Formação

Um só coração

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A Liturgia da Igreja nos introduz, em junho, na vivência de duas festas especialíssimas: o acontecimento de Pentecostes e a Devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Como podemos unir numa só reflexão estas duas grandes festas? Penso que seja recordando que Pentecostes é a festa da unidade gerada pelo Espírito Santo, unidade esta que brotou do Coração transpassado de Jesus por amor a todos nós.

“A Caridade de Cristo me constrange…”, declarava São Paulo como motivo da sua entrega total ao serviço de Cristo na evangelização dos povos. E não somente seu apostolado, mas toda a sua vida era uma resposta de amor àquele Coração transpassado na Cruz por amor a ele e a todos os homens. Cristo deixara-se transpassar para derramar seu Espírito Santo de amor sobre toda a humanidade. Consciente disto, São Paulo não media esforços para amar os homens e conquistá-los para Cristo.

Antes de encontrar-se com Cristo Ressuscitado, Paulo – antes chamado Saulo – era um zeloso fariseu, que acreditava agradar a Deus perseguindo veementemente os cristãos, em nome da única justiça que conhecia: a cega justiça dos homens. Mas um dia, o próprio Cristo se manifestou diante dele e lhe revelou que, ao perseguir aqueles homens, era a Ele próprio que perseguia. Ali aconteceu na vida de Saulo um grande Pentecostes, e no seu coração não houve mais lugar para a perseguição. Sua vida se tornou uma entrega aos homens por amor a Cristo, porque este era o desejo de Deus.

De fato, antes de entregar a vida por toda a humanidade, esta havia sido a oração de Jesus: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Deus entregou seu Filho amado para eliminar todas as sementes de divisão entre nós e nos dar vida verdadeira, vida em abundância. Com certeza, Saulo não estivera presente na Última Ceia, mas em Damasco o Espírito Santo realizou nele um Pentecostes, colocando em seu coração o desejo do Coração de Cristo: a perfeita unidade entre os homens.

E como a Caridade de Cristo não mediu esforços para salvá-lo, em Paulo foi impresso um novo modo de viver, que era o mesmo suscitado entre os primeiros discípulos: “A multidão daqueles que abraçaram a fé tinha um só coração e uma só alma, e ninguém considerava como propriedade sua algum bem seu; pelo contrário, punham tudo em comum” (At 4,32). Eles punham tudo em comum não para “pagar” benefícios recebidos uns dos outros, nem para “ganhar” algum benefício, mas para se devolver em amor a Cristo, que inaugurara para eles uma nova “economia”.

Unidade em meio às contradições

Por que é tão difícil ao homem contemporâneo acreditar e lutar por uma unidade assim, tão verdadeira? Será que entre os primeiros cristãos não se levantavam oposições contra a unidade? Com toda certeza, a Caridade era vivida por eles também em meio às contradições e às tentações, mas nada os impedia de tudo fazer para “serem um”, porque estavam fundados unicamente no fato de que Ele, o Cristo, por todos se entregara.

Nos dias de hoje, uma grande tentação contra a unidade parece ser a predominância do pensamento econômico nas relações humanas. Nos sistemas econômicos, as relações funcionam sempre na base da compra e venda. E o dinheiro é o instrumento desta troca. Segundo o pensamento econômico, faz-se necessário maximizar os lucros e diminuir cada vez mais os encargos. Mas, quando aplicado às relações fraternas, tal pensamento vai frontalmente contra a “economia divina”.
Na “economia divina” a salvação é gratuita, e a “troca” realizada por Jesus consiste em tomar sobre si o nosso pecado, para nos devolver a Salvação. Cristo trocou o nosso ódio pelo seu Amor, a nossa morte pela sua Vida em nós. Assim Ele nos resgatou. Uma “economia” assim nos inquieta, e nos constrange. É que Cristo não veio salvar “as coisas”; veio salvar pessoas humanas, criadas para viver eternamente com Ele. E pessoas estão, para Ele, infinitamente acima das coisas.

Mais uma vez recordamos as palavras de São Paulo: “A Caridade de Cristo me constrange…”. Só os corações constrangidos pelo amor de Cristo não põem condições para doar-se sem interesse nem cálculo algum, compartilhando tudo. Se Deus se entregou livremente, gratuitamente, inteiramente e indiscriminadamente por todos nós, como podemos nos relacionar de outra forma? E se na ordem da criação, primeiro vem o homem e depois as coisas, que a ele estão submissas, nas relações fraternas a “economia divina” deve prevalecer sobre todas as formas de “economia” baseadas no lucro.

Diferente da economia fundada pelos homens, na economia divina nossa “troca” não é com os homens nem nossa recompensa é o dinheiro, mas nossa troca é com Deus e a recompensa é primeiramente a vida eterna. E o resto será dado por acréscimo, porque em última instância é Dele que nos vem tudo: vida, saúde, bens e autênticas alegrias. Só Ele nos deu e tem tudo para nos dar.
Ninguém pode merecer ou pagar nosso amor ou nossos benefícios, mas Deus pode e sabe “pagar” como ninguém. Ninguém como Ele sabe nos “pagar” à altura, com “medida cheia, calcada, transbordante”. Por ter experimentado isto é que São Paulo confirma-nos o que diz o Evangelho: “Dai e dar-se-vos-á, com medida cheia…calcada…transbordante”.

