Formação

Todas as nações se reunirão diante dele

comshalom

 Ezequiel 34, 11-12.15-17; 1 Coríntios 15, 20-26a.28;Mateus 25, 31-46

 Neste  Evangelho nosfaz assistir ao ato conclusivo da história humana: o juízo universal: «Quando oFilho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á noseu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará unsdos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas àsua direita e os cabritos à sua esquerda».

 A primeira mensagem contida neste evangelho não é a forma ouo resultado do juízo, mas o fato de que haverá um juízo, que o mundo não vem doacaso e não acabará por acaso. Começou com uma palavra: «Faça-se a luz…Façamos o homem» e terminará com uma palavra: «Vinde, benditos… Afastai-vosde mim, malditos». Em seu princípio e em seu final está a decisão de uma menteinteligente e de uma vontade soberana.

 Este começo de milênio se caracteriza por uma intensadiscussão sobre criacionismo e evolucionismo. Reduzida ao essencial, a disputaopõe quem, aludindo – nem sempre com razão – a Darwin, crê que o mundo é frutode uma evolução cega, dominada pela seleção das espécies, e aqueles que, aindaadmitindo uma evolução, vêem a obra de Deus no mesmo processo evolutivo.

 Há alguns dias, aconteceu no Vaticano uma sessão plenária daAcademia Pontifícia das Ciências, com o tema «Olhares científicos em torno daevolução do universo e da vida», com a participação dos mais importantescientistas do mundo inteiro, crentes e não-crentes, muitos deles prêmios Nobel.No programa sobre o evangelho que apresento em RaiUno, entrevistei um doscientistas presentes, o professor Francis Collins, chefe do grupo de pesquisaque levou ao descobrimento do genoma humano. Perguntei-lhe: «Se a evolução écerta, ainda resta espaço para Deus?». Eis aqui sua resposta:

 «Darwin tinha razão em formular sua teoria segundo a qualdescendemos de um antepassado comum e houve mudanças graduais no transcurso delongos períodos, mas este é o aspecto mecânico de como a vida chegou ao pontode formar este fantástico panorama de diversidade. Não responde à perguntasobre por que existe a vida. Há aspectos da humanidade que não são facilmenteexplicáveis, como nosso senso moral, o conhecimento do bem e do mal, que àsvezes nos induz a realizar sacrifícios que não estão ditados pelas leis daevolução, que nos sugerem preservar-nos a toda custa. Esta não é talvez umaprova que nos indica que Deus existe?»

 Perguntei também ao professor Collins se antes ele haviaacreditado em Deus ou em Jesus Cristo. Respondeu-me: «Até os 25 anos fui ateu,não tinha uma preparação religiosa, era um cientista que reduzia quase tudo aequações e leis da física. Mas como médico, comecei a observar as pessoas quetinham de enfrentar o problema da vida e da morte, e isso me fez pensar que meuateísmo não era uma idéia enraizada. Comecei a ler textos sobre asargumentações racionais da fé que não conhecia. Em primeiro lugar, cheguei àconvicção de que deve existir um Deus que criou tudo isso, mas não sabia comoera este Deus. Isso me moveu a levar a cabo uma busca para descobrir qual era anatureza de Deus, e a encontrei na Bíblia e na pessoa de Jesus. Após dois anosde busca, me dei conta de que não era inteligente opor resistência e meconverti em um seguidor de Jesus».

 Um grande autor do evolucionismo ateu de nossos dias é oinglês Richard Dawkins, autor do livro «God Delusion», A desilusão de Deus. Eleestá promovendo uma campanha publicitária que propõe colocar nos ônibus dascidades inglesas esta inscrição: «Deus provavelmente não existe: deixe de angustiar-see curta a vida» («There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy life»).«Provavelmente»: portanto, não se exclui totalmente que possa existir! Mas seDeus não existe, o crente não perdeu quase nada; se, ao contrário, Ele existe,o não-crente perdeu tudo.

 Eu me coloco no lugar do pai que tem um filho deficiente,autista ou gravemente enfermo, de um imigrante que foge da fome ou dos horroresda guerra, de um operário que ficou sem trabalho, ou de um camponês expulso desua terra… Pergunto-me como ele reagiria a esse anúncio: «Deus não existe:deixe de angustiar-se e curta a vida».

 A existência do mal e da injustiça no mundo é certamente ummistério e um escândalo, mas sem fé em um juízo final, seria infinitamente maisabsurda e trágica. Em tantos milênios de vida sobre a terra, o homem se adaptoua tudo; adaptou-se a todos os climas, imunizou-se contra toda doença. Mas a umacoisa ele não se adaptou nunca: à injustiça. Continua sentindo-a comointolerável. E a esta sede de justiça responderá o juízo universal.

 Este não será só querido por Deus, mas, paradoxalmente,também pelos homens, também pelos ímpios. «No dia do juízo universal, não serásó o Juiz o que descerá do céu – escreveu o poeta Claudel –, mas toda a terrase precipitará ao seu encontro.»

 A festa de Cristo Rei, com o evangelho do juízo final,responde a mais universal das esperanças humanas. Assegura-nos que a injustiçae o mal não terão a última palavra, e ao mesmo tempo não exorta a viver deforma que o juízo não seja para nós de condenação, mas de salvação, e possamosser daqueles a quem Cristo dirá: «Vinde, benditos de meu Pai, entrai em possedo reino preparado para vós desde a fundação do mundo».


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