O primeiro dia do Congresso de Liderança Shalom foi marcado pela reflexão sobre o verdadeiro sentido da liderança cristã. Com o tema “Liderança: a serviço de Deus, do Carisma e dos homens”, o encontro reuniu membros da Comunidade Católica Shalom, de outros movimentos e de paróquias para aprofundar a compreensão de liderança distante de modelos de poder e centrada no serviço.
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Em sua palestra, o fundador da Comunidade Católica Shalom, Moysés Azevedo, apresentou a liderança como uma missão recebida de Deus e exercida em favor da Igreja, das pessoas e do Carisma. A reflexão teve como ponto de partida o ensinamento de Jesus no Evangelho de Mateus: “quem quiser ser grande entre vós, seja vosso servo” (Mt 20,26).
O poder da liderança está na Cruz
Moysés destacou, em sua pregação, que a liderança cristã não pode ser compreendida a partir de prestígio, controle ou autoridade sobre os outros. O único poder reconhecido pelo discípulo de Jesus é o poder da Cruz, que se manifesta na capacidade de doar a própria vida.
Essa compreensão também está presente nos Estatutos da Comunidade Católica Shalom, que orientam que a autoridade e a liderança sejam sempre exercidas como serviço. A partir dessa perspectiva, o fundador apresentou três dimensões inseparáveis da liderança: servir a Deus, servir às pessoas e servir ao Carisma.

Liderar começa por estar com Jesus
Moysés destacou que nenhum serviço de liderança pode substituir a vida de intimidade com Deus. Recordando o chamado dos discípulos em Marcos 3,13-14, ressaltou que Jesus chamou os apóstolos primeiramente para que “ficassem com Ele”. A oração, portanto, não é um elemento secundário para quem exerce uma missão de liderança, mas a condição fundamental para o serviço.
“A intimidade com Deus é o âmago da vida comunitária”, recordou o fundador, citando os Estatutos da Comunidade Shalom.
Segundo a reflexão, vida de oração, os sacramentos, a Palavra de Deus e acompanhamento espiritual sustentam o líder para que sua atuação não seja reduzida às suas capacidades humanas ou administrativas. Antes de conduzir outras pessoas, é necessário permanecer com Cristo.
Nesse sentido, Moysés também apresentou a intercessão como o primeiro serviço do líder. O responsável por uma missão é chamado a colocar-se “sobre a brecha” em favor daqueles que lhe foram confiados, pedindo a Deus a graça necessária para que Sua vontade aconteça.
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“Deus é o primeiro, o irmão é o segundo e eu sou o feliz terceiro”
Ao abordar o serviço às pessoas, Moysés retomou uma expressão característica da Comunidade Shalom:
“Deus é o primeiro, o irmão é o segundo e eu sou o feliz terceiro.”
A lógica do serviço cristão, explicou, exige que o líder deixe de colocar a si mesmo no centro. O bem da pessoa e o bem comum não são realidades opostas, mas devem caminhar juntos, sempre em vista da missão evangelizadora. O modelo apresentado foi o próprio Cristo no lava-pés. Ao ajoelhar-se diante dos discípulos, Jesus revelou que a autoridade cristã passa necessariamente pela disposição de servir.

Por isso, o líder é chamado a ter um olhar pascal sobre as pessoas: um olhar capaz de acolher, acreditar, sofrer com, formar, dialogar, corrigir, enviar e sustentar. A finalidade também é clara: conduzir as pessoas não para si mesmo, mas para Jesus. O líder deve ajudar cada pessoa a crescer em direção à santidade, à oferta de si e à descoberta da vontade de Deus.
Servir o Carisma é servir em comunhão
A terceira dimensão apresentada por Moysés foi o serviço ao Carisma. O fundador destacou que ninguém exerce uma missão em nome próprio. Toda autoridade é recebida e deve ser exercida em nome de Jesus, da Igreja e da Comunidade. Nesse sentido, sinodalidade e colegialidade aparecem como caminhos concretos para evitar o autoritarismo. O exercício da liderança exige escuta, diálogo e capacidade de tomar decisões em conjunto.
“Ninguém na Comunidade Shalom é líder absoluto”, destacou Moysés, lembrando que, na vida comunitária, as posições de autoridade e obediência se alternam.
O serviço ao Carisma também precisa estar marcado pela caridade. Para o fundador, o lava-pés permanece como referência para avaliar toda forma de autoridade cristã: o líder não pode utilizar as pessoas em benefício próprio nem buscar os próprios interesses.
Ternura e firmeza
Outro ponto abordado durante a palestra foi a necessidade de unir ternura e firmeza no exercício da liderança. Moysés alertou que firmeza não significa grosseria, imposição ou falta de liberdade, assim como ternura não pode ser confundida com permissividade, omissão ou superproteção.
O equilíbrio entre essas duas dimensões permite ao líder acompanhar as pessoas com verdade e caridade, respeitando sua dignidade e ajudando-as a amadurecer.
Uma liderança voltada para a missão
Ao longo da reflexão, Moysés ressaltou ainda que toda estrutura e todo serviço de liderança devem estar orientados para a evangelização. A organização, a sustentabilidade da obra, a formação das pessoas e a multiplicação dos talentos recebidos não são fins em si mesmos. Tudo deve contribuir para que a missão confiada por Deus dê frutos.
O líder, portanto, é chamado a cuidar daquilo que recebeu, buscando a beleza, a frutuosidade e a sustentabilidade da obra, com atenção especial aos jovens e aos pobres.
Maria: o modelo de quem serve
Ao concluir a palestra, Moysés apresentou a Virgem Maria como modelo de liderança. Aquela que, mesmo sendo Rainha, não coloca a si mesma no centro, mas conduz tudo para o Filho. Em Maria, a autoridade aparece como serviço e a grandeza como capacidade de desaparecer para que Cristo cresça.
“Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5) resume, assim, a atitude de quem compreende a verdadeira missão de liderar: apontar para Jesus, colocar-se a serviço da vontade do Pai e ajudar outros a encontrarem n’Ele o caminho da vida.
O primeiro dia do Congresso de Liderança Shalom deixou, assim, uma síntese fundamental: na perspectiva cristã, liderar não é ocupar um lugar de poder, mas assumir uma missão de serviço. Serviço que começa em Deus, passa pelo cuidado com as pessoas, permanece fiel ao carisma e encontra sua finalidade última na evangelização.
Congresso continua neste domingo
O Congresso de Liderança Shalom continua neste domingo (23), com uma programação voltada à missão e aos desafios da liderança para a próxima geração. A manhã começa às 8h30, com a abertura e apresentação do Congresso, seguida, às 9h, pela pregação “O que Deus está pedindo da nossa geração?”, conduzida por Kléber Marinho.
Na sequência, será realizada a mesa-redonda “Quem conduzirá a missão nos próximos anos?”, com a participação de Pe. João Chagas, Enne Karol, Kléber Marinho e Paulo Henrique. O encontro será concluído com a oração de envio.



