Há mais ou menos nove meses, o personagem Damião do espetáculo “Para onde correm os rios” da Cia de Artes Shalom, começou a tornar-se conhecido de muitos. Um morador de rua, na cidade de São Paulo, que vive completamente bêbado, inconsciente, na sarjeta. Para alguns ele seria digno de pena, mas para Damião esta é uma palavra que não combina com ele, fazendo questão de demonstrar isto a quem quer que tente se aproximar dele.
No enredo, o público sente na pele esta tensão quando a jovem publicitária Ester se esforça para ajudá-lo. Eclode então a agressividade, a ironia, a violência verbal e tudo mais que for preciso para causar repulsa e dizer: estou na rua e não preciso de nada! Para Damião, basta apenas sua garrafa de cachaça e a distância das pessoas. Realidade esta que intriga a jovem Ester e o público que acompanha a trama.
No ato teatral, representar não é suficiente para dar vivacidade e realismo a um personagem.
No ato teatral, representar não é suficiente para dar vivacidade e realismo a um personagem. De início, compreendi que em minha pouca experiência como ator, importava mais que eu desse espaço interior para o personagem. É preciso que Erlison, enquanto ator, saia de cena e empreste o seu corpo para outra pessoa, que tem seus hábitos, seus próprios costumes e sentimentos.
Inúmeras pessoas me procuram impressionadas para perguntar sobre como foi a construção do personagem Damião. Há quem pergunte se fiz laboratório em meios aos moradores de rua ou se é uma experiência pessoal que vivi no meu passado e a minha resposta categórica deixa as pessoas surpresas: Não! Não fiz laboratório! Não é a minha história! Nunca atuei antes em algo nessa proporção! Eu era apenas diretor na Cia de Artes e na ausência de um ator para o papel a Providência Divina me escolheu para tal.
O movimento é sempre o mesmo! Primeiro Damião causa repulsa, dá medo nas pessoas, fazendo-as se questionar: “como pode existir um ser humano assim?” Mas à medida que a trama se desenrola o sentimento das pessoas vai passando por uma transição e elas se questionam junto ao personagem da Ester: “O que ele esconde por trás dessa bebida? O que o levou a ser alguém assim?” Quem nos traz esta resposta é Madre Teresa de Calcutá que ouviu na voz de uma pobre, Jesus que suplicava: “Tenho sede!” Da mesma forma, com Damião entendemos que o pobre tem sede, e essa sede é violenta, agressiva, porque reclama amor.
Deus me presenteou com Damião, mas eu não previa que, em Damião, ele me dava todos os pobres. Aqueles que carecem de pão, aqueles que têm fome e sede de justiça, aqueles que carecem do desconhecimento de Deus. No fundo, somos todos Damião! Cada um em sua própria realidade, reclamando por atenção, reclamando por amor! Esse pobre está mais perto de nós do que imaginamos. Ele é aquele que está pelas ruas, mas é aquele que está próximo, na minha casa, no meu trabalho. Como diria Damião: “Gente muito boa que se perde por muito pouco”. E o que eles esperam de nós é a atenção que nós podemos dar, é o amor!
Erlison Galvão
Diretor e ator na Cia de Artes Shalom
