Na semana passada, iniciamos a nossa reflexão sobre a beleza na liturgia da Igreja. Nela, nós contamos duas histórias de conversão: a primeira do príncipe russo Vladimir de Kiev, que enviou emissários que testemunharam a ele a grandeza da divina liturgia; e a segunda do poeta francês Paul Claudel, que viveu uma profunda experiência durante a celebração dos tradicionais ofícios das vésperas na Catedral de Notre-Dame em Paris. Lembrou? Então agora nós vamos continuar por esse universo que é contemplar a ação da beleza no sagrado.
O que convenceu aqueles emissários do príncipe e tocou o coração de Paul foi o mistério celebrado, que por ser mistério exige diante de si contemplação, maravilhamento.
Eu me recordo que um dia, no Shalom da Paz, recebemos a visita de um bispo da Guiana Francesa. Ele presidiu ali uma celebração muito tocante. A liturgia, os ícones, as flores, os cânticos… tudo foi muito belo, mas ao mesmo tempo simples, e no final daquela Eucaristia, aquele bispo disse algo que guardo para sempre na memória: “Obrigado, Comunidade Shalom! Vocês me mostraram a Jerusalém celeste!”

O que sempre me impressionou e me impressiona na nossa Comunidade é a beleza do Carisma e como isso influencia também a beleza da sagrada liturgia em Centros de Evangelização. O que celebramos, seja na Eucaristia adorada ou na Eucaristia celebrada, deve ser sinal da Jerusalém celeste (pela força do Sacramento e pela oferta de vida de quem a prepara), porque no centro dela está o Ressuscitado que passou pela Cruz, que sopra sobre nós o seu Espírito e gera nos nossos corações o dom da piedade. É este dom que nos dá a capacidade de nos relacionar com as coisas santas.
A casa onde Deus brilha
Algumas fontes sugerem que a palavra “beleza” se origina do sânscrito “Bet-El-Za”, que significa: “a casa onde Deus brilha”. Vem à nossa mente então, o desejo do salmista de habitar todos os dias na casa do Senhor (cf. Sl 27(26),4). Nesta casa não só se contempla a beleza de Deus, nela somos alimentados e contagiados pela pulcritude, isto é, do que é pulcro, belo, formoso. Podemos entender a partir de então, que a beleza não é simplesmente uma questão estética ou mesmo um acessório dispensável, ela é um instrumento de uma missão salvífica. São Boaventura dizia que Jesus é a “beleza de toda beleza”, e se a liturgia é uma obra de Deus, ela não pode desassociar-se jamais desse atributo divino.
Quando se fala em beleza, frequentemente se recorda a palavra elegância. Seguindo nessa esteira de buscar o sentido das palavras, poderíamos entender também o significado dela: EL + GAN + CIA = Deus + veste + movimento. Elegância pode ser traduzida como “movimentar-se com a veste de Deus”. Numa associação muito clara, poderíamos afirmar que o Belo (Deus) veste o homem com sua veste e essa veste de beleza é a santidade e ela é o rosto mais belo da Igreja (cf. Gaudete et Exsultate). É de santidade, uma santidade que é comunicada para o proveito dos fiéis, que Deus reveste o culto litúrgico, os objetos, a arte… tudo é tocado pelo eterno, pela fonte de toda beleza.

Os Estatutos da Comunidade Católica Shalom trazem a recomendação de que nas Eucaristias celebradas em nossas casas e capelas, tudo seja feito com beleza e harmonia, desde a decoração da capela, aos cânticos, à preparação e participação, favorecendo ao máximo a maior glória de Deus e o proveito espiritual de quem participa (Cf. ECCSh 65). Essa marca do primado da beleza se reflete na vida da Comunidade a partir da vida do seu fundador.
Uma passagem de sua vida muito simples, mas cheia de significado, conta que, depois da experiência dele com o Espírito Santo, uma das primeiras coisas que fez o Moysés foi preparar um lugar de oração, separou na sua casa um pequeno cômodo, comprou um belo crucifixo, colocou a Palavra de Deus e fez daquele lugar um lugar de encontro. Também muitas vezes podemos ouvir dele a expressão:
“Para Deus, o mais santo, o mais nobre e o mais belo.”
A beleza da liturgia na Comunidade está ligada à dimensão da oferta de vida e do Amor Esponsal, pois a Eucaristia é uma festa esponsal e uma festa esponsal não se improvisa (cf. Revista Escuta, 2023). A beleza para a Comunidade traz junto de si a unção e a harmonia, que devem favorecer para que todos aqueles que participem das ações sagradas possam obter um bom proveito espiritual, isto é, colham os frutos da ação sagrada.
A beleza na liturgia não pode ser reduzida ao fator decorativo do ambiente, paramentos ou do canto. A beleza é um elemento constitutivo da ação sagrada, é o atributo do próprio Deus e da sua revelação. É a beleza de Cristo, do seu Evangelho, dos mistérios da sua morte e ressurreição, da sua presença viva na Eucaristia e no meio do seu povo, que torna a ação litúrgica bela, boa, desejável, atraente. Sem fé, porém, a beleza do mistério celebrado permanece imperceptível.
Na Liturgia, o céu se une à terra, o Eterno toca o nosso tempo, se esconde no fragmento e se manifesta! “Nós vimos a sua Estrela no oriente” (Mt 2,2) disseram os magos quando foram adorar o Senhor, em Belém, poderíamos escutar ainda deles: “fomos atraídos por ele e por sua beleza que nos conduziu a adoração, demos tudo, abrimos nossos cofres… é dele o nosso ouro, nosso incenso, nossa mirra. É Dele o nosso coração!”

