Você já escutou a alguém hoje? Provavelmente, você deve ter ouvido a muita gente. No caminho para o trabalho dentro do ônibus, na espera pelo início da aula na faculdade, nas recepções dos consultórios clínicos, no áudio compartilhado pelo Whatsapp. Mas, de fato, você já escutou a alguém hoje? Em um tempo, em que todos nós queremos ter voz, parece que nos falta algo simples: termos uma escuta atenta.
Mas o que isso significa? Perdemos um pouco (para não dizer bastante) da capacidade de escuta. O dicionário estabelece uma diferença importante entre os verbos ouvir e escutar. Ouvir está relacionado ao sentido da audição, já escutar significa “ouvir com atenção”. Quantas vezes, em uma conversa informal, em que alguém necessita da nossa escuta atenta, somos nós que não paramos de falar? Ou mesmo, em quantos momentos acionamos o modo automático da audição e pouco nos importamos com as inquietações que saem do coração do outro?
A escuta atenta estabelece em nós um diálogo direto com a caridade de Cristo. Esquecemos de nós mesmos, para emprestarmos ao outro os nossos ouvidos e a nossa atenção. Mostrar-se interessado, olhar nos olhos de quem fala e abrir o coração às angustias do mundo, nos direcionam à sutil arte da escuta. O Papa Francisco, em encontro com os voluntários da associação “Telefone Amigo Itália”, em 2017, mostra que o caminho da escuta proporciona a humanização das relações:
“O diálogo permite conhecer-se e compreender as exigências recíprocas. Em primeiro lugar, ele manifesta um grande respeito, porque coloca as pessoas numa atitude de abertura recíproca, para compreender os aspectos melhores do interlocutor. Além disso, o diálogo é expressão de caridade porque, mesmo não ignorando as diferenças, pode ajudar a procurar e compartilhar percursos em vista do bem comum. Através do diálogo podemos aprender a ver o outro não como uma ameaça, mas como um dom de Deus, que nos interpela e nos pede para ser reconhecido. Dialogar ajuda as pessoas a humanizar as relações e a superar as incompreensões. Se houvesse mais diálogo — mas diálogo verdadeiro! — nas famílias, nos ambientes de trabalho, na política, resolver-se-iam mais facilmente muitas questões! Quando não há diálogo, crescem os problemas, aumentam os equívocos e as divisões”.
Mas como podemos crescer na nossa capacidade de escuta ao outro?
O Papa Francisco, em mesma audiência, nos indica que esse itinerário requer de nós: paciência e atenção: “Condição do diálogo é a capacidade de escuta, que infelizmente não é muito comum. Escutar o outro exige paciência e atenção. Só quem sabe estar em silêncio, sabe escutar. Não se pode escutar falando: boca fechada. Escutar Deus, escutar o irmão e a irmã que precisa de ajuda, escutar um amigo, um familiar. O próprio Deus é o exemplo mais excelente de escuta: todas as vezes que rezamos, Ele escuta-nos, sem pedir nada e até nos precede e toma a iniciativa atendendo os nossos pedidos de ajuda. A capacidade de escuta, da qual Deus é modelo, encoraja-nos a abater os muros das incompreensões, a criar pontes de comunicação, superando o isolamento e o fechamento no nosso pequeno mundo”.
O escritor brasileiro Rubem Alves, no texto Escutatória, relata a experiência que foi passar uma semana em mosteiro na Suíça para escrever um de seus livros. O autor assim conclui sobre o silêncio e a escuta: “Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia que de tão linda nos faz chorar. Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto”.
Silêncio, paciência e atenção nos apontam o caminho da escuta atenta. Que no tempo favorável da Quaresma, possamos escutar melhor. Que a Virgem Maria, mulher da escuta e do silêncio, nos auxilie neste caminho.
Kassandra Lopes
Fonte 1: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/march/documents/papa-francesco_20170311_volontari-telefono-amico.html
Fonte 2: http://www.institutorubemalves.org.br/rubem-alves/carpe-diem/cronicas/escutatoria-3/
