“Os recursos pessoais da feminilidade certamente não são menores que os recursos da masculinidade, mas são diversos. A mulher, portanto, — como, de resto, também o homem — deve entender a sua « realização » como pessoa, a sua dignidade e vocação, em função destes recursos, segundo a riqueza da feminilidade, que ela recebeu no dia da criação e que herda como expressão, que lhe é peculiar, da « imagem e semelhança de Deus ». Somente por este caminho pode ser superada também aquela herança do pecado que é sugerida nas palavras da Bíblia: « sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará ». A superação desta má herança é, de geração em geração, dever de todo homem, seja homem, seja mulher.” (Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, de 15 de agosto de 1988, nº 10)
O tema da superação pessoal atinge, de modo direto, a mulher de hoje. O recado do movimento feminista é de que, para superar-se e atingir sua realização humana, a mulher deve abrir mão de suas realidades próprias, priorizar o trabalho ou os relacionamentos “abertos” mais do que os “valores arcaicos da sociedade machista” (leia-se, casamento e maternidade).
Bem sabemos, pela própria natureza, sem o recurso à fé, que tal é uma falácia. Já vimos que, embora não seja inferior ao homem, não é a mulher igual a ele. São diferentes, e na diferença encontramos a sadia complementaridade, tal como Deus a quis. Confundem, ademais, as feministas, a realização pessoal com uma mera realização profissional – quando, já o vimos também, o lado profissional, se bem que deva ser valorizado pela mulher, ainda mais a mulher contemporânea, é um adendo à sua vocação primordial, que é de ser esposa e mãe, de um lado, ou consagrada, de outro.
A realização da mulher, portanto, não se esgota no profissional (que, aliás, nem sempre é um campo em que ela atua). Deve realizar-se como pessoa – e isso o faz, mais do que tudo, como esposa e mãe, ou como consagrada –, e de modo integral. Não tem a mulher católica só a dimensão espiritual, só a afetiva, só a profissional, só a intelectual, só a apostólica. Não! O Pe. Maciel insiste muito em nos dizer que a formação verdadeira é a da pedagogia integral: deve-se formar, antes do santo, o homem. “A graça tem necessidade da natureza. Antes de ser santo, é preciso ser homem (…)”(Pe. Marcial Maciel, LC, apud COLINA, Jesús. Minha vida é Cristo, pergunta 88).
Nesse sentido, é que precisam as mulheres trabalhar em uma formação integral, que lhes ajude no crescimento humano, espiritual e intelectual.
“Para cumprir essa missão, a mulher tem de desenvolver sua própria personalidade, sem se deixar levar por um ingênuo espírito de imitação que — em geral — a situaria facilmente num plano de inferioridade, impedindo-lhe a realização das suas possibilidades mais originais. Se se forma bem, com autonomia pessoal, com autenticidade, realizará eficazmente o seu trabalho, a missão para que se sente chamada, seja qual for: sua vida e trabalho serão realmente construtivos e fecundos, cheios de sentido, quer passe o dia dedicada ao marido e aos filhos, quer se entregue plenamente a outras tarefas, se renunciou ao casamento por alguma razão nobre. Cada uma em seu próprio caminho, sendo fiel à vocação humana e divina, pode realizar e realiza de fato a plenitude da personalidade feminina.” (São Josemaria Escrivá. Questões atuais do cristianismo, 87)
Assim, para viver as virtudes cristãs, tão próprias da dimensão espiritual, o fiel é encorajado a também cultivar as humanas, a adquirir valores: constância, decisão, valentia, sobriedade, distinção no vestir, educação, boas maneiras, humildade, iniciativa, espírito de equipe, atenção às necessidades dos outros, lealdade, honra, honestidade, civismo, cortesia, obediência, cavalheirismo, discrição e moderação no falar, equilíbrio, responsabilidade em todos os seus afazeres. Um programa de reforma de vida auxilia também na formação humana, e a direção espiritual é ocasião de avaliar o crescimento humano, numa prova de que as dimensões se interpenetram de fato.
Nas casas de formação dos Legionários de Cristo, onde são preparados seus futuros sacerdotes, ministra-se uma disciplina acadêmica peculiar, que serve de exemplo a esse campo do treinamento humanístico: aulas de urbanidade. É que no trato cortês com as pessoas, na maneira gentil – mas não afetada – de comportar-se, na sabedoria para discernir as ocasiões em que deve ser rígido ou afável, no cultivo de boas maneiras à mesa, na distinção ao vestir-se, no domínio de seus impulsos, e na sobriedade com as palavras e gestos, demonstra-se o equilíbrio do cristão, algo que é caro à tradição da Igreja, e faz do homem um ser bem formado, capaz de grandes feitos por Deus. Ainda que os membros de primeiro e segundo graus não tenham tais aulas, devem procurar leituras apropriadas e a ajuda dos demais, notadamente seu diretor e o responsável de sua equipe, para formar-se também em urbanidade, etiqueta, boas maneiras – que, aliás, são expressão inequívoca de caridade, mola mestra da espiritualidade cristã.
Atividades esportivas e mesmo as ações apostólicas e espirituais quando feitas em grupo, em equipe, também ajudarão na construção daquelas virtudes humanas acima referidas, contribuindo para a formação do caráter. Além dos bons cristãos que pretendemos ser, queremos, igualmente, exercer competentemente nosso labor profissional, nossos deveres familiares e estudantis, comportarmo-nos com modéstia e elegância, distinguindo-nos pela bondade e pela liderança. Aliás, é por desejarmos ser bons cristãos que assim nos comportamos, visto que o cristianismo não é uma idéia espiritual apenas, mas uma doutrina concreta que deve se encarnar na vida completa do homem. Para a formação humana do fiel, outrossim, não se lhe escapa uma sólida base intelectual.
