Usava roupas fora de moda. Os cabelos crescidos e oleosos caiam na testa. Suas unhas eram grandes, ferramenta esta, que dedilhava o violão nas horas vagas, acompanhado da percussão das batidas dos corações sem dono. De cara o rejeitou por sua aparência, mas o olhar de menino carente dizendo “cuida de mim”, pousou sobre ela… foi irresistível, quando se conheceram pela primeira vez por acaso.
A inteligência dele era um verdadeiro cartão de visitas. Bom papo, simpatia e simplicidade, atraiu a garota por horas em um cafezinho. Ele tinha muitas histórias para contar. Suas sobrancelhas avantajadas, por trás dos óculos de grau embaçados, esquecidos do asseio, desapareciam com seu sorriso largo. Aliás, para ela, tudo isso sumia em relação a ele…. Estava encantada!
– É um diamante que precisa ser lapidado! Pensou ela quando reparou de mais pertinho sua aparência.
Tentaram se entender. Ela princesa! Arrumada e perfumada. Ele suado e desarrumado. Se dizia básico. Raramente usava perfume. Não tinha vaidades… Ela animada. Ele lecionava. Ela escutava. Ele falava e filosofava. Era um mestre. Feliz, não ligava para a aparência própria, e raramente elogiava a dela. Queria alguém para conversar e que o entendesse, não importava o lugar.
– Mais um cafezinho, por favor! Já quase meia noite e o papo cabeça amanhecia sem fim.
No começo tudo era bom! Parecia terem sintonia. Ela sempre tinha uma desculpa, até mesmo se justificava por ele, pelo seu jeito de ser relaxado. Achava “cult” namorar alguém diferente, afinal ele tinha conteúdo.
– Ele é um fofo, um cara com quem aprendo muito… Mas no fundo desconfiava que estava começando a cansar do ogro em sua vida. Não tinha coragem de conversar e falar a verdade sobre seu aspecto e alguns maus modos. Sabia de seus apelidos e comentários nas rodas de amigos. Também não via reciprocidade, o esforço da mudança era unilateral.
Quanto mais ela se arrumava para ele, mais o namorado relaxava em si mesmo. Ela malhava, querendo dar o exemplo, ele engordava devorando ao mesmo tempo os livros e os lanches, saciando sua fome de saber e de comer. Quando teve finalmente a coragem de falar e corrigir por amor, ele se magoou. Quando dava um tempo, ele se acomodava na certeza de que finalmente tinha encontrado um amor que não ligava para as aparências. Ele, o ogro, era cheio de razões. Intelectual, contestava a vaidade masculinidade com fortes argumentos e teorias, o que para ela cheirava mal.
Sabia que deveria amar mais o interior e as virtudes dele, que eram muitas… porém o seu exterior a cada dia fugia de um estilo próprio, se transformando em um caos, afetando até mesmo a ascensão profissional dele… Finalmente rompeu o namoro.
– Já deu! Não queria mais amar somente uma parte dele. Desejava que ele fosse belo por inteiro.
Viu que não suportava mais a indiferença dele consigo mesmo. Aprendera na vida que mesmo em momentos ruins, deveria se arrumar. Se não fosse para si mesma, seria pelo menos em caridade por aqueles que encontraria durante o dia. Uma vaidade sadia, fazia sim, parte do seu ser feminina.
A inteligência que ela admirou um dia, fora ofuscada pelo egoísmo do amado, por não tentar sair de si mesmo e de seu comodismo. Não era falta de vaidade. Suas teorias, na prática, revelavam sua imaturidade. Era resistente. Precisava de tempo, concluiu ela.
Unhas limpas e escarnadas, barba aparada e desenhada, corte de cabelo da moda, perfume agradável, sobrancelhas discretamente depiladas e corpo ligeiramente malhado era o seu novo visual. Descobriu que não bastava apenas ser culto. Assumira por forças das circunstâncias afetivas um pouco da vaidade masculina, depois de sofrer alguns bullying da parte feminina, e descobrir que o chamavam de “ogro-sexual” pelas costas. Estava irreconhecível! Era outra pessoa.
-Oi! Disse ele timidamente.
– E aí, tudo bem? Respondeu ela sem graça quase muda. Cumprimentou por cumprimentar. Afinal, os olhares se cruzaram. Ela de fato, não o reconhecera de cara. Ficou alguns segundos em silêncio, atrapalhada. Enquanto olhava para ele, cavava em sua memória ram, visual e auditiva alguma referência real sobre o foco em sua frente. Desconfiava que ele não era tão estranho assim para ela.
– Nossa, como você tá diferente! Disparou quase à vontade. Não resistiu ao comentário depois de alguns anos do rompimento do namoro. Fisicamente, ou melhor, tudo nele não era mais o mesmo, a ponto de uma amiga cochichar baixinho o nome dele para confirmar a veracidade de tão grande mudança.
Conversaram um pouco. Na despedida ela percebeu em seu coração, ao ver o ex-ogro transformado em príncipe e o menino transformado em homem, a sua mudança não só exterior, mas interior.
Foi quando de repente ouviu suavemente ao pé do ouvido:
– Posso te ligar?

Muito lindo! Parabéns, Ângela! Deus te abençoe!
Texto maravilhoso, traz doçura ao coração saber que o ser humano pode mudar.
rsrsrs, que texto show!