No início do ano as premiações de filmes e músicas de sucesso sempre mexem com os jovens e acirram os ânimos nas redes sociais, seja para elogiar ou para criticar um trabalho. Nos lançamentos dos últimos meses consigo perceber um movimento de retorno ao interior do homem, seus sentimentos e pensamentos, à sua mais profunda humanidade. Apesar dos filmes com super heróis terem sido destaque e ganhado novos adeptos ao longo dos últimos anos, seus roteiros e a mensagem dos longas pretendem não só mostrar o mocinho e suas incríveis epopeias, mas também sua jornada interior em busca do autoconhecimento e sua missão pessoal.
Admito que sou cinéfilo e se pudesse assistiria um filme todos os dias. O cinema me encanta profundamente em sua força e variedade de artes que utiliza para montar e produzir um filme, a fotografia, a música, o teatro, a arquitetura. É um descanso para a alma deleitar-se na verdadeira arte. O conceituado filósofo inglês Roger Scruton traz à tona a importância da verdadeira beleza ao afirmar que os grandes artistas do passado estavam cientes que a vida humana é cheia de caos e sofrimento. Mas eles tinham um remédio para isto, que era a beleza. Scruton ainda afirma que “A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria. Ela mostra que a vida humana vale a pena. Muitos artistas modernos se esqueceram desta sagrada tarefa”.
Um filme que tocou meu coração em 2017 foi Logan, estrelado pelo grande Hugh Jackman (nosso eterno Wolverine de X-Men), e foi indicado na categoria de melhor roteiro adaptado, resumidamente é quando um roteiro de cinema teve sua origem em outra arte e foi adaptado para a linguagem cinematográfica. X-Men nasceu nos quadrinhos da Marvel e tornou-se numa série de filmes e desenhos (que são maravilhosos).
Para minha geração, em particular, assistir X-Men nas telonas tem um tom nostálgico, porque acompanhávamos o desenho que passava no horário próximo ao almoço na TV aberta, e ao nos aprofundar na história e percebermos o significado da missão de cada personagem, como também seus poderes sobrenaturais e suas fragilidades, reafirmamos para nós, já como jovens, que queremos continuar acompanhando essa saga.
Nesse filme especificamente, Logan, vemos um Wolverine mais velho e cansado, diferente daquele brutamontes que se enfurecia com pouca coisa. Um homem que perdeu inúmeros amigos nas batalhas e guerras que travavam em favor da vida e da liberdade e que deixara no passado seu sentido de vida. Para mim, vê-lo assim, era como se ele já estivesse morrendo. O homem fica assim quando perde seu sentido de viver.
Para sua surpresa uma menina meio feroz, mal educada e também mutante entra, inesperadamente, em sua vida. Essa garota, a X-23, interpretada por Dafne Keen, é a filha do Wolverine, que não queria ajudá-la a encontrar as outras crianças mutantes que eram feitos de cobaia pelo mesmo grupo de pessoas que torturou e transformou Wolverine em mutante anteriormente.
Foi emocionante ao ver que as características da filha, tais como, teimosia, ousadia em combater os inimigos e até a ira, comoveram o coração do pai Wolverine, que reconheceu nela, sim, a figura da filha. O que reposicionou a conduta e a postura dele como homem, movendo-o à paternidade.
Ao perceber-se pai, Wolverine toma atitudes de sacrificar-se por quem ama, lutar até fisicamente para proteger sua filha, educá-la a viver em sociedade e reconhecer-se um com ela, ações genuinamente masculinas. Aqui o parâmetro de masculinidade é o Cristo Crucificado, entregue por amor aos filhos de Deus, que se esvaziou de si mesmo e se entregou por nós. Decidido, firme, compelido. Jesus sofreu, mas não temeu em dar a sua vida. Não voltou atrás com sua palavra. É esse o grande chamado de Deus aos homens da nossa geração: ir firmemente às últimas consequências por amor. Esto vir!
Na Carta aos artistas de 1999, São João Paulo II diz: “Os homens de hoje e de amanhã têm necessidade deste entusiasmo, para enfrentar e vencer os desafios cruciais que se prefiguram no horizonte. Com tal entusiasmo, a humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho.” Entusiasmo esse que vem a nós também através da arte e nos renova. Deus deu esse poder à arte, de nos renovar e mostrar ao que somos chamados. Por isso devemos olhar a arte também com uma visão espiritual, para renunciar aquilo que nos apequena e leva a pecar e nos aproximar das obras que engrandecem nosso ser e espírito, seja exaltando os valores cristãos ou como exemplos a serem seguidos.
Ao fim dessa partilha artística e espiritual, sobretudo humana, convido você a meditar essa frase simples e profunda falada no filme Logan por Wolverine: “ A vida é assim, feita de sacrifícios por quem se ama.”
Rodrigo Cesar Neves