Deve a mulher católica trabalhar fortemente na formação de sua vontade, pois é essa faculdade da alma que lhe será particularmente útil na perseverança do bem e na recusa do pecado. “É conveniente que exercite muito a sua vontade, vencendo-a com coragem e por amor a Jesus Cristo naquelas coisas que mais te custam, não cedendo um milímetro por preguiça, inapetência, apatia ou algo semelhante. Cada mão da abnegação, essa virtude imprescindível em quem se trata de seguir a Cristo pelo caminho do Calvário, e, todavia, se cair mil vezes, levante-se e caminhe, porque a vitória é só daqueles que se esforçam e lutam. Não aceite nunca em seu interior o sofisma do homem velho: ‘É que não tenho vontade’. Você sabe que tem e que nas coisas do seu agrado, a vontade traz a tona todos os recursos para alcançar tal coisa. Pois bem, convença a ti mesmo do que pode: que pode ser um santo, que pode ser um grande apóstolo, que pode ser bom estudante, que pode ser mais decidido e incisivo em sua pessoa, etc. E vá em frente.” (Pe. Marcial Maciel, LC. Carta de 30 de março de 1981)
O esforço por uma luta contínua, de auto-aperfeiçoamento, é o programa de vida do cristão. Em uma carta a uma moça, o Pe. Maciel ensina: “Quero convidá-la a ter paciência consigo mesma e com as suas falhas e limitações. Pense que a santidade não é trabalho de um dia, mas de toda a vida; que toda a vida é luta com suas vitórias e fracassos. Simplesmente tenha a certeza de que, se você luta e se esforça, no final do seu caminho se encontrará com Cristo, que lhe abrirá os braços apesar das suas misérias e quedas, porque Ele é Pai e conhecerá o seu esforço.” (Pe. Marcial Maciel, LC. Carta de 16 de junho de 1979)
Sem embargo, um líder, um cristão autêntico, deve desenvolver uma forte estrutura de pensamento, criando um espírito crítico e melhorando suas capacidades intelectuais, na medida dos talentos dados por Deus e tendo por modelo a inteligência de Cristo e dos santos.
O fiel consciente de seu papel visa a adquirir um amplo conhecimento das disciplinas próprias de sua profissão. Sabe que sendo um excelente profissional ampliará suas qualidades humanas (ligação com a formação humana), e exercerá um melhor serviço a Deus, o que é causa de santificação (ligação com a formação espiritual). Não lhe é alheio o leque das demais áreas da ciência e da cultura, de modo que deve primar por conhecer línguas, países, história, e dominar num ou noutro grau, conceitos básicos de raciocínio e filosofia. Para enfrentar os problemas que o mundo moderno, tão longe de Deus, apresenta, prima por ser intelectualmente capaz de apresentar respostas ao homem. Ele entende que sem a graça, sem a formação espiritual, nada pode fazer; mas também percebe que essa graça manifesta-se aos outros ordinariamente pelos meios naturais, de maneira que, v.g., um professor católico de História, bem formado, poderá defender a Igreja e a Idade Média das calúnias que seus inimigos propagam, e o advogado, o político e o médico devidamente orientados, intelectualmente preparados em suas profissões, no pensar e na doutrina católica, poderão ser muitos úteis no combate à cultura de morte que promove o aborto, a “camisinha”, a eutanásia.
As verdades da fé, vemos, não podem ser descuidadas nessa dimensão. É outro ponto de ligação entre a formação espiritual e a intelectual. Quem crê quer saber também por que crê! “Vivemos numa sociedade que não admite facilmente as crenças tradicionais. A hegemonia das ciências positivas impôs nas mentes a necessidade de avaliar racionalmente qualquer convicção. Crer, hoje, exige justificar ante a própria consciência os motivos pelos quais se crê e, ante os demais, dar uma razão daquilo que se crê. O que dizia São Pedro aos primeiros cristãos, incompreendidos em sua conduta exemplar, perseguidos por sua fé em Jesus Cristo: ‘Vivei sempre dispostos a dar uma resposta a todo aquele que vos peça razão de vossa esperança.’ (1Pe 3,15) O que é que crê um cristãos? O que significa aquilo que crê? Por que o crê? Aos homens do Reino não se pede que façam um curso especializado de alta teologia. Porém, é imperativo que estudem e aprofundem sua fé, que tenham a inquietude de conhecer mais a fundo o conteúdo de sua fé cristã e que procurem os meios práticos para alcançar esta meta (…), por conhecer e aprofundar a doutrina católica, descartando qualquer resíduo de negligência ou passividade nesta matéria. (…) alguns meios, como os círculos de estudo, a orientação moral, cursinhos e ciclos de conferências monográficas, etc. Porém, é preciso que cada membro se esmere, por iniciativa própria e com a ajuda do orientador espiritual, em procurar leituras adequadas que o ajudem a aprofundar cada vez mais o conhecimento de sua fé.” (Pe. Marcial Maciel, LC. As Dimensões Apostólicas da Vocação Cristã).
Ser melhor jovem, melhor consagrada, melhor esposa, melhor mãe, melhor profissional, melhor católica, melhor catequista, melhor amiga, cultivar a elegância, a sobriedade no falar e no vestir, buscar a distinção nos gestos, aperfeiçoar-se nas virtudes, corrigir os defeitos: eis o programa de vida de uma mulher fiel a Cristo e Sua Igreja.
Fonte: Site Veritatis Splendor – por Aline Rocha Taddei e Rafael Vitola Brodbeck