Os contextos sociais, políticos e econômicos definiram o dia de hoje para celebrar a mulher, mas eu sempre desconfiei que a vida fosse feita pra ser eterna, justamente pra caber a imensidão do nosso coração e dos nossos sonhos. Um dia não é suficiente…
Nunca pensei que fosse tão difícil escrever sobre o Dia da mulher, existe a necessidade de se esquivar pra não cair no lugar-comum dos clichês. Então… Resolvi escrever sobre o privilégio. Esta é a palavra que melhor define qualquer mulher, porque nada pode ser mais glorioso do que o dom de gerar a vida, não existe nada mais luminoso do que contar os dias, os meses para ver um rostinho desconhecido que passa a ser todo seu mundo, e não se trata de romantizar a maternidade e seus desafios, trata-se de saber que é uma riqueza superior a todas as contrariedades.
Não posso comentar sobre o Dia da Mulher sem evocar os seus direitos e, sobretudo não posso deixar de dizer que direitos são diferentes de privilégios.
Quero ter o direito de ser frágil, de chorar, de não ser só e contar com o suporte dos que me cercam. Quero ter o direito de descobrir a beleza de servir, sem que me aprisionem na mentalidade de dominar.
Quero ter o direito de entender a submissão como um bem aceitável, disposição de quem docilmente escolhe obedecer e amparar, suportar e impulsionar missões que não são suas.
Quero ter sonhos nobres, quero ter sonhos grandes, sem que eles sejam barateados por precisar de dinheiro pra ser realizados.
Quero ter o direito de não ter medo do tempo, dos anos passando, das marcas ao redor dos olhos chegando. Quero ter o direito de não precisar estar sempre jovem e atraente, quero a alegria de descobrir a beleza em todas as fases da vida, de apreciar as mudanças internas e externas com gratidão e certeza de que dei o meu melhor. Quero ter o direito de possuir o equilíbrio que a pressa nos rouba.
Quero ter o direito de que não me contem mentiras, mentiras disfarçadas de direitos, mentiras disfarçadas de liberdade. Quero ter o direito de que não tentem me convencer que a paz é assassina, que a pretensão do bem-estar, da perfeição, da saúde física e mental é parâmetro para decidir quem morre e quem vive.
Quero ter identidade. Quero saber quem sou eu: Filha de Deus, mãe, Shalom. Criada, atraída, suportada, esperada e salva por um Deus que me ama em uma Vocação de Paz. Um Deus que sonha comigo, pois sabe que quando sonho só, sou decepcionada. Um Deus que me educa em cada sim e não e me ensina que se for por Sua vontade, não há diferença entre ganhar ou perder, partir ou ficar, viver e morrer, sorrir ou chorar. Tudo está dentro da liberdade e da nossa história de amizade e amor.
Sou profundamente feliz por ser mulher, por saber-me tão amada por Jesus, por Ele emprestar-me sua Mãe Admirável.
Sou profundamente feliz por ser Igreja, que desde sempre eleva suas mulheres a excelência.
Sou profundamente feliz por ser mãe, pelo presente que é a maternidade, presente mesmo, pois eu jamais saberia ou poderia escolher algo tão bom.
Por fim, sou profundamente feliz por não ser igual, porque Deus é criativo e nos fez diferentes dos homens, nos dando a alegria permanente de descobrir a inesgotável complementaridade.
Uma vez escutei que era impossível ao homem conhecer o coração da mulher, pois enquanto Deus a criava, o homem dormia. Acho que foi neste instante que Deus contou que dividiria conosco o dom de gerar a vida. Acho que enquanto o homem dormia, a mulher já descobria o que era o amor.
Fabielle Gomes
Shalom Belém