Formação

Tempos difíceis para os símbolos cristãos

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           Cada época oferecedificuldades à vivência da mensagem cristã. A História da Igreja confirma isso.Há sempre problemas internos e externos a serem resolvidos e superados. Existemperseguições até o martírio, difamações, conspirações e distorções. 

Também hoje a barca de Jesuscom os discípulos segue seu rumo, porém, em meio às tempestades e aos momentosde bonança (Mt 8,23-26). A Palavra do Mestre a Pedro a respeito da Igreja temvalor perene: “as portas do inferno nunca prevalecerão” (Mt 16,18). Inspiraconfiança. Não visa à ufania ou à apologia, no entanto, consola a Igreja quesofre. 

O certo é que os tempos,quando difíceis, são desafiadores e estimuladores. Servem para provar a fé,fundada na Cruz e na ressurreição do Senhor, e intensificá-la. Favorecem a suapedagogia, purificam-na pelo amor, exercitam o perdão. São Paulo comprovou emsua experiência pessoal e deixou por escrito seu testemunho: “quando sou fraco,então é que sou forte” (2Cor 12,10). Trata-se de confiança na ação da graçavitoriosa, tema que muito apreciava. Quando há sofrimento, é grande a esperançaque engendra o futuro melhor.

Tais ressonâncias bíblicasocorrem devido às dificuldades em relação ao uso, e até o abuso e a distorçãoda simbologia católica no Brasil contemporâneo e em outros países.

Recentemente, a presidênciada CNBB advertiu sobre o uso de termos da Igreja Católica por aqueles que, nãosendo católicos, se autoproclamam, com o objetivo de enganar as pessoas simplese ingênuas. Estas não sabem ou não tem condições de distinguir o que érealmente católico.

Diz a nota: “O uso de nomes,termos, símbolos e instituições próprios da Igreja Católica Apostólica Romana,por outras denominações religiosas distintas da mesma, pode gerar equívocos econfusões entre os fiéis católicos. Nestes casos, o uso da palavra ‘católico’,‘bispo diocesano’, ‘vigário episcopal’, ‘diocese’, ‘clero’, ‘catedral’‘paróquia’, ‘padre’, ‘diácono’, ‘frei’ pode induzir a engano e erro”.

Embora a nota cite a IgrejaCatólica Carismática de Belém, sabemos que há outras denominações que procedemde modo semelhante. Por ocasião do Censo 2010 do IBGE, já se alertava para adistorção numérica da geofísica da Igreja no Brasil, pois havia 26 denominaçõesintituladas de católicas. Hoje, provavelmente o número aumentou. 

Para deliberadamente seconfundirem com o catolicismo romano, algumas denominações se apresentavam e,talvez ainda se apresentem, como sendo Catolicismo Apostólico Romano ouCatólica Apostólica Brasileira. Para se confundirem com o Movimento daRenovação Carismática Católica, algumas se denominam: Católica ApostólicaCarismática; Católica Carismática do Brasil; Católica Renovação Carismática; ouainda Católica Pentecostal.

 

Agressãoao sagrado

 

Em pleno tempo de Natal, aArquidiocese do Rio de Janeiro foi surpreendida com o convite para a participaçãona M.I.S.S.A. do Galo. São perceptíveis os pontos entre as letras da palavramissa, ato de culto mais importante e vinculativo do catolicismo, memorial daredenção. Os pontos eram acentuações ou chamariz para uma festa que usariaobjetos e utensílios da sagrada liturgia católica e manipulava seus símbolos. ODJ se vestiria de padre e as recepcionistas de freiras. Haveria diabinhos eanjinhos e até a santa cruzdo Redentor seria usada como enfeite. 

Qual o objetivo de tudo isto?Debochar do sagrado e ridicularizar a fé? Certamente. Ganhar dinheiro?Seguramente. Os patrocinadores sabiam que havia público, ávido de novidades, epretendiam se acobertar no silêncio dos indiferentes. Foi possível deter atempo com o recurso à Justiça. 

Como há males que vem para obem, podemos agora refletir. Como dizia Paul Ricoeur: “o símbolo dá a pensar”.Portanto, chegou a hora de estudá-lo com nosso povo porque a simbologiacatólica compreende e expressa à fé, especialmente através da simbologialitúrgica e devocional. Ricoeur também afirmara que “a fé dá a pensar” e esta,como sabemos, está vinculada aos símbolos, muitos deles tirados da SagradaEscritura. 

É pedagogia muito recomendadana catequese de crianças, jovens e adultos, na preparação da recepção dossacramentos, no ensino religioso nas escolas, na evangelização de um modogeral, adentrar na fé e na religião através do mundo dos símbolos. A beleza dosignificado simbólico fascina e humaniza.

A agressão ao sagrado atravésdo ridículo e do deboche é, antes de tudo, um problema ético para quem professaou não uma religião. Manifesta ódio, rancor, intolerância, ressentimento edesrespeito. Pode com o tempo levar a atitudes mais agressivas e destrutivascontra pessoas e templos, como se observa em alguns lugares do mundo. Arejeição da simbologia religiosa do outro desumaniza, bloqueia o diálogo e acompreensão e a aceitação do diferente e do novo. Embrutece as relações sociaisjá bastante desafiadas e comprometidas por várias formas de hostilidade e deviolência.

A permanência da simbologiacristã nos espaços culturais secularizados é instigante e mereceria um estudoaprofundado. Nestas breves indicações, temos como pano de fundo a vastainsistência do bem-aventurado João Paulo II sobre a necessidade de nova evangelização com novoardor e nova metodologia e, sobretudo, a evangelização da culturacontemporânea, muitas vezes expressão de contracultura. 

Na sociedade de consumo emque vivemos, não são mais os ritos e a simbologia que marcam o ritmo do tempo,são os ritos secularizados, bons e atraentes.  Existe o cinema, a partidade futebol e outros esportes, os programas de TV, passeios, viagens, o convíviocom parentes e amigos, a visita aos doentes.  Eis o sentido do domingo ede outros feriados dos dias santificados. A missa não é mais o centro para amaioria declarada de católicos. A vida secularizada secularizou os símbolos e atoshumanos.

Quem avalia o Natal e aPáscoa é o mercado. Em determinada loja da cidade já era Natal antes do Natal.O Papai Noel, muitas vezes criticado, tornou-se tão inocente e ingênuo diantede certas celebrações de comilança, de bebedeira e de devassidão, queenvergonhariam os antigos e depravados pagãos. Explica-se por que os símbolosque impregnam a cultura cristã são desrespeitados até ao deboche da missa“pontilhada”. É a perda do sentido do sagrado. 

O bom uso da nossasimbologia, além de “mais alta”, há de ser eficaz se relevar o germe daesperança, o testemunho da fé e o ardor da caridade, e se for retomada com abeleza da origem de seu significado, proveniente de Cristo Jesus. Se permanecersímbolo cristão, eleva à oração e projeta para a meta final. Eis nossaidentidade.


Por DomEdson de Castro Homem
Bispoauxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro/RJ


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