
No momento, não trabalho diretamente com os pacientes infectados pelo novo vírus, mas o que posso perceber no meu atual dia a dia é que as pessoas nessa quarentena estão começando a ouvir os gritos da alma. Estão percebendo a distância em que se encontravam de Deus e da fé, distantes dos familiares, antes sacrificados em vista de uma vida cada vez mais inserida no trabalho, percebo colegas começarem a ter o olhar voltado para o que é essencial nesse tempo.
A nossa necessidade é de Deus, sem Ele não podemos fazer nada! Começaram a ver Deus e a ver o outro. Começaram a ver que somos pessoas vulneráveis. Pessoas que nem mesmo se consideram cristãs, pararam para ouvir as palavras do Papa Francisco e foram tocadas pelos seus gestos e palavras. Essa pandemia tem diagnosticado mais as nossas enfermidades interiores que o próprio vírus em questão, até me arrisco a dizer que uma cura interior está acontecendo na humanidade. Uma cura dolorosa.
Eu sou chamada a ser médica do corpo e da alma
Muitos colegas precisaram se afastar de familiares, eu mesma, não posso ver meu sobrinho de 4 meses. Isso é uma dor, mas também uma oportunidade de uma fecunda oferta. Oferecer a Deus as dores desse tempo em vista de quem Ele queira. Vejo como sabedoria para esse tempo. Alguns colegas estão preocupados com a possibilidade da infecção, medo de perderem pessoas queridas, ansiosos com a ausência de controle sobre essa situação, com o “boom” de informações que se acumula nas redes sociais.
E, de fato, toda essa tempestade assusta e nos faz ver a fragilidade da nossa alma, mas é nesse momento que a minha missão ganha o verdadeiro sentido: levar a paz, levar Deus, o verdadeiro remédio que cura todos os males. A certeza da presença de Deus conosco, nesta barca, como disse o Santo Padre, consola os corações.
Eu sou chamada a ser médica do corpo e da alma, faz parte da minha eleição. Tem uma música católica, de um compositor americano, que se tornou um rhema para mim nesse tempo que diz: “Aqui estou eu, Senhor… Eu tenho Te ouvido me chamando em meio à noite. Eu irei Senhor, se Tu me guias. Eu irei manter o Teu povo no meu coração”. E cada dia, com a graça de Deus, eu quero corresponder a esse chamado. Eu irei, porque Tu me guias, Tu estás comigo e o Teu povo também experimentará da Tua perfeita condução, da Tua presença amorosa.
Além disso é um tempo providencial para que eu esteja mais unida a Jesus pela oração, mais frequente e mais intensa, e mais atenta à dor das pessoas. Nesse contexto, os irmãos de Comunidade são parte desse povo, e, apresentam necessidades médicas reais. Comecei a ter mais contato com os irmãos, conhecer melhor as necessidades deles, dar orientações médicas e espirituais. Enfim, ajudá-los também a viverem melhor esse tempo.
É incontestável que vivemos um tempo de muita dor, mas, com a certeza da fé, esse é também um tempo de muitas graças, das quais, algumas já podemos contemplar.
Shalom!
Linda atitude, palavras abençoadas, Deus te proteja e abençoe sempre.