No último dia 04 de setembro às 10h, horário de Brasília, iniciou a transmissão pelo YouTube da abertura do 52º Congresso Eucarístico de Budapeste na Hungria. Enquanto assistia a pré-abertura, cheguei a pensar em fazer outra coisa, mas não consegui, foi impossível não estar inteira naquela transmissão. Estava passando uma entrevista com 3 jovens que haviam sido escolhidos para fazerem a gravação oficial do hino do Congresso.
Escutando eles falarem tomei consciência de que apesar de não morar lá há 4 anos, ainda me sentia parte daquele povo, entendia tudo que falavam, era um vocabulário que há muito tempo eu não ouvia, mas que não importava, estava dentro de mim e ali naquele momento, entendia tudo. Compreendia não somente as palavras, mas o jeito das pessoas; a forma de estruturar as perguntas; o interesse deles por aquele assunto e a forma que explicavam.
Enfim, sentia que o meu entendimento ia além da língua, eu compreendia aquela cultura, e me sentia tocada por sentir que a conhecia não de modo superficial mais a fundo. Logo depois começou oficialmente o evento com a entrada de andores de Nossa Senhora junto com danças e músicas folclóricas húngaras.

“Não esqueçais da nossa pátria, dos pobres húngaros”
A música que escolheram era muito significativa, um hino antigo em honra a Virgem Maria chamado Boldogasszony Anyánk, composto de 12 estrofes que louva a Maria e ao mesmo tempo pede ajuda, proteção nos perigos e no final de cada estrofe repete o refrão: “Não esqueçais da nossa pátria, dos pobres húngaros”. Para os que não entendiam a letra da música talvez a sua melodia tenha soado muito triste para ser cantada na festa de abertura do Congresso Eucarístico, mas para quem entende o significado foi muito, muito lindo e neste momento eu comecei a chorar, acho que chorava com eles de emoção por tudo que significava aquele momento.
A Hungria já foi um grande país e tornou-se pequeno ao longo dos séculos, sempre lutando para não desaparecer do mapa, seja o território, bem como a língua e a cultura milenar que tentam preservar.
A Hungria desde a sua fundação como país católico no início do século XI, foi consagrada pelo Rei Estevão a Virgem Maria. Ele que antes de morrer se via pequeno, sem herdeiro para o trono, confiou à Virgem a proteção do povo que ao longo de toda a história, foi marcado por tantas guerras, antigas e recentes, incluindo as duas grandes guerras mundiais, o sofrimento sob o regime comunista. Assim, sob o manto protetor da Virgem Maria, foram salvos e protegidos, também a fé católica do povo, não obstante tantas provas permaneceu na base da sua cultura.
Lembrando de toda esta história louvava a Deus pelo caminho da inculturação do evangelho nesta terra que como semente permanece viva na cultura. No decorrer da apresentação as danças folclóricas recheadas de palavras de bençãos, aquelas danças muitas vezes de raízes pagãs serviam ali como expressão do povo para louvar a Deus. Como não reconhecer a beleza do evangelho e da Igreja revelada nesta cultura, tão particular, muitas vezes tão diferente para muitos.
Depois no final da missa de abertura do 52º Congresso Eucarístico de Budapeste, e como é de costume nas missas e festas solenes, se canta o hino nacional húngaro, que é uma oração, por isso se canta nas missas. Naquele momento voltei a me emocionar, sempre foi muito especial para mim quando morava lá em todas as festas cantar este hino, rezar junto com eles; lembro-me também das horas que passava escutando este hino e repetindo para aprender a cantar de cor, sentia-me tão feliz quando conseguia acompanhá-los sem errar até o final.
Porém o momento mais esperado por mim foi a missa de encerramento que teve a presença do Papa Francisco. E uma outra coisa muito especial que também está para acontecer. Há 12 anos estamos presentes na Hungria, nosso carisma como expressão do evangelho está se enculturando lá e nestes dias também se encontra na Hungria nosso fundador Moysés Azevedo, que foi convidado pelo Cardeal Arcebispo de Budapeste: Erdő Péter, para dar seu testemunho pessoal em um dos momentos do encontro nesta semana.

Ofertar novamente a vida aos pés de Pedro
Uma das coisas que mais chamou a atenção do Cardeal húngaro ao nos convidar, além do desejo muito particular que ele tem de estreitar os laços da “velha” Igreja húngara europeia com a ‘mais nova” Igreja latino-americana do Brasil, foi o fato de saber que nossa Comunidade teve início também dentro de um congresso eucarístico há 40 anos em 1980 no X Congresso Eucarístico em Fortaleza, quando Moysés convidado a levar um presente para o Papa no ofertório da missa, ofertou a sua vida e juventude aos pés do Papa João Paulo II para evangelização dos jovens, dos homens e mulheres distantes de Deus e da Igreja.
Então depois de 40 anos o que aconteceu novamente, nesta missa, neste congresso eucarístico? Ali estava Moysés, ali estava o Shalom, uma bela oportunidade de renovar a nossa oferta de vida aos pés de Pedro.
Esse fato é tão significativo se pensarmos na força deste gesto e os sinais que a história nos deu, como aconteceu na Arquidiocese de Fortaleza no pequeno Ceará do Brasil de 1980, acontece também nestes dias na Arquidiocese de Budapeste, na pequena Hungria da Europa: Ali como Comunidade renovamos a nossa oferta de vida pela evangelização dos jovens, dos homens e mulheres de todo o mundo e especialmente da Europa que tanto têm se distanciado das suas raízes cristãs. Não será para nós como Igreja, Comunidade e Carisma Shalom, um novo tempo de semeadura, de parresia, criatividade na evangelização e fecundidade vocacional?
É o que eu rezo e peço a Deus que aconteça. Eu realmente acredito na força do anúncio do Evangelho, encarnado também nas nossas vidas e através dela, somente isso que Deus nos pede, fé e oferta de vida. Todo o resto é ele quem faz, não existe cultura, mais difícil ou mais fechada se existe a fé e a coragem de homens e mulheres em ofertar a vida e colocá-la com confiança nas mãos de Deus para Ele aí realizar a sua Obra Nova.
Então à ela, a Grande Rainha dos húngaros, como gostam de dizer na Hungria, consagramos este dia:
Boldogasszony Anyánk, régi nagy Pátrónánk!
Nagy ínségben lévén így szólít meg hazánk:
Magyarországról,
Édes hazánkról,
Ne felejtkezzél el
Szegény magyarokról!
Nossa Senhora, nossa grande e antiga padroeira!
Por estar em grande necessidade, nosso país se dirige a Ti:
Da Hungria,
nosso doce país,
Não esqueçais
dos pobres húngaros!
Joicy Nazareth, Missionária da Comunidade de Vida
