Institucional

Amaldiçoada!

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Rua Farani. Rio de Janeiro. Final dos anos 60. Grupinhos de moças se espalham na calçada em frente ao Colégio Santa Úrsula, abraçadas aos seus “fichários”, saias no meio da perna, mocassins marrom, dedicam-se a discussões animadas. O assunto é um só, aliás, dois: apaixonados namoros e altos ideais.

O vestibular chegará ao final do ano e a escolha da carreira se baseia em sonhos de servir à humanidade. As futuras arquitetas pensam em beleza, urbanismo, paisagismo, conforto, dignidade, casas populares. As engenheiras do futuro, em arranha-céus, planejamentos básicos, viadutos. As candidatas a professoras, em dedicar-se aos alunos, trabalhar em favelas, ensinar os pobres. As aspirantes a médicas e enfermeiras, em salvar vidas dedicando-se ao heroísmo do serviço incansável e personalizado ao paciente. As postulantes a psicólogas sonham com o serviço às crianças especiais, aos psicopatas, aos jovens desnorteados.

Sonhos e ideais pululam na Farani. Não me recordo de ter escutado sequer uma vez frase semelhante a: “Vou estudar coisa tal porque dá dinheiro”. Dinheiro, na época, não era o mais importante. O mais importante era servir com excelência. A grande preocupação era tirar os primeiros lugares para poder escolher a carreira dos sonhos no “vestibular unificado”.

Sim. Tínhamos sonhos. E ficar rico não era um deles. O sonho de “ser o melhor médico” não coincidia, de jeito nenhum, com “ser o médico mais rico”. Coincidia com trabalho voluntário na Rocinha, com serviço gratuito na Amazônia, com o “heureca!” do diagnóstico preciso para tirar o enfermo de sua doença.

Hoje, grupinhos continuam a reunir-se à porta dos colégios. As saias foram substituídas por calças jeans, os mocassins por tênis, os fichários por tablets. Só uma coisa continua igual: o assunto namoro, claro. O outro assunto principal, agora chamado também de ENEM, costuma ser uma incômoda mescla de ideal, sonho e “obrigação” de ganhar dinheiro, de ficar rico, poderoso, famoso, top.

Que cretino roubou o ideal altruísta dos jovens? Que famigerada sede de poder o corroeu? Que criminoso anseio por riqueza o trucidou? Que perniciosa mentalidade materialista o colocou ao mesmo nível chulo da avareza e ganância? Que mentira descarada o iludiu insinuando, assassina covarde, que dinheiro e felicidade se supõem?

Se eu pudesse, percorreria as saídas de todas as escolas em todo o Brasil trazendo de volta sonhos e ideais, substituindo a literatura medíocre com que empanturram os jovens por leituras que apontam ideais muito mais altos, sonhos de vida de grandes homens e grandes santos; os por vezes medíocres campeões de “likes” em verdadeiros heróis de vida a invadir a internet. Em alguns anos, teríamos médicos nos rincões mais afastados, professores de valor nas brenhas mais pobres, advogados em busca dos processos mofados dos desvalidos.

Amaldiçoada idolatria ao dinheiro, destruidora de sonhos, aniquiladora de ideais, assassina de altruísmo, carrasca de amor, exterminadora insana da civilização de amor e justiça com que os jovens, no fundo no fundo, ainda sonham!

Emmir Nogueira


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