Parresia

Cântico dos Cânticos: As três dimensões do amor relacional e a vida consagrada

Seja no matrimônio ou na vida consagrada vivemos uma constante provocação do amor, que não deseja outra coisa que não seja nos fazer alçar voos mais altos, escolhas fecundas, vida em plenitude.

Foto: Pexels

Ainda permanecendo no tema do encontro no Cântico dos Cânticos, analisaremos, agora, alguns pontos do estudo de Bosetti e Dell’Agli. Assim como Kristeva, os dois tentam ainda mais dar um cunho psicológico à interpretação do Cântico – é a famosa lectio humana que acenamos no início. Vejamos, ajudados pelo Cântico, como explorar algumas ações realizáveis para que o amor não seja paixão inútil ou ilusão que contribuem somente à confusão dos sexos, mas siga uma via de integração. 

As três dimensões do amor relacional

A pertença

A primeira dimensão seria o cuidado com a pertença. “Meu querido é meu e eu sou dele”. Segundo Bosetti e Dell’Agli, o amor requer acima de tudo o cuidado com a pertença. O eros induz seja o amado, como a amada, e o Espírito da Aliança a unidade perene. 

Almeja criar nos amantes, com a colaboração deles, uma capacidade de pertença fiel e duradoura, criativa e sensível, rica de possibilidades. A pertença, todavia, nem sempre está segura, pode desviar-se da sua meta, tudo depende de como se interagem o eros e a agressividade que residem no homem.

Em uma visão de fé, o eros e a agressividade, habitados pelo Espírito, são chamados a desenvolver-se, respectivamente, como amor e como poder pessoal, e a integrar-se no contexto do relacionamento de aliança. Quando essa integração falha, vários desvios patológicos passam a existir. O relacionamento é cuidado pelo amor, e a capacidade de sustentar o relacionamento, pelo poder pessoal. Juntos, eles devem evoluir com assertividade, cooperação e habilidade psicossocial.

A intimidade

A segunda dimensão seria o cuidado com a intimidade. “Minha pomba na fenda duma rocha, no recôndito de penhasco alcantilado, deixa-me ver teu rosto, deixa-me ouvir tua voz; pois tua voz é suave e teu rosto, formoso”. A dedicação pela intimidade requer a capacidade de se expor, o interesse por criar um clima cordial de partilha e humildade.

Também, é importante não confundir intimidade com fusão. Não é necessário que as próprias experiências e as do outro coincidam, o importante é que se realize uma espécie de hospitalidade recíproca da diversidade. Um aspecto particular, na vida do casal, é a intimidade sexual.

É autenticamente possível se for realizado junto com a intimidade emocional; um importante passo evolutivo é, portanto, saber como passar da atração mais superficial despertada por um corpo para o profundo interesse na interioridade da qual esse corpo é portador. Nesse processo é importante verificar a diferença entre sexualidade masculina e feminina, a qual, dará cada vez mais espaço a complementariedade.

A integração

A terceira dimensão seria a integração entre o passado e o presente de um relacionamento, superando a tentação do imutável. A dinâmica de um relacionamento evolui e passa por estágios que vão do entusiasmo inicial a formas de harmonização mais árduas, profundas e gratificantes.

“Mal os tenho passado, encontro aquele que eu amo. Seguro-o e não o largo, até tê-lo introduzido na casa da minha mãe, no quarto da que me concebeu”. Levar o outro à casa de sua mãe indica, por um lado, a necessidade natural de que o amado se aposse do passado da amada (seu histórico e vivencias); por outro lado, também pode indicar duas tentações: reviver somente sensações já conhecidas (repetir vivências) ou, pelo contrário, limitar-se ao desejo de se livrar de situações indesejadas da infância, sem se dar conta do outro, do seu mundo interior diversificado, para então abraçar a possibilidade de construir algo novo a dois.

