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Aquele 1%…

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Outro dia, em algum lugar que passei, estava tocando a música “Aquele 1%” – do Marcos & Belluti com participação do Safadão -, em que o autor contemporâneo se intitula: “99% anjo perfeito, mas aquele 1% é vagabundo”.

Lembrei-me da primeira vez que eu chamei uma pessoa de vagabunda. Eu era ainda uma criança, e haviam me explicado que vagabundo era a pessoa que não trabalhava. Eu estava louco pra utilizar a palavra nova – sabe como é criança gordinha, né cara?! -, e, na primeira oportunidade que tive, eu virei e mandei na lata, sem cerimônia: Você é uma vagabunda!. Final da história: eu ri sozinho, a pessoa contou pra minha mãe, e eu apanhei.

Mas, hoje em dia, as coisas estão um pouco diferentes. Existe a possibilidade de pegar um defeito especifico, colocá-lo em ênfase, envernizá-lo com cores e ritmos da moda, e, quando se percebe, o que era um defeito ou um pecado torna-se um título de nobreza.

O consumismo, por exemplo, é, basicamente, uma tentativa de dizer que: eu sou aquilo que eu possuo. Assim, quanto mais eu tenho – segundo essa ótica -, melhor ou mais importante eu sou. Hoje em dia, está na moda uma outra forma de consumismo – por assim dizer -, um consumismo afetivo, que consiste em uma tentativa de dizer que eu sou, a quantidade de pessoas que consigo “ter”. No português claro, a quantidade de pessoas que eu consigo “pegar”.

Aquele 1% pode até ser vagabundo, mas duvido que é isso que ele gostaria de continuar sendo, caso tivesse a oportunidade clara de ser algo melhor; caso tivesse a oportunidade de ser algo por inteiro, dificilmente continuaria fazendo a opção por se fracionar.

A parcela vagabunda – nesse contexto –  é a única que pode ser alcançada por Deus, porque trata-se daquilo que é verdade. Nenhum homem é um anjo, por melhor que seja, assim como nenhum homem é um demônio, por pior que seja. Mesmo que a verdade apresentada para Deus não seja uma verdade bonitinha, Deus deseja tratar-nos. Avisem aos homens, que o que pode salvá-los é justamente esse 1% apresentado com honestidade diante de Deus.

Assim como o enfermo necessita do tratamento de um médico, por pior que seja seu caso clínico, o pecador necessita da misericórdia de Deus, por pior que seja o seu pecado. Lembra-te quem tu és. Por pequeno que sejas, és o único apto a ocupar teu próprio lugar.¹ Acrescentaria, dizendo que: Da graça que Deus tem para te dar, és o único capaz de receber.

Qualquer um pode amar uma coisa “por causa de”. É tão fácil quanto pôr um vintém no bolso. Mas amar algo “apesar de”, conhecer suas falhas e amá-las também, isso é raro². O homem ideal não seria aquele que procura se assemelhar aos anjos, mas aquele que procura se assemelhar a Deus. Porque Deus deseja tornar o homem melhor, fazê-lo feliz, não simplesmente no intervalo de um orgasmo e outro. Não no intervalo de um relacionamento e outro. Não por causa de, mas apesar de. Fazê- lo feliz para sempre, por inteiro e de forma gratuita.

[¹]AD Sertillanges

[²] O temor do Sábio – Patrick Rothfuss

 

Marcos  Nunes


Comentários

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  1. Infelizmente as letras das músicas no Brasil são tristes.Exalta-se a bebida,a promiscuidade,e o ser humano
    é tratado de forma lamentável.
    So Jesus na causa.