Formação

Uma geração que ame a Bíblia

Pe. Caetano Minetti de Tillesse
Fundador da Comunidade Nova Jerusalém – Fortaleza

Nosso entrevistado é uma sumidade em Bíblia. Trata-se do Padre Caetano Minetti de Tillesse, Mestre em Bíblia. Chegou ao Brasil em 1968, instalando-se no Bairro Cristo Redentor, periferia de Fortaleza, onde desenvolve um belíssimo trabalho junto a essa comunidade carente. Aí fundou, em 1981, o Instituto Nova Jerusalém, e, em 1984, a Revista Bíblica Brasileira, que faz circular estudos científicos acerca da Bíblia, para aprofundar e atualizar sistematicamente o conhecimento crítico da Bíblia, e abrir um diálogo com o Brasil e o mundo.

Pe. Caetano, conte um pouco da sua história: vocação, entrada no mosteiro, decisão de vinda para o Brasil e estabelecimento em Fortaleza.

Pe. Caetano: Entrei no mosteiro cisterciense em Orval, na Bélgica, no dia 11 de fevereiro de 1946. Passei 22 anos no mosteiro, na vocação contemplativa, rigorosa. Uma vocação belíssima! Uma doação total e incondicional.

No mosteiro, comecei a me interessar pela Bíblia. Dediquei-me bastante aos estudos, então as autoridades mandaram-me a Roma, para licenciar em teologia – pela Universidade Gregoriana – e fazer Mestrado em Bíblia – pelo Pontifício Instituto Bíblico –. Depois retornei ao mosteiro e passei 11 anos ministrando aulas de Bíblia.

Então, mais ou menos na época do Concílio, senti no coração o desejo de fazer uma fundação diferente, mais próxima às necessidades e anseios do nosso tempo, do nosso século. Mas não na Europa, que tinha bastante fundações religiosas, ancoradas numa tradição de dois mil anos; acreditava que fosse melhor na América Latina. Assim, vim para o Brasil, e não me interessei pelo Rio de Janeiro, São Paulo ou mesmo Recife que já eram bem desenvolvidas.

Escolhi Fortaleza, mas não o bairro da Aldeota – bairro nobre da cidade –. Quando cheguei ao antigo Pirambu – hoje Cristo Redentor –, fiquei empolgado. Era o que eu procurava: um trabalho comunitário com o povo. Aquilo que eu vivia no mosteiro, queria viver no meio do povo mais simples, mais humilde, entre pescadores na beira da praia.

Cheguei ao Brasil em 1968 e desliguei-me do mosteiro. Fiquei totalmente à disposição da Arquidiocese de Fortaleza; simplesmente me enraizei aqui nesta comunidade pobre.

Como foi seu encontro com a R.C.C.?

Pe. Caetano: Em 1975, quando a Renovação Carismática chegou a Fortaleza, percebi que era a resposta àquilo que eu estava procurando. Aquela vida de entrega total que vivia no mosteiro agora podia ser vivida pelos leigos: homens, mulheres, pessoas casadas, crianças, adultos…

A Renovação é muito importante, mas para que não seja apenas “fogo de palha”, precisa ter um alicerce mais profundo, e esse alicerce, para mim, é a Palavra de Deus. Não é qualquer pensamento, qualquer teologia ou ideologia, não é isso o que interessa; porque as idéias dos homens viram moda, mas depois passam. Enquanto a Palavra de Deus permanece eternamente.

Então, para a construção de um mundo novo, a Palavra de Deus é elemento imprescindível. E a Palavra de Deus deve ser estudada, com criticidade. Essa Palavra é questionada pelo mundo inteiro, e nós não temos o direito de apresentá-la apenas de uma maneira edulcorada ou simplificada para o grande povo. É preciso aprofundar-se, estudá-la de maneira crítica, enriquecer-se desta Palavra que tem uma mensagem para o mundo de hoje. Às vezes se acha que ela nada mais diz para o mundo de hoje; diz sim, mas é preciso estudá-la de maneira muito aprofundada.

Para quem deseja se aprofundar no conhecimento bíblico, por onde deve começar?

Pe. Caetano: A primeira coisa que se recomenda, é a leitura da Bíblia de ponta a ponta. É importante a leitura contínua, mesmo corrida, de ponta a ponta. Porque se escolhemos um trechinho que gostamos, achamos bonitinho, que toca o nosso coração, isso fica superficial, não leva ao conhecimento profundo. Na leitura de ponta a ponta nós sondamos a mensagem de Deus, o seu plano, aquilo que Ele está querendo dizer. Do início ao fim.

Fale um pouco sobre a fundação da Comunidade Nova Jerusalém.

Pe. Caetano: Nós precisamos ser profetas, mas uma pessoa só não pode erigir-se profeta, “uma andorinha só não faz verão”. É preciso suscitar aqui no Brasil uma geração bíblica, um povo que leia, conheça, viva a Bíblia. E para isso uma pessoa só não basta, é indispensável uma congregação. Porque as pessoas morrem; a congregação, porém, continua estudando.

Assim, em 1981, foi fundado o Instituto Nova Jerusalém. Fiz questão de uma congregação mista. É essencial, porque a Bíblia é do povo de Deus, homem e mulher. E a maneira que a mulher lê a Bíblia é diferente da do homem. Por isso, é importante a leitura da Bíblia feita por ambos. É essencial a visão do homem e da mulher para a compreensão da Bíblia.

