A pressa que permeia a vida contemporânea não é um problema individual, mas um sintoma do que o sociólogo Hartmut Rosa (2005) chamou de aceleramento social. A sociedade vive em constante “estabilização dinâmica” na qual a velocidade se tornou um fim em si mesmo, gerando uma alienação que nos impede de estabelecer conexões significativas com o mundo.
A tecnologia age como um dos principais motores desse processo. A socióloga Judy Wajcman argumenta que, longe de nos libertar, ferramentas como smartphones e e-mails nos impõem um estado de disponibilidade contínua, dissolvendo a fronteira entre trabalho e vida pessoal. Essa compulsão por estar sempre conectado e produtivo leva ao que o filósofo Byung-Chul Han descreve como a sociedade do desempenho, onde nos tornamos nossos próprios exploradores, resultando em exaustão e burnout.
O psicanalista Joel Birman complementa essa visão, tratando a hiperatividade não como virtude, mas como um sintoma de angústia e da necessidade de ser sempre visível na “sociedade do espetáculo“.
A pergunta “para quê?” adquire, então, o tom de profundidade crítica, ecoando a busca por sentido em diversas áreas do saber. Na Logoterapia, de Viktor Frankl, a urgência de preencher o tempo pode ser interpretada como uma tentativa de mascarar o vazio existencial. A pressa se torna, assim, uma fuga do silêncio e da reflexão que levariam à descoberta do propósito de vida.
O historiador Rodrigo Turin (2020) aponta que a pressa é um sintoma de uma crise na nossa relação com o tempo, onde a perspectiva de um futuro promissor se esvaziou. A pressa, assim, é uma forma de preencher um presente “precário” e sem esperança.
A teologia de Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) adiciona uma dimensão transcendental. Para ele, a pressa é uma manifestação da perda de fé e esperança na eternidade. Sem essa perspectiva, o tempo humano se torna um recurso escasso e finito, levando ao desespero. O filósofo Peter Sloterdijk sugere que a pressa pode ser vista como uma das “imunidades” que a modernidade cria para nos isolar do caos e da contingência do mundo.
A reflexão sobre a pressa nos convida, assim, a um movimento de desaceleração e a uma reorientação de nossos valores. Ao confrontarmos nossa urgência, abrimos espaço para a busca de um sentido autêntico que possa resgatar a ressonância com o mundo e rearticular um projeto de vida mais pleno e significativo.
Paulo César Gomes Albuquerque
Setor Comunicação do Instituto Parresia
Fontes de Pesquisa
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Rosa, Hartmut. Aceleração: A Nova Tirania do Tempo. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2005.
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Turin, Rodrigo. A Crise da Temporalidade e a História do Tempo Presente. In: Tempo Presente: Análise e Crítica. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020.
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Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido. São Paulo: Vozes, 2011.
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Wajcman, Judy. Pressed for Time: The Acceleration of Life in Digital Capitalism. Chicago: University of Chicago Press, 2015.
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Birman, Joel. O Fim da História ou a Psicanálise no Tempo do Social. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
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Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
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Ratzinger, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2006. (A ideia está presente em sua obra mais ampla sobre o tempo e a escatologia).
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Sloterdijk, Peter. Esferas I: Bolhas. Lisboa: Relógio D’Água, 2009. (A ideia de “esfera de imunidade” é um conceito central de sua obra).
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