgente dar esperança àqueles muitos que não são diretamente tocados por nós, mas que vêem nosso ministério comum e dizem: “Vejam como eles servem ao próximo”.

A grande força de uma vocação comum é que, por sua visibilidade especial enquanto vocação comunitária, ele consegue comover, curar e inspirar muitos mais do que aqueles que são diretamente afetados por ela.

Pessoalmente, encontro enorme força no testemunho da comunidade de Taizé, embora nunca tenha estado ali. Encontro muito conforto só em saber do trabalho e da vida dos Irmãozinho e Irmãzinhas, dos Missionários da Caridade, e da Comunidade de S. Egidio. Tais ministérios comunitários impediram que eu me juntasse às muitas vozes pessimistas.

É o ministério comunitário que é tão crucial em nossa época, e precisa ser de grande interesse para nós.


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