“Tenho em mente aquela maravilhosa pintura de van Gogh: O semeador ao pôr do sol”, disse o Papa Leão XIV em sua primeira catequese, há exatamente um ano, que tinha como tema a parábola do semeador. Ao comentar a história descrita no Evangelho de São Mateus, o pontífice trouxe a público uma mensagem extremamente valiosa, mesmo que implícita: em tudo que é belo, lembramos de Deus. E, ao pensarmos em Deus, lembramos daquilo que é belo. Ao falar de beleza, inevitavelmente falamos de arte.
A arte acompanha a humanidade desde o princípio
Nada é tão essencial na história da humanidade quanto a arte, seja ela religiosa ou não. Antes da escrita, as primeiras populações humanas já retratavam a si mesmas em paredes de cavernas, pedras, tábuas e diversas outras formas. Do mesmo modo aconteceu conosco: no início, quando não éramos uma religião aceita pelo Estado, nos escondíamos em catacumbas para rezar e celebrar os sacramentos. Pois então, como não lembrar das pinturas e ícones da Igreja primitiva?

Depois da Ascensão de Nosso Senhor, no nosso coração permaneceu só um desejo: transubstanciar o mundo em uma morada de Deus. E encontramos na arte uma forma de permanecer viva entre nós a memória daquele Rosto tão simples e tão belo, do mensageiro que anuncia a paz, o Shalom.
“A transubstanciação não pode acontecer apenas no templo: deve reverberar em todo o resto do mundo. Para que isso aconteça, temos que assumir a responsabilidade de fazer isso acontecer, por meio das nossas ações. Em outras palavras, devemos levar Jesus e Deus [refere-se aqui a Deus e a Jesus distintamente por estar comentando o mistério Eucarístico] para fora da Igreja, para as ruas e principalmente para as nossas casas.”
Martin Scorsese, no livro de entrevistas “Diálogos sobre a fé”, escrito e editado pelo sacerdote Antonio Spadaro
A beleza como caminho para encontrar Deus
Essa frase tão sincera, mas que revela uma verdade profunda da nossa fé, foi dita pelodiretor de cinema Martin Scorsese (Silêncio, O Lobo de Wall Street, Taxi Driver, Goodfellas), um dos mais importantes e renomados do nosso tempo. Em um diálogo com o sacerdote Antonio Spadaro no livro “Diálogos sobre a fé”, o diretor fala da sua infância católica em Nova York e a importância da espiritualidade em sua vida.
Da mesma forma, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie foi interpelada, em um programa, por uma entrevistadora que a questionou como seria possível construir um novo modelo de sociedade a partir das religiões de matriz africana, visto que a autora aborda frequentemente temas ligados ao continente em suas obras.

Diante disso, Chimamanda se contrapôs afirmando a importância do cristianismo na sua infância e no continente africano, defendendo o seu interesse em “africanizar o cristianismo”, mostrando ao povo que Jesus, Maria e os santos também podem possuir traços étnicos semelhantes aos seus. Na sua viagem à Guiné Equatorial, o Papa Leão XIV rezou com devoção diante da imagem de Nossa Senhora de Bisila, que retrata Maria e Jesus de pele negra.
Os artistas revelam a sede humana pelo eterno
A arte leva Deus para os povos de todo o mundo! Voltando ao cinema, em uma entrevista, a diretora Greta Gerwig (Lady Bird, Adoráveis Mulheres, Barbie) afirmou o quão interessante achava ler a vida dos santos, pois percebia que, antes de tudo, eles não passavam de adolescentes rebeldes, citando o exemplo de São Francisco de tirar a roupa em meio ao povo e rejeitar a riqueza do pai, o comerciante Pietro Bernardone. Rebeldes de Deus! Radicalidade evangélica!
Já nas artes plásticas, o artista Andrei Bodko retrata a presença simples e suave de Deus em meio às atividades cotidianas, triviais, nos levando a uma reflexão profunda: quanto espaço damos para Deus no nosso dia a dia? Deixamos que Deus entre nos nossos momentos de sofrimento, de solidão?
Em tudo que é belo nós encontramos a Deus. E que os artistas deem esse profundo testemunho! Até mesmo os que se afastaram da fé continuam a mostrar, por meios das suas obras, uma sede profunda por um Deus que não se isenta do nosso sofrimento e da dúvida das nossas perguntas essenciais: quem sou eu, para quem eu sou, o que acontece depois da morte, etc.
É por meio da arte que podemos, de uma forma aprofundada, ver a Deus por meio da beleza que ele nos deu a capacidade de produzir. Entendemos por beleza tudo aquilo que é capaz de nos mostrar a nossa insignificância diante de uma presença sublime que não conseguimos explicar. Trago o poeta português Fernando Pessoa:
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Poema “Tabacaria”
O que seria de nós sem as igrejas que nos levam às alturas, contemplando a grandeza de Deus diante da nossa pequenez? E se não tivéssemos o pôr do sol, desenho de Deus, para contemplar? Teria profunda pena da humanidade se nosso Criador não tivesse nos conferido o dom de fazer música! Ai de nós se não conseguíssemos dançar… Choraria com os sentimentos entalados na garganta se não soubesse escrever! Cairíamos todos duros ao chão se não conseguíssemos, com a voz do coração, dizer com toda a nossa força: Senhor, em tudo que é belo eu vejo a Ti!
Por José Gabriel
Postulante da Comunidade de Aliança em Fortaleza, escritor e estudante de Psicologia