Unidade para além de mágoas, medos… e cálculos

Grande tentação contra a unidade acontece quando damos vazão a mágoas e a medos de sermos enganados, ou recompensados com maldades pelo bem que fizermos. Na sua mensagem para a quaresma de 2001, cujo tema foi “A Caridade não leva em conta o mal”, o Papa João Paulo II coloca que “um coração reconciliado com Deus é um coração generoso” (n.5). De fato, alguém que percebe a verdade de ser amado gratuitamente, inevitavelmente se torna generoso para com Deus e para com o próximo.

São Francisco de Assis move até hoje muitos corações com o brado: “O Amor não é amado”. Onde o Amor não tem sido amado até hoje? Quando nos damos conta de que nosso semelhante também é amado por Deus e tem igual valor em qualquer circunstância, os valores transitórios como o tempo, o dinheiro, a comida, a casa, a roupa, deixam de ser bens para nós e passam a ser instrumentos eficazes para dizermos que sua vida vale o Sangue de Cristo. Aí já não calculamos se o outro “merece ou não” ajuda, porque se Jesus tivesse feito este cálculo não teria entregue sua vida por nenhum de nós.

Os primeiros discípulos punham TUDO em comum, porque sabiam que a eles Cristo não se dera pela metade, mas TODO, por inteiro! Depois de saber disso nada mais pode ser obstáculo para vermos em todo necessitado o rosto de Cristo que continua a nos dizer: “Cada vez que fizeres por um destes, é a mim que fazes”. Disto é que surgem as autênticas e duradouras iniciativas de caridade que não consistem em mero assistencialismo, em trocas humanas, mas no desejo de favorecer o desenvolvimento integral do outro, da sua alma, da sua mente, do seu corpo, assim como Deus em tudo nos favoreceu.

O Padre Raniero Cantalamessa faz uma feliz comparação da dinâmica do “dar de graça e de graça receber” com o movimento dos dois famosos veios de água da Palestina, que são o Rio Jordão e o Mar Morto: enquanto o primeiro, rico em afluentes, está sempre abundante, o segundo, que não distribui assim suas águas, é um mar…morto. O Padre faz esta comparação ao falar da unção do Espírito Santo que se derrama continuamente na vida daqueles que se dão generosamente, sem nenhum cálculo.

Quando temos medo de entregar generosamente o pouco que julgamos ser, ter ou fazer, para não ficarmos sem nada, podemos nos tornar como um mar morto, ou como aquele homem da parábola dos talentos, que perdeu até o pouco que tinha, por não usar conforme a vontade de Deus os seus bens. Mas quando damos passos na fé e generosamente partilhamos nosso tempo, nossos talentos, nossas coisas e a nossa vida sem medo de perder tudo, certamente nos tornamos como o abundante Rio Jordão.

Tal comparação me faz lembrar um pequeno trecho das nossas regras de vida, que nos anima, através do Amor Esponsal a Jesus Cristo, à vivência da unidade em qualquer circunstância: “O amor ao irmão é uma maneira concreta de mostrarmos o quanto amamos o nosso Amado, amando aquele a quem tanto Ele ama e por quem deu a sua própria vida. Como não dar a vida por aqueles por quem o Amado a deu? É vontade do Senhor que transbordemos este amor sobre aqueles que Ele ama. O Senhor quer de nós para com eles perdão, mansidão, paciência, generosidade, bondade, alegria, dedicação, amor e serviço. O Senhor deseja que demos aquilo que Ele nos dá e isto não nos empobrecerá, mas, pelo contrário, nos enriquecerá aos olhos Daquele que nos ama” (RVS, 228).

O que o Espírito Santo suscitou em seu coração ao ler estas palavras? O que lhe dizem pessoalmente as palavras de São Paulo: “A Caridade de Cristo me constrange”? Como chegam ao seu coração as palavras que traduzem a vida dos primeiros discípulos de Jesus, homens e mulheres movidos pelo Espírito, ou seja: “A multidão daqueles que abraçaram a fé tinha um só coração e uma só alma, e ninguém considerava como propriedade sua algum bem seu; pelo contrário, punham tudo em comum”?

Em São Paulo se manifestava o mesmo Espírito Santo que descera sobre a Igreja em Pentecostes, e seguramente habita em todos nós batizados. Peçamos ao Espírito Santo que abra os nossos olhos para que possamos enxergar o quanto Ele nos tem dado e nos mova a nos devolvermos por inteiro, em amor para com Ele e para com aqueles pelos quais Ele se entregou. E Ele, que se derramou do Coração transpassado de Jesus, pode realizar entre nós o que realizou na vida de São Paulo e entre os primeiros discípulos.

Peçamos ao Espírito Santo que nos recorde onde o Amor não tem sido amado. Depois de escutar no coração este brado, podemos compreender que nenhuma outra economia pode prevalecer nas relações humanas a não ser a da Salvação, ou seja: não há como doarmo-nos somente àqueles que nos serviram ou àqueles que podem e querem nos recompensar, mas por causa de Cristo, que é o Amor, decidirmo-nos a partilhar também livre e gratuitamente tudo o que somos, temos e fazemos.

Na festa do Sagrado Coração de Jesus, lembremos que foi deste coração transpassado que brotou o Espírito Santo para nós – somente Ele é capaz de eliminar toda divisão dentro e fora de nós e de gerar unidade semelhante à que existe entre Jesus e o Pai. E ao contemplar este Coração na Eucaristia, peçamos que dele nos venha a cada dia o Espírito Santo. E só então, constrangidos por este Coração Sagrado que nos amou até a entrega total de si, conseguiremos colocar em comum tudo o que somos, temos e fazemos.


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