O Cântico sugere que é possível encontrar algo novo naquilo que parece sempre igual, explorar territórios desconhecidos na aliança fiel, abrir-se ao melhor de si que ainda não foi realizado, renovar o dom de si que vai além do simples desejo de posse. A característica do amor, de fato, é que não é apenas fruição em resposta a uma possibilidade, mas é responsabilidade em resposta a um dom, a uma promessa. É entrega de si como resposta a uma proposta de aliança. 

A terceira dimensão na vida consagrada

Segundo Bosetti e Dell’Agli essa terceira dimensão, a dinamicidade de um relacionamento, também pode ser aplicada à vida consagrada

Focando a vida consagrada, poderíamos dizer que, longe de permanecer em uma frieza emocional, a pessoa consagrada é chamada a cuidar do dom do amor, da pertença, da intimidade afetuosa e busca apaixonada pelo Senhor e sua família espiritual. Ele é chamado a construir relacionamentos nos quais o realismo e a confiança são profundamente integrados, aceitando os vários desafios relacionais como uma oportunidade de autoconhecimento, conversão e crescimento.

São bastante vastas as linhas que podemos seguir para uma lectio divina e humana através do Cântico dos Cânticos. Cada trecho é uma preciosidade. Vale a pena citar o que nos diz Sonnet (2019): “No centro do livro dos livros assim organizado, no livreto de que o rabino Akiva disse que ele é o “Santo dos Santos” das Escrituras, há um jardim com águas correntes e árvores floridas

Tanto Kristeva como Bosetti e Dell’Agli, mesmo sendo de correntes psicológicas diversas nos fazem perceber tal riqueza. Kristeva, através da psicanálise, nos dá um enfoque na riqueza do diálogo, da fala contida no Cântico. Admite o seu caráter alegórico, ou seja, sacro, mas não censura o seu valor erótico amoroso ou lírico entre os esposos. Sem dúvidas um reconhecimento de tais implicações é indispensável para uma exegese que termina por abraçar também um caráter religioso.

A profundidade e agudeza do amor de Deus

Nos faz ver a Sulamita como essa grande eleita por Deus: “Faz-me entrar na taberna, seu estandarte sobre mim é Amor. Refazei-me com bolos de uva-passa; reforçai-me com maçãs: estou doente de amor. Sua esquerda sustenta-me a cabeça e sua direita me enlaça”. Assim é o povo de Israel, alvo da predileção de Deus. E assim também somos nós, chamados a encarnar toda a profundidade e agudeza do seu amor. 

No caso de Bosetti e Dell’Agli, uma perspectiva do Cântico que nos deixa vários elementos para aprofundar na vivência relacional. Na vida daquele que crê, seja este casado ou consagrado, tudo é uma questão de amor! Seja no matrimônio ou na vida consagrada vivemos uma constante provocação do amor, que não deseja outra coisa que não seja nos fazer alçar voos mais altos, escolhas fecundas, vida em plenitude.

Um Deus que estabelece conosco uma aliança, mas que não se cansa de nos reconquistar dia após dia, fazendo-se sempre novo. Não seria uma morte se todos os dias nas nossas relações com os outros e com o Outro, vivêssemos sempre a mesma coisa? Talvez precisemos nos deparar mais e mais com a dinamicidade crescente da relação e tal dinamicidade nos traz ainda mais gozo e realização.  

Por Romulo Araujo Oliveira

Cântico dos Cânticos: Uma visão psicológica a partir do diálogo, do canto e do corpo

BIBLIOGRAFIA

A BÍBLIA – TEB. São Paulo: Edições Loyola (1995).

BOSETTI E. – DELL’AGLI N. Un Dio che prima sposa e poi fidanza. Assisi: Cittadella editrice (2015).

KRISTEVA J. Histoires d’amour. Paris: Denoel (1983).

SONNET J.P. Ogni coppia è un “giardino” in La Civiltà Cattolica 7/21 dicembre 2019 Anno 170.


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