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Um pobre e uma rica lição para este tempo de crise

Seu Alencar me apontou, bem concretamente, uma maneira virtuosa de viver este tempo de crise e esta Semana Santa.

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Foto: Unsplash

Ouvi uma história que me emocionou muito e me fez refletir também. Resolvi te contar! O contexto também me impulsionou a dividir esta experiência. Pense aí! Estamos no meio de uma pandemia, e isto nos faz, às vezes, ter algumas inseguranças a respeito da nossa vida e dos nossos recursos, nossa tendência é querer reter, guardar, ter garantias. Estamos na Semana Santa e isto nos faz refletir sobre a Paixão de Cristo, sobre Seu abandono, sobre como mergulhar neste mistério de maneira nova neste ano tão atípico.

Tenho uma amiga que também é missionária como eu, mas ela mora em outra casa com outros irmãos. Já havia ouvido algumas vezes que a casa dela sempre recebe a “visita” de um senhor bem querido que vive em situação de rua. Ele aparece todos os dias para buscar o almoço. E é este senhor o personagem principal deste texto.

Confesso que fui muito surpreendida pelo relato desta minha amiga missionária sobre uma das aparições do famoso senhor Alencar. Num domingo, dia do Senhor, Alencar apareceu na porta daquela casa de missionárias acompanhado por uma moça. Ninguém ali conhecia a mulher, mas considerando sua aparência, ela não era uma irmã em situação de rua como ele.

A ideia do senhor Alencar

Alencar animado foi logo dizendo: “Olha eu vim trazer uma cesta básica para vocês! Esta moça me encontrou na rua e quis me dar a cesta, aí tive a ideia de trazer ela aqui para deixar a cesta com vocês”.

A moça entregou a cesta nas mãos daquela missionária e imagino que a cena deve ter sido um pouco desconcertante. Uma dando a cesta, a outra recebendo, e quem parecia estar mais satisfeito com a situação era o pobre Alencar que saiu de mãos vazias. Buscando demonstrar gratidão, a missionária disse ao Alencar que ela ia guardar a comida, e que ele poderia passar sempre por ali, e pegar aos poucos o que precisasse. Ao ouvir isto o nobre homem surpreendeu novamente dizendo: “Não! É para vocês! Porque se o alimento ficar aí, vocês podem ajudar mais pessoas, não é para ficar só para mim”!

E foi assim que o homem bom em situação de rua deu uma cesta básica para a casa dos irmãos missionários! Na ocasião, ele entrou na casa, que chamamos “casa comunitária”, junto com a mulher doadora da cesta básica. Ele mostrou a casa a ela, e disse que aqueles irmãos eram sua família.

Uma imensa obra de evangelização

Imagine a imensa obra de evangelização que este homem realizou na vida daquela mulher anônima! Ela só queria dar a ele uma cesta básica, e acabou testemunhando toda a generosidade daquele homem, e conhecendo uma casa de missionários. E para mais espanto da minha parte a história não parou por aí!

Passado alguns dias, a mulher bateu à porta da casa de minha amiga missionária trazendo uma sacola com biscoitos e outras coisas, dizendo que não havia mais encontrado o senhor Alencar, e por isso passou ali para deixar a sacola. Ela pediu que a sacola com aqueles agrados fosse entregue a ele, já que ele costumava passar por ali.

Ao ouvir isto, pensei que esta mulher realmente acreditou que naquela casa estava a família daquele senhor. Ela não encarou o ocorrido com um estranhamento desconfiado. Ela queria ajudar o homem, e não pensou que deixando aquela sacola ali, os mantimentos seriam usados para outro fim. Ele havia apresentado aqueles missionários como a família dele, e a mulher enxergou verdade nesta relação.

Aí, como de costume, Seu Alencar veio buscar o almoço e recebeu a sacola com as coisas que a mulher havia deixado para ele. Minha amiga me contou que ao receber a sacola das mãos dela, ele, com alegria sincera disse: “Ali na rua de baixo tem um senhor, pai de família, que olha carros. Ele não tem nada para comer, então vou lá dividir estas coisas com ele”.

Não consigo descrever exatamente o que a história deste senhor causa em mim, é um misto de admiração, compaixão, alegria e até vergonha. Lembro-me de quando Jesus diz: “Bem aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos céus (Mt 5,3)”. Imagino que o Deus lá do céu sorri quando vê cenas assim. E me convenço mais uma vez sobre o quanto devo clamar a graça de ter um coração pobre!

Uma maneira virtuosa de viver este tempo de crise

É claro que poderíamos levantar várias questões a respeito da vida que o Alencar tem e lamentar o fato dele estar vivendo nas ruas agora. Mas o foco aqui não são as dificuldades e as condições adversas que ele vive. Emociona-me saber que a circunstância dura e triste da vida dele não pode arrancar de seu coração a bondade e o desejo de partilhar.

Comecei este texto falando da pandemia e da Semana Santa e termino refletindo sobre como as situações exteriores, por piores que sejam, não podem impedir o bem que Deus imprimiu em nós de se manifestar e alcançar outras pessoas. Basta que nosso coração esteja aberto a isto!

Pode ser que tudo fora de nós esteja do jeito mais indesejável possível, mas se tivermos um coração humilde, mesmo na penúria, vamos encontrar uma forma de partilhar o pouco que temos e ver o milagre da multiplicação acontecer. Reter, ter medo de faltar, acumular para si, ver o outro como uma ameaça às minhas seguranças são posturas que assumimos por muitas pressões do mundo ao nosso redor, que acabam barrando as graças de Deus.

Seu Alencar me apontou, bem concretamente, uma maneira virtuosa de viver este tempo de crise e esta Semana Santa: com um sorriso sincero; com atitudes simples; valorizando a família; olhando sempre para as necessidades do outro; com disposição para partilhar o que eu tenho e o que eu sou, mesmo que seja pouco; confiando em Deus e no Seu cuidado que nunca falha; e também confiando na intercessão da Virgem Maria.

No final de tudo, minha amiga missionária disse que este homem deixou o portão de sua casa, com a sacola na mão, dizendo: “Eu sei que é Nossa Senhora que cuida de mim e me protege, então eu não posso ficar com tudo só para mim”. E fazendo o Sinal da Cruz sobre seu peito, Alencar foi embora, deixando para mim, para nós, uma rica lição e um desejo maior de conversão.

A evangelização não pode parar, doe agora!

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