Me chamo Jean-Marc Lagarrigue. Caminho com a Comunidade Shalom desde 2008, ano da criação da missão na Guiana Francesa. Fiz minhas primeiras promessas na Comunidade de Aliança em 26 de abril de 2025, na missão de Avignon, na França.
Você disse “comunhão de bens”?
O dinheiro sempre foi algo complicado para mim. Meu pai trabalhava no setor financeiro, como gerente bancário. Em casa, não nos faltava nada, mas também não havia excessos. Por causa de uma relação pai e filho complexa, acabei rejeitando o dinheiro: ele ocupava espaço demais em nosso vínculo afetivo.
Meu pai não sabia expressar seus sentimentos, e o dinheiro, às vezes, se tornava o substituto disso. Contar, administrar, planejar… tudo isso me pesava. Em vez de ser uma ferramenta “a serviço de algo”, o dinheiro era, para mim, a lembrança constante de uma ferida relacional.
Minha reação foi trabalhar, trabalhar — não para acumular, mas para viver sem me preocupar em contar. O resultado: anos de dificuldades no fim do mês, contas no vermelho, empréstimos… enfim, problemas financeiros e a angústia de uma espiral sem fim.
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O choque da comunhão de bens
Quando, ao entrar na comunidade, no postulantado, fui informado sobre a comunhão de bens e o dom aos pobres, entrei em pânico. Como eu iria fazer isso? Eu já terminava o mês no vermelho; como poderia ainda assumir mais uma “despesa”? Mas percebi que meu raciocínio não fazia sentido. Era preciso mudar a minha maneira de ver.
Então dei o passo: a cada fim de mês, comecei a ofertar 15% do meu salário. E, como se a mão do Senhor repousasse sobre mim, estranhamente — e, ao mesmo tempo, de forma simples —, eu conseguia. Um equilíbrio financeiro começou a se estabelecer.
Mas, embora a letra da prática estivesse sendo cumprida, o espírito da comunhão de bens ainda não estava presente.
Foi então que comecei a ouvir e ler ensinamentos da comunidade sobre o tema, a rezar e meditar sobre esses textos.
Um trecho do Gênesis (4, 3-5) me tocou profundamente:
“Passado algum tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferenda dos frutos da terra; Abel, por sua vez, trouxe das primícias de seu rebanho e de sua gordura.”
Por que o Senhor desvia o olhar de Caim, que, afinal, também fez o gesto? Na oração, recebi esta luz: “ele não colocava o coração nisso.” Caim dava a Deus como quem paga um imposto — por obrigação. Mas onde estava o coração?
Reconheci-me nessa atitude: eu dava com obediência, mas sem interioridade. O espírito da oferta ainda não estava ajustado.
Uma oração que transforma tudo
Falei sobre isso com Bianca, uma irmã da Comunidade de Vida. Ela simplesmente me disse: “Você sabe, Jean-Marc, eu tenho uma pequena oração da minha terra, quero te dar.” Eis a oração:
“Recebe, Senhor, o meu dízimo.
Não é uma esmola, pois Tu não és um mendigo.
Não é uma simples contribuição, porque Tu não precisas dela.
Não te ofereço o que sobra.
Este valor representa, Senhor, o meu reconhecimento,
o meu amor e a minha participação na vida da comunidade,
pois tudo o que tenho, de Ti recebi. Amém.”
Esse texto me tocou profundamente. Nada mudou, e, no entanto, tudo mudou. A cada mês, continuo a fazer a minha contribuição, mas agora rezando com o coração. Essa oração recoloca as coisas em seu devido lugar e me recorda as palavras do rei Davi:
“Tudo vem de Ti,
e é das Tuas mãos que recebemos o que Te oferecemos.”
(1 Crônicas 29,14)
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Um caminho de cura
O Senhor foi, pouco a pouco, devolvendo ao meu ato de partilha o seu verdadeiro sentido e me reconciliando com os meios financeiros que Ele me confia para viver. A minha partilha agora está em harmonia com a minha vida entregue ao Senhor: não há mais separação. Tudo faz parte de um mesmo conjunto, coerente com os meus votos.
