Você já pensou em quantos livros existem no mundo? Em 2000, o Google Books tomou a iniciativa de “contar” essa quantidade e chegou, dez anos depois, à soma de quase 130 milhões de títulos. Somando estes dados à estimativa da UNESCO, de que a cada ano são publicados 2,2 milhões de livros, chegamos a conclusão de que no mundo existam atualmente cerca de 150 milhões de obras literárias. E aí? Ainda acha que já leu demais?
Levando em conta que talvez grande parte desta soma não seja composta de livros que valem a pena o gasto de dinheiro, tempo, neurônios e vista, digamos que somente 10% deles seriam considerados bons ou excelentes, ainda haveria cerca de 15 milhões de obras para serem consumidas pelos apreciadores da arte escrita.
Em uma perspectiva ainda mais criteriosa, mesmo que apenas 1% desses livros fossem bons, ainda assim chegaríamos à incrível soma de um milhão e meio de obras. Considerando ainda que, dentre estes bons livros, possivelmente existam muitos que fogem ao interesse particular de cada um de nós, de acordo com o assunto que aborda, se o percentual de 1% destes 1,5 milhões nos interessasse, continuaríamos com a missão impossível de ler 15.000 livros em vida.
O que te leva a escolher um livro?
Para que fosse possível ler esta quantidade de livros, o sujeito teria que viver por cento e vinte e poucos anos e conseguir a façanha de ler um livro a cada dois ou três dias, ou seja, não faria outra coisa na vida, além de ler. Impressionante!
Em vista dessa quantidade absurda de obras, resta a pergunta: o que te leva a escolher um livro? Dentre tantas opções, como fazer uma boa escolha?
Obviamente, há alguns critérios que nos ajudam a escolher o que ler, por exemplo, a autoria da obra, o perdurar da mesma através dos tempos, a indicação de alguém fidedigno e, principalmente, os valores contidos na história, sendo este último critério o mais importante de todos, porque mesmo sendo um clássico, escrito por um autor renomado e indicado por especialistas, é possível que o livro seja, na verdade, ruim, por causa das ideias ou mensagens intrinsecamente pervertidas que intenta incutir em seus leitores.
– E, atenção: não existem livros amorais, ou seja, sem uma inclinação para o bem ou o mal (até um simples livro de matemática pode ter, além de inofensivos números e equações, conteúdo inapropriado), portanto, a atenção nas escolhas é fundamental -.
A metamorfose de Franz Kafka
Felizmente, dentre os 150 milhões de livros existentes neste mundo, a indicação de leitura desta semana é ótima e trata-se do mais conhecido livro do escritor tcheco Franz Kafka, intitulado A metamorfose, publicado pela primeira vez em 1915.
Basicamente, o livro narra a inusitada história de Gregor Samsa, um cidadão comum que, um belo dia, ao acordar, se vê transformado em um inseto gigante, mais especificamente, uma barata.
Gregor era arrimo de sua família, sustentando, com o seu trabalho, o pai, a mãe e a irmã mais nova e, de repente, passa a ser totalmente dependente destes. A sua vida, a partir de então, resumiria-se em permanecer trancafiado no quarto, pois não desejava sair dali e ser visto daquela forma desprezível pelos outros, bem como, não podia permitir que a mãe sofresse o terrível desgosto de ter que olhar para o seu filho metamorfoseado em um monstro.
Como se trata de uma narrativa extremamente excêntrica, o desenrolar da trama gera um leque de interpretações sobre a intenção do autor ao contar a história dessa metamorfose, assim, dentre as diversas possibilidades, escolho a que me pareceu mais interessante: perceber como aquela família enxergava o valor do filho não pelo que era, mas pelo que fazia, sendo que, quando se transformou de esteio a incapacitado para trabalhar, foi sendo esquecido pelos seus pais e irmã que, inclusive, passaram a desejar livrar-se dele o mais rápido possível.
Dignidade de homem
O que se pode dizer é que Gregor, enquanto aparência de barata, não perdeu sua dignidade de homem em nenhum momento, sendo que todas as preocupações que permeavam o seu pensamento não eram consigo mesmo, mas com a manutenção e sentimentos de seus parentes; ao passo que os outros membros da família, enquanto aparência humana, não se preocupavam com outra coisa, a não ser com sua própria sobrevivência, ou seja, um comportamento digno de baratas.
Ao fim de tudo, percebemos que há não só uma, mas várias metamorfoses narradas no livro, tanto boas, quanto ruins, entretanto, o que fica é a máxima de que o sujeito pode sofrer tantas mudanças na vida quanto a quantidade de livros existentes no mundo, contanto que nunca perca a sua essência: a dignidade de ser humano, que não está no que se faz, mas no que se é, essencialmente.
Ficha de Leitura
Autor: Franz Kafka
Página: 104
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª (7 de agosto de 1997)
Idioma: Português
Boa leitura!
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