Sábado passado estava conversando com o gerente geral de uma empresa de confecção e ele me disse uma frase interessante: “hoje em dia, as pessoas não pagam pelo valor do produto, mas, sim, pela marca. Fazer a marca do produto conhecida é o passo principal para que o negócio dê certo e seja lucrativo”.
Inclusive, há algumas marcas no comércio que, de tão conhecidas, tornaram-se, praticamente, o nome dos produtos em si. É o que, na gramática, chamamos de metonímia, ou seja, a substituição de uma palavra por outra, estabelecendo uma relação de causalidade entre o que as mesmas representam.
Ex: pergunte a alguém quantos carros estão estacionados em uma rua; se, dentre os cinco carros estacionados houver um fusca, a pessoa responderá: quatro carros e um fusquinha. Nunca falha! Outro exemplo: se você vai ao mercado, sua mãe pede para você comprar palha de aço ou Bombril? No Ceará, é costume chamar água sanitária de “Qboa”, devido a uma marca muito popular que dominava o mercado há alguns anos… e por aí vai.
E o que é mesmo uma marca?
No âmbito comercial, trata-se de um nome que identifica cada produto, para que o mesmo se fixe na mente do consumidor, todavia, de modo geral (e é o que nos interessa neste texto), uma marca consiste em um sinal, um indício, uma impressão deixada por alguém.
As marcas externas da idade avançada são os cabelos brancos e as rugas, enquanto as internas são a sabedoria e a experiência que só são adquiridas por quem já viveu muita coisa nessa vida; as cicatrizes são as marcas das quedas; as lágrimas são as marcas que atestam que somos gente; as manchas são as marcas de algo que foi muito usado; as tatuagens são as marcas externas de alguém que, embora meio perdido, anseia tanto pela Eternidade, que busca encontrá-la em tudo, sem, tantas vezes, compreender que só a encontrará em Deus; os sulcos são as marcas dos tempos de seca na terra; as poças d’água são as marcas dos dias chuvosos; Tomé exigiu uma marca para crer, Jesus mostrou-lhe as mãos perfuradas e o lado aberto, mostrou-lhe as marcas gloriosas de Sua Cruz. A Cruz de Cristo é a marca de Seu infinito amor por nós.
“Viemos ao mundo para deixar uma marca”
Em 2016, o Papa Francisco afirmou em seu Twitter: “Viemos ao mundo para deixar uma marca”, todavia, o Papa não está falando de uma marca qualquer, mas a marca própria dos filhos de Deus: a marca da santidade, a marca do Amor Divino, a marca de Cristo em nós.
Infelizmente, há marcas que também revelam os males que trazemos dentro de nós, como diz São Paulo aos Gálatas: idolatrias, superstições, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas e outras coisas semelhantes.
Reflexões do Papa Francisco
E o livro a ser indicado hoje traz algumas reflexões do Papa Francisco sobre um tema que, segundo ele, é uma das maiores marcas que, tristemente, simbolizam a sociedade atual: o mundanismo.
Portanto, a dica de leitura de hoje é o imperdível “Mundanismo hoje”, lançamento da Edições Shalom e organizado por Jean Brás, seminarista e consagrado da Comunidade de vida Shalom.
O livro consiste na compilação de várias homilias do Papa que alertam os cristãos a respeito dos estragos e malefícios que a mentalidade mundana pode causar ao homem e, também, de modo particular, às instituições religiosas.
O livro é dividido em quatro partes, nas quais são abordadas os riscos do mundanismo, bem como, três modos de viver esta mentalidade em nossos relacionamentos com o criado, através do apego aos bens e às riquezas; pela prática da corrupção; e, ainda, o mundanismo relacionado a várias outras dimensões da vida humana, como, por exemplo, nos relacionamentos marcados pelas fofocas, falta de perdão ou simplesmente pelo individualismo e hedonismo, tão característicos dos pensamentos que se opõem à vivência do Evangelho.
Qual marca queremos deixar neste mundo?
O conteúdo do livro e a forma de organização dos textos por temas são de uma riqueza imperdível e fazem perceber, com mais clareza, o quanto o pontificado do Papa Francisco tem a nos falar a respeito das mentalidades e pensamentos mundanos que potencialmente nos afastam de Deus, deixando marcas tão profundas e tóxicas em nossos corações e mentes, que nos arriscam, inclusive, a perdermos a eternidade, em troca do que o mundo, tão fugazmente, tem a nos oferecer.
Ao fim do livro, podemos também nos questionar a respeito de qual marca queremos deixar neste mundo, ou será que é este mundo que está nos enchendo de marcas que não servem para mais nada, além de esvaziar a nossa vida de sentido e de felicidade? Por qual nome desejamos ser lembrados? Por qual metonímia o nosso nome será substituído para as gerações que hão de vir?
Poderemos dizer, para aqueles que virão, que éramos como “cristãos Bombril”, os quais o Senhor pode utilizar de mil e uma maneiras, como Ele quis, para a evangelização? Poderemos dizer que nem a melhor Qboa do mundo alvejaria as nossas vestes, como fez Cristo por nós, branqueando o púrpura dos nossos pecados e tornando os nossos corações mais brancos que a neve? Encontrará, Jesus, as marcas de Sua Paixão em nós, quando estivermos face a face com Ele, na entrada para a Eternidade?
Espero que sim! Que a leitura de hoje nos ajude, que este tempo quaresmal nos auxilie, que a Graça de Deus nos capacite, que a intercessão de Nossa Senhora nos guarde!
Boa leitura e uma santa conversão!
Ficha de Leitura
Autor: Jean Brás Guerra
Páginas: 164
Editora: Shalom
Edição: 1
Ano: 2019

