A palavra do ano do dicionário Oxford, escolhida pela primeira vez diretamente pelo público, é “goblin mode”. O termo popular em redes sociais diz respeito a “um tipo de comportamento que é assumidamente autoindulgente, preguiçoso, desleixado ou ganancioso, geralmente de uma forma que rejeita as normas ou expectativas sociais”. Para alguns, em tempos de crise mundial, a preguiça pode ter sido uma espécie de defesa e o goblin mode uma nova forma de viver em meio aos desafios cotidianos. Assim, o quarto vira uma desordem e sequer há coragem de se colocar as coisas no lugar.
A verdade é que em todos nós há uma tendência natural ao chamado ‘menor esforço’ que pode até mesmo paralisar ou diminuir nossas atividades corriqueiras. Mas, o perigo está em adotar isso como comportamento banal o que nos remete a um questionamento mais profundo: a preguiça pode ser encarada como algo bom?
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) enquadra a preguiça como pecado capital (nº 1866) destacando que se trata de ofensa à caridade chegando o fiel que a ela se entrega “a recusar até a alegria que vem de Deus e a ter horror ao bem divino” (CIC nº 2094).
Tanquerey[1] define a preguiça como “uma tendência à ociosidade ou, pelo menos, à negligência, ao torpor na ação” e arremata que se trata de “uma doença da vontade, que teme e recusa o esforço”.
Em tempo: não estamos falando de um torpor ou algum tipo de moleza decorrente da saúde debilitada. Nas palavras do teólogo Garrigou-Lagrange[2] a preguiça espiritual “é a má disposição da vontade e da sensibilidade, pela qual se teme e recusa o esforço, quer-se evitar todo sacrifício, e busca-se o dolce far niente [em tradução livre: ócio prazeroso e relaxante]. Acentua o teólogo que o preguiçoso “é um parasita que vive à custa dos outros, tranquilo como uma marmota, quando o deixamos em sua ociosidade, e de mau humor quando querem obriga-lo a trabalhar.
Enquanto vício, a preguiça não se instala de forma repentina, mas “começa pela indiferença e pela negligencia no trabalho, e se manifesta por um progressivo afastamento de todo trabalho sério do corpo e do espirito”.
Na parábola dos talentos (Mt 25, 14-30), o Senhor faz uma grave exortação contra o servo preguiçoso. Este é admoestado pois claramente desconsidera a vocação humana à santidade, lembrada pelo Concílio Vaticano II[3]. Ensina-nos Santa Teresa de Jesus[4] a perseverar sempre, buscando incessantemente o trabalho em vista da santidade: “não fiqueis no caminho, mas pelejai como fortes até morrer na batalha, pois não viestes aqui senão para pelejar. Seguindo sempre com a determinação de antes morrer do que deixar de chegar ao fim do caminho”.
A Santa prossegue com a famosa citação que incentiva a oração como oposição ao desânimo: “muito importa, sobretudo, ter uma grande e muito determinada determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenha forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se suportem os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo.”
Com Santa Teresa, a preguiça não tem vez.
Tanquerey ainda alerta que o homem foi feito para o trabalho, tendo sido criado e colocado em um paraíso de delícias para que nele trabalhar. E destaca: “ o preguiçoso falha no cumprimento dessa dupla lei natural e positiva: pecado cuja gravidade mensura-se pela gravidade das obrigações que negligencia”.
Remédios contra a preguiça
É muito comum marcarmos o início de um novo ano com várias promessas de progresso pessoal, o que passa pela profissão, espiritualidade, afetividade, etc.
Chegamos até a fazer uma lista de compromissos a serem cumpridos ao longo do ano. Pensamos seriamente em progredir, mas sem perceber caímos num desânimo… o que nos leva muitas vezes a fracassar. Adiamos para o ano seguinte a realização daquilo que não conseguimos. Assim, nossa listinha do ano corrente é a mesma do ano anterior, que por sua vez é igual ao do anterior e por aí vai uma espiral de frustrações.
A raiz do problema pode estar na preguiça. Para ajudar você a sair desse círculo vicioso, trazemos alguns remédios propostos por Tanquerey:
I – Inicialmente é necessário ter consciência. Para a recuperação do preguiçoso “é necessário primeiramente gravar em sua alma convicções profundas sobre a necessidade do trabalho”.
II – Educação da vontade. O autor destaca a necessidade de um esforço continuado e metódico com o fim de educar a vontade. É a determinada determinação proposta por Santa Teresa de Jesus.
III – Refletir sobre a finalidade da vida. “Estamos neste mundo, não para viver como parasitas, mas para conquistar, com o trabalho e a virtude um posto no céu. E Deus não cessa de nos dizer: ‘Por que estais todos os dias sem fazer nada? …Ide vós também para minha vinha’ (Mt 20, 6 – 7).
Paulo Cesar Gomes Albuquerque
Instituto Parresia – Setor de Comunicação
[1] TANQUEREY. Compendio de teologia ascética e mística. Ed. Eclesiae. São Paulo. 2018
[2] Garrigou-Lagrange, R. Marie. AS TRES IDADES DA VIDA INTERIOR. Ed. Cultor de livros. São Paulo, 2018
[3] Lumen Gentium, 39-42
[4] de Jesus, Teresa. Caminho de Perfeição. Obras completas. Ed. Loyola. São Paulo. 7ª edição.
Em breve você vai poder aprofundar muito mais sobre o tema da preguiça espiritual. Vem aí novo curso que trata do tema da acídia. Aguarde!
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