Institucional

Sou feliz por ser celibatário

comshalom

“Felizes são aqueles que esperam no Senhor!” Salmo 146/7

Certamente o Senhor, nosso Deus, que merece todo amor do mundo, é o maior interessado em nos ver felizes, uma vez que fomos criados à imagem e semelhança do seu Filho, o Bem-aventurado, e em seu Infinito Amor nos escolheu para sermos almas esposas. Para isso não nos deixa só, envia o seu Santo Espírito no batismo e, a partir daí, nos mergulha na visão beatíssima da sua santidade, alegre e muito feliz, que contemplaremos em plenitude no céu.

Em minha vida, este interesse do Pai foi e é sempre insistente. Insistente quando tive uma experiência com o seu amor, durante uma Adoração ao seu Corpo Eucarístico, puro e santo, num domingo de 2000; insistente quando desde então me fez desejar saber qual era a sua Vontade para mim; insistente quando me fez querer viver só para Ele; insistente, em meio às minhas resistências e dureza de coração, ao me consagrar na Comunidade de Aliança, 9 de agosto de 2013, depois de alguns anos ouvindo o meu não!… Ou seja, o Pai esperou muito mais por mim do que eu por Ele, pois desde toda a eternidade me criou para o celibato pelo Reino dos Céus na Comunidade de Aliança.

Como ser só de Deus e não viver numa casa comunitária, que preserva tempo e espaço para o sagrado? Como ser só dEle vivendo no ambiente familiar e profissional? Como ser só de Deus e estar em contato com as propostas do mundo e da carne que querem a todo custo e momento, com suas facilidades e prazeres, não ver brilhar em mim o “renuncie a si mesmo”, o “perder para ganhar”, a alegria que não passa?

Sendo “sal da terra e luz do mundo”, correspondendo à graça do chamado, testemunhando que vale a pena obedecer, partilhar e dar o corpo, mente e coração só a Cristo. O que comporta coragem, renúncia e disposição, mas não diminui a felicidade, pelo contrário, só a aumenta, porque não estarei vivendo só para o meu ego e juntando tesouros que podem ser corroídos e roubados e que nesta terra vão ficar. No céu, as minhas mãos estarão vazias e o que Jesus, o Esposo das nossas almas, dirá: – Tu amaste, a festa está mais cheia. São estes os filhos que viverão contigo e comigo aqui para sempre! – Todos estes, Senhor? – Sim, o milagre da multiplicação em teu corpo, quando davas o teu sim inteiro, realizei!

Aquelas eram questões que fazia a Deus e, uma a uma, o Espírito Santo as dissipou, como poeira que acaba com as primeiras gotas de uma chuva. Primeiro, ingressei na Comunidade em 2008, quando a reciclagem propunha o tema “Belo é o Amor humano” e tratava de discernimento do estado de vida e, durante a celebração, a minh’alma disse aos mesmas palavras da esposa do Cântico dos cânticos, ao abrir a bíblia, “Meu amado é meu e eu dele”. Depois me fazendo enxergar, no retiro para candidatos ao celibato em 2014, que nunca estarei sozinho, que no coração de um celibatário estão todos – os santos, os pecadores, os distantes, os feridos, os desgarrados, os Padres do deserto, os monges, as carmelitas, os franciscanos… os shalomitas, a Obra, os jovens e os pobres, famílias inteiras – e que a minha carne não é somente o lugar da luta e das tentações contra a castidade, mas principalmente é o da oferta, onde resplandece o brilho de Cristo e aponta profética e escatologicamente para o céu. Por fim, no retiro pessoal para pedir o voto de castidade, começando com o terço mariano, quando, por quase meia-hora, não conseguia sair do fim do Credo. Deus me paralisou nas palavras “creio na ressurreição da carne… creio na ressurreição da carne… creio na ressurreição da carne…” Sem acreditar nessa verdade e tentar vivê-la, Ele não me deixaria dar este passo. E isso depois de esperar mais de 2 anos, pois os formadores me conduziram a trilhar uma vida de espera.

Foi e é um tempo de muita cura interior, autoconhecimento e reencontro com minha história – só é pai, mesmo espiritual, quem é homem e se encontra com este ser homem, filho e irmão – e surgiram reais possibilidades de relacionamentos, além de poder revisitar meus curtos namoros e apaixonamentos humanos; e também valorizar o matrimônio e o sacerdócio, que são também um autêntico e feliz caminho de santidade para quem for a estes chamados.

Acabei me consagrando no celibato no dia 27 de maio de 2016, uma sexta-feira logo depois da Solenidade de Corpus Christi, entreguei meu corpo a Cristo, à Comunidade, à Igreja e quando penso em fugir das feras e feridas do mundo, expostas na vida das pessoas ao meu redor, aí me lembro que foi para elas que o Senhor me criou celibatário, para os que apoiam o aborto, o relativismo e querem uma vida cômoda, poderosa e pomposa, para os que já estão na quarta ou quinta união e não conseguem se preencher nem se realizar afetivamente, para os que estão dependentes de drogas para dormir, para os que perderam a esperança, para os que com Ela nunca se encontraram, para os que não tem nenhum brilho nos olhos…

Meus desafios não muitos, trabalho numa universidade, rodeado de pessoas que vivem para gastar e consumir dinheiro e ciência, coisas e conhecimento e, sem saber, não são felizes porque nisso não encontrarão a Felicidade. Minhas ofertas também são muitas, entre elas não terei um filho pequeno oriundo do meu sangue para meus pais chamar de neto. Porém, minhas alegrias são muito mais: vivo para Deus, pertenço a Ele, junto um tesouro que não passará, gozo de uma alegria que não é momentânea ao abraçar quem se desgarrou, acolher o que chegou, chorar com o triste, e sorrir com os que cantam, sejam eles irmãos, amigos ou desconhecidos, pois todos são meus filhos. E um dia, no céu, viveremos para sempre louvando felizes: – Acreditamos no Pai! Esperamos no Senhor! Amamos o Santo! O Ressuscitado que passou pela Cruz!

Especial Celibato Shalom

Everaldo Bezerra de Albuquerque,

filho de Deus, Shalom, celibatário


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