Dom Pedro José Conti
Osditados do povo acompanham a nossa vida. Os encontramos em todos oslugares e para todos os gostos. Numa certa região deste mundo o povodiz: “os pais eternos crucificam os seus filhos”. Quando ouvi esseditado achei que era muita falta de respeito com o Divino Pai Eterno erelativo Filho. Hoje penso diferente. A sabedoria popular simplesmentequer nos lembrar uma verdade evidente, e para muitos uma durarealidade. Quem teve, ou tem, um pai autoritário que impõe de qualquermaneira a sua vontade, acaba sofrendo. Ainda hoje existem pais que seacham no direito de decidir pelos filhos e as filhas, exigindoobediência cega. Usam todos os meios, desde a violência até a chantagememocional. O que vale mesmo é que os filhos, ou as filhas, continuemfazendo o que eles mandarem. São aqueles pais que se achamtodo-poderosos e acabam crucificando os seus filhos. As conseqüênciaspodem ser diferentes. Alguns filhos ficam submissos a vida inteirasonhando com a libertação, outros se revoltam, saem de casa, buscando oseu caminho na vida. Poucos conseguem amar esse tipo de pais.
Lembrei-medeste ditado popular refletindo sobre o evangelho deste domingo,chamado de o Batismo do Senhor, domingo que encerra o tempo litúrgicodo Natal. A voz do céu proclama: “Tu és meu Filho amado, em ti ponhomeu bem-querer”. Como conciliar essas palavras tão maravilhosas, essadeclaração de amor, com a cruz de Jesus, com o silêncio do Pai na horado Calvário? Parece impossível que um Pai que tanto ama o seu Filhopossa entregá-lo nas mãos dos perseguidores. Para nós amor e sofrimentonão podem andar juntos. Quem ama não pode querer o sofrimento e a mortedo amado. Nem pensar! Mas, e se fosse por um amor maior, por algo quejustifique tamanha entrega, seria possível?
Nesse sentido, nós pobres serem humanos limitados, sempre teremosdificuldade de entender o amor de Deus. O amor divino sempre nossurpreenderá e sempre estará além da nossa compreensão.
Oque podemos entender pelas palavras do Novo Testamento é a perfeitasintonia e a comunhão de amor entre o Pai e o Filho. Esse Amor,inclusive, tem nome: é o Divino Espírito Santo. Portanto o projeto deamor do Pai é também do Filho e do Espírito Santo. O Pai ama o Filho e,de comum acordo, se se pode dizer assim, amam a humanidade e decidemsalvá-la. Entre Eles o amor é um único e perfeito amar e querer.
OPai ama enviando o Filho e o Filho ama obedecendo ao Pai eentregando-se totalmente à missão. Custe o que custar, até a morte e amorte de cruz. A obra se completa no silêncio e no sacrifício doCalvário, mas também no primeiro dia da semana, no dia radioso daPáscoa da Ressurreição. É até fácil dizer tudo isto. Perceber o tamanhoe a riqueza dessa dinâmica de amor é o nosso problema. Temosdificuldade de reconhecer que se pode amar até o sacrifício e a doaçãode si próprios.
Noinício da sua vida pública o Filho escuta as palavras do Pai que são deamor. Justamente a missão que foi entregue ao Filho será tão difícilque Ele precisa ouvir essas palavras de encorajamento e confirmação. Oresto da história já o conhecemos.
Éo caso de nos perguntar quantos pais sabem encorajar os seus filhos, emlugar de crucificá-los com mandos e desmandos. Como também nosperguntar se acreditamos num amor capaz de dar a própria vida. Talveznão de uma vez, mas aos poucos, no dia a dia, no serviço silencioso, nadedicação e na honestidade. Amor de esposos e esposas, amor de pais efilhos, amor de irmãos, amor de amigos.
Éaqui que entra também o nosso batismo, para nós recebido em nome do Paie do Filho e do Espírito Santo. Se não foi um mero ritual parasatisfazer a consciência dos pais, e se tornou compromisso com aeducação cristã dos filhos, nós também precisamos cumprir uma missão.Aliás, dar continuidade à missão que Jesus recebeu do Pai: continuar aamar a humanidade, acreditar nela ao ponto de gastar, para isso, anossa vida.
Nós,hoje, merecemos mais ou merecemos menos o amor divino? Continuamosindiferentes, cobiçando o poder e o dinheiro, continuamos a desprezar avida e o jardim no qual moramos. Quem está disposto a dar a própriavida por causa da humanidade, que nos parece tão perdida, sem chance dese resgatar? Ainda bem que Deus nos amou primeiro e continua a nosamar. Nos ama no Filho que fala em nome do Pai que o enviou, nos ama emtodos aqueles e aquelas que aceitam entrar no jogo do amor, por amor.Até a cruz, se precisar.