O vício é triste. Nos aprisiona. Campanhas de conscientização e organizações pelo mundo afora buscam ajudar quem nutre o apego desenfreado de tantas mazelas. O problema, e todos sabem, é que apegar-se a certas coisas é prazeroso. Olhos virados, alívio reconfortante. E pronto, queremos voltar e experimentar de novo. De novo. Outra vez… Como um macarrão no microondas, instantaneamente, o mundo “melhora”. Inclinamos nossa triste realidade. Exaltamos as utopias.
Ressalto que nas próximas pobres palavras a seguir não cabe julgamentos. Cada um sabe a cela que está detido, mesmo sem entender bem o porquê. Ou não. Nem mesmo levantar questões médicas, psíquicas, ou psicológicas. Deixo isso para meus amigos da saúde.
Como jornalista, de humanas, escrevo esse texto, ou essa nota – porque quase ninguém tem o “vício” de ler até o final – sobre uma descoberta pessoal que fiz debaixo de uma boa árvore, em um belo dia de sol. E não, uma maçã não caiu e bateu na minha cabeça. (Espero que vocês entendam).
Percebendo o quanto sou egoísta – porque o sou convicto – me assustei com a nossa capacidade ser o nosso próprio algoz. Quem sabe você seja diferente, espero. Mas o tempo e vida têm ensinado o quanto estamos aprisionados e até certo ponto“viciados” em nós mesmos. Dependentes de altas doses do nosso querer pessoal, impossibilitados de abrir mão da satisfação pessoal para o bem comum.
Há casos de quem sinta este tipo de vício insaciável. E que precise o alimentar a todo momento. Como uma criança birrenta jogada no chão, paralisada para ser notada por todos. Choramingando desejos. Berrando desaforos para quem lhe diz não. O vício em si mesmo cresce apenas de afirmativas. Quem impede o viciado em si mesmo é eliminado.
Logo sei que você pode estar pensando: mas precisamos amar a nós mesmos primeiro! Ninguém está nem aí para os outros. Ok. Respeito. Mas esse é o certo? O artista cantava que nós somos canibais de nós mesmos. Eu escrevo que somos é sujeitados a uma droga socialmente aceitável, totalmente propagada: eu, depois eu, terceiro eu. Ufa! Só existe o eu.
Escondidos em belos muros sociais e guiados todo o tempo pelo “apego particular de si mesmo”, consciente e inconscientemente caminhamos pelas ruas nutrindo relações superficiais, as quais em muitos casos são moedas de troca, adivinha para satisfazer a quem? Acho que você acertou.
Como dependentes, ficamos desfigurados. Inimigos silenciosos dos semelhantes, que nunca vão entender a doçura e o amargor de ser viciado como você é, pois só querem saber do vício deles. Não têm tempo para escutar, na sua maioria. Que loucura! Até parece episódio de uma série zumbi, ou de Black Mirrow – faltando apenas algo tecnológico – então “para não dizer que não falei de flores”, se você acha que estou louco, olhe a quantidade de selfies que estamos tirando. O quanto precisamos falar de nós mesmos. Horas e horas com o nosso ego na palma de nossa mão.
Num narcisismo digital, a vicissitude do eu se potencializa. Ganha novos campos de atuação. Trocando likes. Ganhando seguidores ilusórios. Que, em alguns casos, só são números. O meu perfil é o que importa. Hum.. novidade…E assim, como disse no início: Inclinamos nossa triste realidade. Exaltamos as utopias.
Bom. Houve quem nos sugerisse um antídoto: Amai-vos uns aos outros como a si mesmo. O conselheiro já conhecia o vício aqui relatado e sabiamente nos fez o desafio… Ele, que foi o inverso de toda centralidade, apesar de ser o centro, nos apontando sempre que felicidade é fazer outros felizes.
Se somos tão obcecados em nós, imagina se fôssemos em acolher e ajudar o outro? O mundo seria diferente? Só sei que ainda não é. No entanto, tá ai a quaresma. Quarenta dias para desintoxicação e dizer não ao vício de si mesmo. O primeiro passo é se reconhecer dependente.
Ah.. e se você nem de longe é parecido com o que escrevi, desconsidere tudo. Apenas repassa o seu estilo de vida para frente. Ou vai ficar só para si, alimentando o “eu” ? Bom. Tá contigo!
Felipe Ramos
