Após a publicação da Carta Encíclica Magnificas Humanitas, pelo Papa Leão XIV, a Igreja no Brasil também entra no diálogo sobre o uso da Inteligência Artificial nas atividades pastorais voltadas à criação de conteúdos para divulgação nos canais oficiais de algumas paróquias.
A Magnificas Humanitas é a primeira encíclica do Pontífice, lançada em maio deste ano, e traz o apelo de preservar “uma magnífica humanidade habitada por Deus” em um mundo no qual se vive uma escolha decisiva entre “erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”. O Papa lança luz sobre como o cristão precisa se portar diante do avanço da Inteligência Artificial e sobre a forma correta de utilizá-la.
A Igreja no Brasil e a nova relação com a IA
As primeiras dioceses a revisar a forma de uso de ferramentas de Inteligência Artificial na criação de imagens de missas, eventos e outras iniciativas ligadas às paróquias foram Floriano, no Piauí; Sobral, no Ceará; e Palmares, em Pernambuco. A medida foi adotada para preservar as características humanas de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, que vinham sendo distorcidas e perdidas nos conteúdos gerados por essas tecnologias.
Uso sóbrio e vigilante
Em comunicado oficial divulgado nas redes sociais da Diocese, Dom Júlio Cesar Souza, bispo de Floriano (PI), veta o uso da ferramenta, apesar de reconhecê-la como “preciosa, mas exige de nós uma abordagem sóbria e vigilante”. O clérigo também recorda que essa decisão não envolve apenas uma questão técnica.
“Esta medida tem por finalidade preservar a autenticidade e a dignidade da pessoa humana, visto que o rosto e a voz são traços únicos, distintivos e manifestam a própria identidade irrepetível, elemento constitutivo de cada pessoa humana criada à Imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-28), como nos afirmou o Papa Leão XIV em sua mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, aos 24 de janeiro de 2026.”
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Formação para servir melhor
Já o bispo de Sobral (CE), Dom José Luiz Gomes, fez um pronunciamento sobre a suspensão temporária do uso de Inteligência Artificial pelas Pastorais da Comunicação (PASCOM) da Diocese. No texto, a Igreja local ressalta que haverá uma formação especial para o uso “responsável, adequado e consciente” das plataformas nas paróquias.
Ao longo do comunicado, o bispo pede aos fiéis a colaboração de todas as equipes de comunicação para que se abstenham de utilizar conteúdos visuais gerados por essas ferramentas.
“Contamos com a compreensão, o compromisso e a colaboração de todos para que nossas ações de comunicação estejam em sintonia com as orientações da Diocese.”
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A necessidade da humanização para comunicar
Outro território que suspendeu o uso da tecnologia na confecção das artes foi a Diocese de Palmares (PE). Por orientação do padre Elias Belo, referência diocesana da Pastoral da Comunicação, em comunhão com o bispo local, Dom Fernando Barbosa dos Santos, as paróquias suspenderam temporariamente essa prática.
Em entrevista ao ACI Digital, padre Elias explicou que a decisão ocorreu porque as imagens estavam “perdendo a qualidade”, comprometendo a comunicação humanizada e distorcendo em excesso a realidade, que precisa ser preservada. Além disso, alguns elementos das artes apresentavam falhas ou eram mal gerados, como o brasão da paróquia ou da Diocese, o que fazia a própria pastoral perder sua essência e sua finalidade.
O sacerdote esclarece como será o itinerário formativo para a PASCOM das paróquias:
“A formação contará com um olhar mais técnico sobre a utilização da IA na produção das artes e dos conteúdos da Pascom, buscando, sobretudo, promover um entendimento de que a Inteligência Artificial deve estar a nosso serviço, como ferramenta, e jamais substituir a criatividade, o discernimento e a missão humana daqueles que servem à comunicação da Igreja.”
Um olhar atento ao novo sem esquecer o essencial
As orientações dos bispos servem como um grande farol para os fiéis, pois, apesar do avanço da tecnologia, é importante lembrar que a mente humana é o primeiro berço da criatividade inspirada pelo Espírito Santo. O próprio Deus dá a sabedoria necessária para que as ações de evangelização aconteçam e sejam anunciadas.
O Santo Padre recorda a importância de entender que nem tudo se resume a ferramentas e tecnologia. Olhar para o ser humano é fundamental nesses novos tempos.
“A qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função. Uma dimensão importante do nosso ser humano é a capacidade de saber cuidar uns dos outros. Esta aprende-se e aperfeiçoa-se com a experiência.” (MH, 114)
Com infos. ACI Digital