Durante o Ano Litúrgico celebramos solenidades e festas que evocam eventos do passado, mas que também se atualizam no tempo, realizando uma encarnação viva, aquilo que aconteceu uma única vez na história torna-se pela graça da liturgia um evento contínuo na vida do crente. O Senhor veio para todos, mas Ele deve vir novamente para cada um de nós e cada um de nós precisa experimentar a expectativa e também a chegada, é a partir dessa experiência que nasce a salvação. “Nossa salvação baseia-se em uma vinda”.
Tempo da Espera
O Tempo do Advento é o tempo da espera, como sugere o significado do seu nome. O termo “Advento” vem do latim “Adventus” que quer dizer vinda e chegada. Este Tempo litúrgico tem origem entre os séculos IV (Concílio de Saragoça, em 380) e VII, quando surge inicialmente ligado a uma preparação espiritual para a celebração anual da vinda histórica de Jesus, feito carne no seio da Virgem Maria e depois ligado a uma preparação espiritual para a segunda vinda de Jesus. No ocidente, possui um tempo de duração de quatro semanas, e é caracterizado pela cor roxa dos paramentos e pelas práticas de alegre expectativa e vigilância que realizamos em preparação para estes dois eventos: Acendemos as velas que iluminam a escuridão, fazemos despojamentos, nos encontramos com os amigos e familiares para celebrar e preparamos o coração e a casa para receber o Senhor que veio, vem e virá uma segunda vez.
O Advento nos exorta a contemplar o milagre desta vinda recordando que o Senhor vem ao encontro de cada pessoa em todo o seu ser: alegrias, tristezas, limites e potências, enfim em tudo aquilo que constitui a natureza humana. É um chamado alegre à conversão, a retomar o caminho, a entrar na procissão rumo a Celeste Jerusalém, e cada um deve reconhecer Jesus como o seu único Senhor e seu Redentor, pois Ele conhece até as entranhas do nosso ser e abraça a nossa história e a lava na sua misericórdia, assumindo para si o nosso destino. Ele ilumina com a luz do Seu Espírito a nossa mente e toca o nosso coração para que retornemos para o caminho reto.
Tempo de Conversão
O Advento lança perguntas às nossas consciências: “Eu realmente creio que Ele veio e vem a mim?” “Eu O conheço?” “Eu confio nEle” “Eu O reconheço como meu Senhor e Salvador?” “A porta do meu coração e da minha vida estão abertas para Ele?” É preciso decidir-se por abrir a porta e deixar-se cativar pela doçura do Menino-Deus que vem, mas também deixar-se alcançar pela misericórdia do Rei Glorioso que está vindo e vem vindo sempre.
Como viver o Advento?
Como já dissemos, o Advento é caracterizado por algumas ações que realizamos e sinais que colocamos em nossas Igrejas, casas, locais de trabalho e muitas vezes em locais públicos.
- A Oração
A grande e primeira obra que deve se realizar no Advento é a oração. No final do livro do Apocalipse de São João se escuta a voz orante da Esposa que unida a voz do Espírito Santo clama: “Vem! Maranatha” (cf. Ap 22,17). Essa invocação que os primeiros cristãos já rezavam é a grande súplica deste Tempo, ela é a expressão de que o fiel que deseja encontrar o Senhor, no dia final, no Natal e no hoje de sua vida, e deve no Advento (e sempre), empenhar-se por unir a sua voz orante a voz do Espírito clamando a vinda do Senhor. Os dois Tempos de preparação da Igreja (Quaresma e Advento) apontam para a oração como o grande segredo para que ela seja fecunda e abundantes os frutos a serem colhidos. Sem a oração o Tempo Litúrgico do Advento pode ficar apenas na preparação externa, enquanto os sinais externos deveriam ser um transbordamento do interior.
Através da meditação do Rosário, do Ofício da Imaculada Conceição, do Canto do Akathistos, da Novena do Natal, da oração das Antífonas do Ó e de muitas outras orações, cada um pode contemplar o mistério do Emanuel, o Deus conosco.
Confira a oração que você pode rezar durante o Advento
- A Palavra de Deus
A Palavra de Deus no período do Advento evidencia os mistérios nele celebrados. Cada Domingo possui um tema, o Primeiro Domingo fala da vigilância na espera pelo Senhor; o Segundo Domingo traz o tema do convite a conversão contido na pregação de São João Batista; o Terceiro Domingo apresenta o testemunho de João Batista; o Quarto Domingo nos faz contemplar o mistério da Anunciação do Anjo à Virgem Maria e já nos insere na alegria do Natal. Durante os dias de semana do Advento “as leituras revelam os sinais e as características do reino messiânico e as condições para nele entrar;” Na segunda parte (17 à 24 de dezembro) há uma preparação mais imediata para o Natal, com as leituras que falam das profecias sobre a vinda do Messias.
- O Despojamento
A oração e a Palavra de Deus abrem o coração ao despojamento, o Advento é um tempo de partilha, de colocar em comum as coisas que tenho e que me sobram, como uma forma de abrir espaço na vida para o Novo que vai chegar. Enquanto nesse tempo todos estamos sendo bombardeados por mensagens, propagandas e “novos costumes” que falam de consumismo e necessidade de acúmulo, o despojamento é um sinal claro de união ao movimento de kénosis do Verbo de Deus. O despojamento pode ser também do uso do tempo: posso aplicar um pouco do meu tempo para escutar uma pessoa, fazer uma visita a um doente ou idoso, servir mais no meu ministério ou na minha pastoral… A graça do despojamento nos une à fileira dos anawins, que despojados de tudo esperam a vinda do Senhor.

