Formação

Ter Jesus como “amigo da família”

comshalom

lightstock_77126_xsmall_user_5094883No Evangelho do episódio das bodas de Caná, o que Jesus quis nos dizer ao aceitar participar de uma festa nupcial? Sobretudo,desta maneira honrou, de fato, o casamento entre o homem e a mulher, afirmando, implicitamente, que é algo belo, querido pelo Criador e por Ele abençoado. Mas quis ensinar-nos também outra coisa. Com sua vinda, se realizava no mundo esse noivado místico entre Deus e a humanidade que havia sido prometido através dos profetas, sob o nome de “nova e eterna aliança”. Em Caná, símbolo e realidade se encontram: as bodas humanas de dois jovens são a ocasião para falar-nos de outro noivado, aquele entre Cristo e a Igreja, que se cumprirá em “sua hora”,na cruz.

Se desejarmos descobrir como deveriam ser, segundo a Bíblia, as relações entre o homem e a mulher no matrimônio, devemos olhar como são entre Cristo e a Igreja. Tentemos fazê-lo, seguindo o pensamento de São Paulo sobre o tema, como está expressado em Efésios 5,25-33. Na origem e centro de todo matrimônio, seguindo esta perspectiva, deve estar o amor: “Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.

Esta afirmação – que o matrimônio se funda no amor – parece hoje ser algo óbvio. No entanto, só há pouco mais de um século se chegou o reconhecimento disso, e ainda não em todas os lugares. Durante séculos e milênios, o matrimônio era uma transação entre famílias, um modo de promover a conservação do patrimônio ou a mão de obra para o trabalho dos chefes, ou uma obrigação social. Os pais e as famílias eram os protagonistas, não os esposos,que frequentemente se conheciam só no dia do casamento.

Jesus, continua dizendo Paulo no texto aos Efésios, se entregou “a fim de apresentar a si mesmo sua Igreja resplandecente, sem que tenha mancha nem ruga nem coisa parecida”. É possível, para um marido humano, imitar, também neste aspecto, o esposo Cristo? Pode tirar as rugas de sua própria esposa? Claro que pode! Há rugas produzidas pelo desamor, por terem sido deixadas na solidão. Quem se sente ainda importante para o cônjuge não tem rugas, ou se as tem, são rugas diferentes, que acrescentam, mas não diminuem a beleza.

E as esposas, o que podem aprender de seu modelo, queé a Igreja? A Igreja se embeleza unicamente para seu esposo, não por agradar osoutros. Está orgulhosa e é entusiasta de seu esposo Cristo e não se cansa defazer-lhe louvores. Traduzido ao plano humano, isso recorda às noivas e àsesposas que sua estima e admiração é algo importantíssimo para o noivo ou omarido.

Às vezes, para eles é o que mais conta no mundo.Seria grave que lhes faltasse receber uma palavra de elogio por seu trabalho,por sua capacidade organizativa, por seu valor, pela dedicação à família; peloque diz, se é um homem político; pelo que escreve, se é um escritor; pelo quecria, se é um artista. O amor se alimenta de estima e morre sem ela.

Mas existe uma coisa que o modelo divino recordasobretudo aos esposos: a fidelidade. Deus é fiel, sempre, apesar de tudo. Hoje,esse assunto da fidelidade se converteu em um discurso escabroso que ninguém seatreve a fazer. Contudo, o fator principal da ruptura de muitos casamentos estáprecisamente aqui, na infidelidade. Há quem o nega, dizendo que o adultério é oefeito, não a causa, das crises matrimoniais. A traição acontece, em outraspalavras, porque já não existe nada com o próprio cônjuge.

Às vezes isso será inclusive certo; mas muitofreqüentemente se trata de um círculo vicioso. Trai-se porque o matrimônio estámorto, mas o matrimônio está morto precisamente porque se começou a trair,talvez em um primeiro momento só com o coração. O pior é que com freqüência,quem trai faz recair no outro a culpa de tudo e se coloca no papel de vítima.

Mas voltemos ao episódio do Evangelho, porque contémuma esperança para todos os matrimônios humanos, até os melhores. Acontece emtodo matrimônio o que ocorreu nas bodas de Caná. Começa no entusiasmo e naalegria (disso o vinho é símbolo); mas este entusiasmo inicial, como o vinho emCaná, com o passar do tempo se consome e chega a faltar. Então se fazem ascoisas já não por amor e com alegria, mas por costume. Cai sobre a família, senão se presta atenção, como uma nuvem de monotonia e de tédio. Também destesesposos se deve dizer: “Eles não têm mais vinho!”.

O relato do Evangelho indica aos cônjuges um caminhopara não cair nesta situação ou sair dela se já se está dentro: convidar Jesuspara o próprio casamento! Se Ele está presente, sempre se pode pedir que repitao milagre de Caná: transformar a água em vinho. A água do costume, da rotina, da frieza,no vinho de um amor e de uma alegria melhor que a inicial, como era o vinhomultiplicado em Caná. “Convidar Jesus para o próprio casamento” significahonrar o Evangelho na própria casa, orar juntos, aproximar-se dos Sacramentos,tomar parte na vida da Igreja.

Nem sempre os dois cônjuges estão, em sentidoreligioso, na mesma linha. Talvez um dos dois é crente e o outro não, ou aomenos não com mesma forma. Neste caso, que convide Jesus às bodas aquele dosdois que o conheça, e o faça de maneira – com sua gentileza, o respeito pelooutro, o amor e a coerência de vida – que se converta logo no amigo de ambos.Um “amigo da família”!

Pe. Raniero Cantalamessa, ofm

Formação: Setembro/2008


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *