A arte é um dom de Deus! Sim, a arte é um dom de Deus e por meio dela podemos ser alcançados por diversas emoções, sentidos e sensações que podem nos levar a voltar o nosso olhar e o nosso coração para o alto.
Um lugar silencioso (A quiet place), filme de 2018, dirigido por John Krasinski, apresenta ao espectador uma realidade embebida de distopia de uma família que precisa lidar com um monstro que não se sabe de onde surgiu, mas que, no entanto, já dizimou grande parte da população mundial.
De imediato é possível descobrir que estes monstros não conseguem enxergar. Embora, ao menor barulho eles são atraídos e atacam. Tornando mais claro: o drama da família é sobreviver fazendo o mínimo barulho possível.
Talvez você se pergunte “Ué, mas o que um filme de 2018 ainda tem a ser debatido?” Muita coisa! O filme em questão carrega em si muitas singularidades que precisam ser pontuadas e observadas.
Desde já, para que ninguém reclame ou diga que eu não avisei, deixo aqui o meu alerta de spoiler. Se você não liga pra spoiler ou já viu o filme, desejo que siga em frente e que tenha uma ótima leitura comigo.
Ora et labora
São Bento de Núrsia, monge do deserto, criou a regra para os Mosteiros Beneditinos que se pautava no pensamento contido na sentença “Ora et labora, Deus adest sine mora” – “Reza e trabalha, Deus se apresenta sem demora”.
E esse pensamento beneditino é vivenciado pela família protagonista da história aqui debatida.
Podemos observar logo nas primeiras cenas como a família dos Abbots vive uma vida monástica desde a divisão dos trabalhos de cunho doméstico – como estender roupas, preparar as refeições, entre outras situações – até as atividades relacionadas ao campo, ao cultivo de alimentos, ao plantio.
Além disso, é possível contemplar ainda, em uma cena antes de realizar a refeição, a família rezando unida suas preces silenciosas, mas que, não obstante, eram fervorosas.
Uma curiosidade importante a ser pontuada é a que o Dom Robert Barron pontua sobre o sobrenome da família. Ele escreveu que que os “Abbots” significam “abades”, na língua inglesa (curioso, não??).
A sacralidade do matrimônio
Uma das coisas que certamente merece destaque é a forma como o matrimônio é apresentado.
Desde a divisão de atividades diárias, conforme dito anteriormente, até a postura com que lidam com as questões familiares dentro da história. É importante destacar os seguintes aspectos:
Cooperação sem anulação da autoridade do outro
Em determinada situação, Evelyn (Emily Blunt) está ensinando matemática ao seu filho Marcus (Noah Jupe) quando Lee (John Krasinski) chama Marcus para que juntos possam ir à cidade procurar mantimentos para a família.
No entanto, por medo, a criança pede à sua mãe que não o deixe ir à cidade com seu pai, mas qual é a postura da personagem de Blunt?
Ela, muito sabiamente, o convence ao ressaltar que ele estará protegido, pois o seu pai cuidará dele e não deixará que nada o aconteça.
Além disso, na cena seguinte, Regan (Millicent Simons), a filha mais velha do casal, pede para ir à cidade também, mas seu pai a impede e pede que fique com sua mãe. Visivelmente contrariada e irritada, a adolescente se retira.
O que eu quero pontuar com esta cena é que Evelyn poderia muito bem ter tentado convencer seu esposo a levar a filha, não obstante, ela não o faz; respeitando a autoridade de pai que Lee exerceu naquela situação.
Proteção à vida
Ao meu ver, o principal conflito da história é o fato de que a Evelyn está grávida e o momento do parto já se aproxima.
Em um mundo que prega o aborto com a justificativa de que uma criança atrapalha os planos daqueles que serão seus pais, chega a ser incrível ver que no cinema nos é apresentado uma família que precisa fazer o mínimo de barulho possível para sobreviver, mas que opta pela vida daquele que está no ventre de sua mãe.
Parece loucura ter essa decisão de lutar pela vida. Mesmo que tudo que os rodeia mostre que é uma insanidade ter uma criança a qual irá colocar em risco a vida da família inteira. É, meus irmãos, andam chamando o amor de loucura!
O erro e a culpa
A construção do relacionamento de Regan e Lee, seu pai, é extremamente interessante de se acompanhar. A filha é uma adolescente surda e acredita que o pai dela deixou de amá-la por conta da falha que ela cometeu que ocasionou na morte de seu irmão mais novo.
Quantas vezes o pecado já não fez o mesmo conosco? Muitas pessoas acreditam que Deus está distante delas, pois seria impossível que o Pai permanecesse as amando apesar de seus pecados, não obstante, no fim do filme temos a comprovação de um amor que não se esgota. De um amor que ama até as últimas consequências.
A mulher silenciosa
A personagem Evelyn Abbot com uma interpretação interiorizada e intimista, em todos os seus atos, age com as suas expressões faciais, seus gestos e, sobretudo, com o seu silêncio. E, além do silêncio, muitas outras características da personagem, nos relembram Maria, a Mãe de Jesus.
O que dizer, por exemplo, da cena em que a criatura a persegue após ela furar o pé em um prego e entrar em trabalho de parto?
É como se, naquela cena, pudéssemos contemplar uma releitura da passagem bíblica que diz “Estava grávida e gritava em dores, sentindo as angústias de dar à luz. (…) Deteve-se diante da mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desce à luz, lhe devorasse o filho” (Apocalipse 12, 2; 4b – 5a) e “o Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz a um menino”.
Minha vida ninguém toma, eu a dou livremente
O ápice do filme se dá quando o patriarca dá a própria vida pela salvação de seus filhos que estavam em perigo (eu preciso falar alguma coisa pra pegarmos a referência?).
Quando ele não vê mais solução para salvar a vida das duas crianças que estão dentro de um carro ao serem atacadas por uma das criaturas, ele olha no fundo dos olhos da sua filha (isso, a filha que não se sentia amada). E, com a linguagem de sinais, fala de seu amor para a filha, mas, muito mais do que falar, ele prova esse amor.
E essa prova é concretizada quando ele dá um estridente brado, atraindo, assim, a criatura para si e deixando seus filhos livres para fugir.
Eu devo assistir ao filme?
Se você ainda não assistiu, corra e assista! Eu poderia citar ainda outros aspectos técnicos, mas o que você precisa saber é que é uma história de amor, um amor heroico, não um amor piegas, mas um amor real que exige sacrifícios e renúncias.
Prepare sua pipoca e aproveite o filme!
Ficha técnica

Título: Um lugar silencioso
Diretor: John Krasinski
Ano de lançamento: 2018
Por Kayron Kaic