- A Conversão
A oração, a Palavra e o despojamento nos colocam no caminho de conversão, para aderir novamente à voz do Esposo que diz “Eis que venho em breve” (Ap 22,20). Uma música antiga da Comunidade canta que o Advento é “Tempo de conversão, de quebrar as resistências, tempo de voltar pra Deus… Tempo de recomeçar”. Nas primeiras semanas, como falamos acima, somos colocados diante das leituras que nos falam sobre o fim último da nossa vida, quando todos estarão “de pé diante do trono e do Cordeiro” (cf. Ap 7,9). O que nos fará herdar a vida eterna, é a nossa adesão a Cristo e ao seu Reino que vem a nós, o amor e a bondade demonstrada para com os irmãos, especialmente os mais pequeninos (cf. Mt 25,31-46). A graça da conversão faz brilhar a luz no meio das trevas, pois resplandece o bem realizado (cf. Sl 111(112),4). Conversão, oração e despojamento caminham sempre juntos.
Os Símbolos do Advento
Acompanhadas das práticas espirituais aparecem os símbolos que são do Advento e também aqueles que no Advento já nos apontam para a contemplação dos mistérios da Encarnação do Verbo… Os símbolos que acompanham os cristãos no Advento não são meros elementos lúdicos, mas nos apontam para as realidades, tanto do fim último da nossa vida quanto aquelas que tocam à primeira vinda de Jesus.
Os símbolos verdadeiramente cristãos sempre levarão aquele que os vê, a passar da visão à contemplação do mistério. Em um mundo que muitas vezes parece esvaziar o verdadeiro sentido deste Tempo, com figuras e imagens que não apontam para o centro da Solenidade que iremos celebrar, faz-se cada vez mais necessário que os cristãos, redescubram o valor dos símbolos que ajudam a evangelizar e a rezar.
- A Coroa do Advento
Um círculo, sem começo e nem fim, significando a eternidade e o próprio Cristo, “o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (cf. Ap 22,13); seu formato recorda uma aliança, sinal da Nova Aliança que Deus realiza com o homem. A Coroa do Advento é composta por galhos verdes recordando a esperança da vida que sempre se renova; laços vermelhos que significam o amor de Deus que na plenitude dos tempos enviou o seu Filho Único (cf. Gl 4,4). Os outros elementos que são colocados representam os frutos da vida nova e quatro velas sendo três roxas e uma de cor rosa (a do 3° Domingo, o da alegria (gaudete)). Cada vela representa um Domingo do Advento e deve ser acesa a cada semana, na Igreja ou em família.
Veja como montar a Coroa do Advento
- A Escada do Advento
A Comunidade Católica Shalom possui a tradição de fazer em suas casas e capelas, a “Escada do Advento”. Ela é inspirada no sonho de Jacó (cf. Gn 28, 10-22): Uma escada posta na terra que tocava o mais alto dos céus, por onde os anjos subiam e desciam. No canto do Akathistos, uma das invocações à Mãe de Deus canta: “Ave Escada Celeste pela qual o eterno desce”. A Escada do Advento é também uma imagem da Virgem Maria por quem nos veio o Salvador do mundo. Assim como a Coroa do Advento, ela também é composta por quatro velas (sendo três roxas e uma cor de rosa, a terceira de cima para baixo), colocadas em alturas diferentes para lembrar os degraus. No topo da escada coloca-se um ícone do Pantocrator ou da Santíssima Trindade, e ao lado do último degrau, o mais baixo, o ícone da Virgem orante ou uma imagem da Virgem da doce espera. Assim como na Coroa, as velas são acesas a cada Domingo, e aqui de cima para baixo, para recordar a descida, a Encarnação do Verbo.
A “teologia” da Coroa do Advento assim como a da Escada é a “teologia da luz”. O mistério do Natal e da Vinda Gloriosa é o da luz que resplandece no meio das trevas (cf. Jo 1,5), a cada vela acesa a luz vai brilhando mais forte iluminando o ambiente, mas principalmente a nossa vida. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz […] porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz.” (Is 9,1a.5).
Tanto para a Escada quanto para a Coroa a Comunidade Católica Shalom propõe intenções para que no acendimento das velas os seus membros e todos aqueles que desejarem, possam unir-se em oração pelas realidades do mundo e da Igreja.
O verdadeiro Advento surge de dentro, no mais íntimo de cada um de nós, lá no profundo do coração que acredita, mas acima de tudo, ele começa no coração de Deus, naquelas entranhas de misericórdia que o fizeram enviar seu Filho único, para nos resgatar. Fica evidente que nós também devemos preparar esse caminho reto, para que o nosso Rei passe como ressoa o Evangelho: “Preparai o caminho do Senhor, tornai retas suas veredas; todo vale será aterrado, toda montanha ou colina será abaixada; as vias sinuosas se transformarão em retas e os caminhos acidentados serão nivelados.” (Lucas 3,4-6).
Na próxima semana vamos falar um pouco da preparação das nossas casas para o Natal durante o Tempo do Advento.
Vem Senhor Jesus!
Não tardes mais!
entra na nossa noite,
essa noite longa que parece invencível,
ilumina a noite do mundo,
rompe o silêncio,
faz-nos ver o Teu rosto,
E não haverá mais luto,
as coisas antigas passarão
e tudo será novo em Ti.
Vem! Marana tha!




