Dizem por aí que um autor nunca deve revelar as fontes de suas histórias, sob pena de que estas venham a perder o seu encanto e o mistério por trás daquela velha pergunta a respeito das ideias mirabolantes ou excessivamente criativas de sua obra: “De onde foi que ele tirou isso?”
Entretanto, em se tratando de J.R.R. Tolkien, um dos escritores mais criativos da história da humanidade, essa máxima de que as fontes devem ficar ocultas não colou.
Na verdade, ele é um autor que possui muitas fontes, pois, antes de tudo, era um estudioso e nunca ousou usar a caneta antes de realizar longas pesquisas e estudos sobre o que pretendia escrever.
Foi assim com os seus contos sobre a Terra Média, elfos, anões, dragões e anéis mágicos, dos quais, os mais conhecidos são “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, porém, há esse pequeno livro verde (pelo menos a edição que tive acesso era dessa cor), no qual Tolkien descreve algumas de suas fontes de inspiração, e que se chama “Sobre histórias de fadas” e que ainda vem acompanhado do conto “Folha por Niggle”.
O livro, na verdade, é um ensaio do autor, através do qual é possível compreender um pouco da dinâmica e da lógica de Tolkien ao criar seus personagens, mapas, dialetos, nomes e outros componentes do seu mundo imaginário, o qual, ao passo que vamos adentrando no enredo, gera até a sensação de que tudo aquilo poderia ser verdade.
Bom, em se tratando da essência da obra, podemos afirmar que é realmente tudo verdade, pois as narrativas, no fundo, são histórias utilizadas pelo autor para expressar virtudes como a lealdade, justiça, integridade, inteireza, força, coragem, fé, esperança, caridade, fraternidade e companheirismo, isso, sem falar em um dos “personagens” mais importantes da trama, mas que permanece oculto, quase que imperceptível à primeira vista, porém, que se revela fundamental para que Frodo, Sam e seus companheiros consigam levar a bom termo a missão que lhes fora confiada, de destruir o “Um Anel” e, com ele, todo o mal que intentava dominar o mundo: a divina providência.
Voltando para a dica de hoje, Tolkien parte das adaptações de contos infantis do escritor francês Charles Perrault (que lançou as bases do gênero literário de conto de fadas no século XVII) e dos irmãos Grimm, (que nos dois séculos posteriores a Perrault eternizaram através da escrita vários contos populares de sua época), até chegar aos mitos e lendas nórdicos, dos quais ele tanto gostava, analisando suas estruturas e criando uma explicação lógica e sistemática para os contos de fadas, que, de fato, acabam tratando não somente de um mundo fantástico, mas também da nossa própria realidade.
Já o conto que vem como bônus, “Folha por Niggle”, foi publicado pela primeira vez em 1945 e fala a respeito de um pintor que vivia muito ocupado com sua própria mesquinhez e trabalho, a ponto de nunca se dispor a ajudar seus vizinhos. Certo dia, enquanto tentava desesperadamente terminar o seu “interminável” quadro (uma árvore em meio a uma floresta, pintada em uma lona enorme), passa por uma espécie de sequestro por agentes de uma instituição desconhecida e ali, descobre qual a verdadeira floresta que deveria ter pintado em toda a sua vida. Trata-se de um conto alusivo à redenção.
Resumindo, esse é um livro que explica vários outros livros, é pequeno, a leitura é rápida e, seguramente, servirá para aprimorar nossos conhecimentos a respeito não só da obra de Tolkien, mas de todos os outros contos de fadas que já lemos ou poderemos ainda ler um dia. Não responde inteiramente todas as questões a respeito das mentes criativas de todos os escritores, é verdade, mas, ao menos, deixa uma pista interessante sobre o caso.
Ficha
Editora: Con
Idioma: Português
Autor: J.R.R. Tolkien
Boa leitura!
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