Além da Jerusalém mista consagrada, há a Jerusalém leiga. Não apenas os religiosos lêem a Bíblia, mas também os casados, com filhos… a Bíblia é também para eles. E a maneira de um leigo ler a Bíblia é diferente da maneira de um religioso. A Jerusalém leiga é um prolongamento essencial da Jerusalém religiosa.

Como e onde está hoje a Nova Jerusalém?

Pe. Caetano: A Jerusalém, além de Fortaleza, está em Belo Horizonte. A primeira razão dessa fundação em Belo Horizonte é o aprofundamento dos estudos. Aqui em Fortaleza só existe a filosofia e a teologia; é pouco, é preciso fazer pós-graduação, especialização, mestrado, especialmente em Bíblia. E o ensino dos jesuítas em Belo Horizonte é uma opção muito boa.

As mulheres têm os mesmos direitos dos homens, fazem os mesmos estudos de teologia e filosofia, da Bíblia. Devem ficar à mesma altura dos homens. Cada um tem a sua riqueza, a sua colaboração a dar.

Para a aprovação definitiva, a congregação precisa de 60 membros, dos quais a maior parte com votos perpétuos.

Qual a motivação para a fundação da Revista Bíblica Brasileira?

Pe. Caetano: Estuda-se Bíblia não apenas para fazer-se professores, mas para ver qual o plano de Deus sobre esta humanidade. A Revista Bíblica, posso dizer assim, aponta para onde vamos.

Ela tem um nível um pouco elevado, técnico, porque não temos o direito de ensinar ao brasileiro apenas o básico. O Brasil precisa ter condições de entrar no diálogo mundial acerca da Bíblia e da evangelização.

A Revista Bíblica Brasileira (RBB) é, portanto, o órgão de comunicação do Instituto Nova Jerusalém, que se esforça por expressar uma leitura da Bíblia atualizada, exigente, a par da exegese moderna mundial, numa compreensão profunda da mensagem bíblica, Antigo e Novo Testamento – e mesmo dos Apócrifos inter-testamentários –, que possa se tornar o alicerce e o trampolim para uma nova evangelização para o terceiro milênio. Penso que, a partir do nosso bairro humilde e pobre, e a partir do estudo e da meditação profunda, uma nova luz de evangelização possa irradiar para o nosso Brasil e mesmo para o mundo inteiro.

Quero ainda dizer que aqui na Jerusalém temos uma biblioteca com um acervo muito bom, de cerca de 15 mil livros sobre Bíblia. É uma das melhores do Brasil, mas é insuficiente; para a pesquisa científica tem de ir além. E estamos sempre em contato com a biblioteca de “Lovraine”. Há, inclusive, um projeto de alguns especialistas de “Lovraine” virem ministrar alguns cursos; trata-se de uma colaboração entre Bélgica e Brasil. E fico muito feliz porque quero que o Brasil seja capaz de entrar em diálogo internacional.

Qual o trabalho social que se realiza com a ajuda de toda a Comunidade do Cristo Redentor?

Pe. Caetano: Nós trabalhamos não para o povo, mas com o povo. Não pensamos como “doutores da Lei”, que sabem tudo. Caminhamos com o povo e devagar; não é muito fácil, mas temos tentado caminhar e despertar no povo o conhecimento da Bíblia.

Aqui, nessa comunidade tão humilde, muita gente possui uma Bíblia. Interessante que tem gente analfabeta que, entrando na Renovação Carismática, consegue ler a Bíblia, é uma graça especial. Nós procuramos, portanto, crescer.

Também tem o trabalho, que eu considero muito importante, com as crianças, adolescentes e jovens que entram nesse conhecimento de Deus e da Bíblia. Tem cinco creches aqui na comunidade, cada uma atende a cerca de 100 crianças.

Por que se convencionou setembro como o mês da Bíblia?

Pe. Caetano: Por causa de São Jerônimo, cuja festa é celebrada no dia 30 de setembro. Ele era eremita, trancava-se para estudar a Bíblia. Teve a audácia de se colocar na escola dos rabinos, em Belém, para aprender o hebraico. Antes dos estudos de Jerônimo se lia a Bíblia somente em grego ou em latim. Mas ele fez questão de ler a Bíblia na língua original, de voltar à verdade hebraica, como ele dizia. Razão pela qual ele só aceitava os livros que constavam na Bíblia hebraica. Os deuterocanônicos, portanto, ele não aceitava. Jerônimo foi importante, mas limitou um pouco. E a primeira Bíblia cristã foi a grega, que conta mais livros do que a hebraica. Também os evangelhos foram escritos originalmente em grego.

Que mensagem o senhor dedicaria aos nossos Internautas?

Pe. Caetano: A Bíblia é palavra de Deus, é definitiva, mensagem que não volta atrás. A palavra dos homens passa, a palavra de Deus permanece eternamente. E não apenas isso, é mais importante ainda. A Palavra de Deus é criativa, ela faz aquilo que diz. Quando lemos essa Palavra, ela transforma e a nós e ao mundo inteiro. E lendo a Bíblia, tornamo-nos servidores da Palavra e co-criadores com Deus, participando do poder criador da Palavra, participando da transformação do mundo. E quanto mais procuramos entender a Bíblia, sendo autênticos, mais participamos da transformação do mundo inteiro, pelo poder de Deus.

Comunidade Católica Shalom


Comentários

[fbcomments]

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *