Neste texto, vamos refletir um pouco, claro, sem esgotar o assunto, sobre este tesouro doutrinário da nossa fé.
A teologia e a doutrina Trinitária sobre a natureza Divina foram, ao longo desses dois milênios de fé cristã, causa de muitas pesquisas e discussões de clérigos e teólogos. Aos poucos, essa doutrina trinitária tornou-se um solo seguro do rico patrimônio doutrinal e teológico da Igreja.
Essa convicção de fé professa que Deus, em sua existência e natureza perfeita, revelou-se de modo onipotente, onisciente e onipresente, revelando-se em três pessoas distintas, mas com uma só essência e natureza. Cada uma dessas pessoas é Deus por inteiro. Este é o mistério central da fé cristã e o ponto de partida para todos os outros mistérios.
O Pai Criador
Começamos a oração do Credo afirmando a nossa crença no Pai Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra, pois Ele é a primeira pessoa da Santíssima Trindade. Ele é, assim, a fonte da Vida.
Foi Jesus quem nos revelou a Deus como Pai, não só por ser o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas também porque Jesus é eternamente o Seu Filho Unigênito e, em Cristo, fomos elevados à categoria de filhos adotivos: “No seu amor nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua livre vontade” (Ef 1,5).
A distinção entre as pessoas divinas se dá, desse modo, a partir das relações que as referenciam umas com as outras: “Uma vez que não divide a unidade divina, a distinção real das pessoas entre Si reside unicamente nas relações que as referenciam umas às outras: Nos nomes relativos das pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao Pai, o Espírito Santo a ambos. Quando falamos destas três pessoas, considerando as relações respectivas, cremos, todavia, numa só natureza ou substância. Com efeito, n’Eles tudo é um, onde não há a oposição da relação. Por causa desta unidade, o Pai está todo no Filho e todo no Espírito Santo: o Filho está todo no Pai e todo no Espírito Santo: o Espírito Santo está todo no Pai e todo no Filho” (CIC, §255).
Eu e o Pai somos um – o Filho
Essa compreensão de fé sobre a Santíssima Trindade pôde ser fortalecida e fundamentada em muitos trechos das Escrituras Sagradas. Vejamos, então, algumas passagens bíblicas onde esse mistério é apresentado. Uma em especial que podemos recorrer é essa do Evangelho de João, onde o próprio Jesus faz uma significativa e surpreendente revelação:
“Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o CAMINHO, a VERDADE, e a VIDA; ninguém vai ao Pai, senão por mim. Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto. Disse-lhe Filipe: SENHOR, MOSTRA-NOS O PAI, e isso nos basta. Respondeu-lhe Jesus: HÁ TANTO TEMPO ESTOU CONVOSCO, e ainda não me conheces, Filipe? QUEM VIU A MIM, VIU TAMBÉM O PAI; COMO DIZES TU: MOSTRA-NOS O PAI? Não crês tu que EU ESTOU NO PAI, E QUE O PAI ESTÁ EM MIM? As palavras que Eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz as Suas obras. Crede-me que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras” (Jo 14,6-11).
Como podemos ver, nas próprias declarações de Jesus, ele realiza coisas que são impossíveis a um ser humano comum. Dizer então que ele e o Pai são um, significa dizer que eles compartilham da mesma essência. Alguém poderia, desse modo, se perguntar: por que Deus não converteu os corações com grandes e poderosos sinais? Foi necessário realmente fazer-se homem e ainda por cima morrer numa cruz?
Uma das respostas que poderíamos dar, mesmo sem esgotar o assunto, ou querermos “pegar o mistério nas mãos”, é: se o Deus Criador e glorioso tivesse denunciado os pecados dos homens, apenas nesta condição divina, sem se encarnar e assumir essa limitada natureza, alguém poderia argumentar: “Ah! Ele tem razão em denunciar os erros, vícios e pecados dos homens, ele é Deus, um ser perfeito! Ele não sabe o que é sentir fome, dor, medo e sede. Não sabe o que é estar desesperado, injustiçado, traído, com raiva, desprezado, negado. Enfim, não sabe o que é sofrer”.
Não foi um teatro. De fato, Deus se fez homem, mostrou-nos, com atos, que é próprio do amor abaixar-se, colocar-se no lugar do outro. “Pois, tendo ele próprio sofrido ao ser tentado, é capaz de socorrer os que agora sofrem tentações” (Hb 17,18). Vemos, assim, que a encarnação do Messias foi um ato concreto, de fato, nele Deus assumiu nossa natureza humana, sem deixar de ser Deus. Como Jesus Cristo disse, em revelação privada, à Beata Ângela de Foligno: “Eu não te amei de brincadeira”. Jesus, então, é essa segunda pessoa da Trindade Santa.
E o Espírito Santo, onde entra?
A terceira pessoa da Santíssima Trindade é o Espírito Santo. Ele é Deus, consubstancial ao Pai e ao Filho e é adorado e glorificado com eles. Onde ele entra na jogada? Infelizmente, muitos acabam ignorando o Espírito Santo ou enfatizando-o de modo utilitarista, como uma mera ação ou manifestação de Deus. De fato, Ele manifesta a Deus: “Ninguém pode dizer ‘Jesus é o Senhor a não ser pela ação do Espírito Santo’ (1Cor 12,3). ‘Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá! Pai!’ (Gl 4,6).
Este conhecimento da fé só é possível no Espírito Santo. Para estar em contato com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. É Ele que nos precede e suscita em nós a fé. Em virtude do nosso Batismo, primeiro sacramento da fé, a Vida, que tem a sua fonte no Pai e nos é oferecida no Filho, é-nos comunicada, íntima e pessoalmente, pelo Espírito Santo na Igreja” (CIC, §683). Porém, atenção: em Deus não existem diferenças entre aquilo que é, o modo como se apresenta e o que realiza. Deus é se apresentando, se apresenta realizando e realiza sendo. O Espírito Santo, assim, é Deus em movimento e ação. O que tem de discreto e simples, tem de perfeito, essencial e santo.
Como nos ensina o Catecismo, o Espírito é a terceira pessoa da Trindade porque foi-nos revelado por último: “O Espírito Santo age juntamente com o Pai e o Filho, desde o princípio até à consumação do desígnio da nossa salvação. Mas é nestes últimos tempos, inaugurados com a Encarnação redentora do Filho, que Ele é revelado e dado, reconhecido e acolhido como Pessoa. Então, esse desígnio divino, consumado em Cristo, Primogênito e Cabeça da nova criação, poderá tomar corpo na humanidade pelo Espírito derramado: a Igreja, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna” (CIC, §686).
Portanto, a nossa fé professa o credo em um só Deus em pessoas três, em perfeita unidade, da qual somos chamados a ser imagem e semelhança. É por isso que quando celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, mistério central da fé e da vida cristã, precisamos nos abrir à graça de encarnarmos em nossas relações familiares, fraternas e eclesiais, o maravilhoso e evangélico dom da unidade.
Espero e desejo de todo coração, que esse texto simples possa tê-lo ajudado a mergulhar nesse santo e divino mistério. Que, a partir de agora, até mesmo o tradicional sinal da cruz que evoca o Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, seja realizado de modo mais profundo e consciente.
Deus te abençoe sempre! Shalom!