Não era tarde. Lá para as 20:00 de uma noite limpa de domingo. Coração alegre, minha irmã dirigia tranquilamente enquanto recordávamos o final de semana de espiritualidade teresiana, relembrando pessoas reencontradas, momentos mais marcantes, Frei Patrício, com quem iríamos jantar.
Ao descer do carro, vi descer de um outro um pouco à frente, todos ao mesmo tempo como um truque bem ensaiado, três homens a correr em nossa direção. Um assalto! Inacreditável! Estávamos sendo assaltadas!
Para os assaltantes, era corrida desesperada contra o tempo. Gritos, violência, armas apontadas, ameaças, bolsas roubadas. Contavam com o famoso fator surpresa. Não contavam, entretanto, com o famoso fator proteção suprema. Confiavam na sua gritaria, no seu revólver. Não conheciam a paz.
Inútil bater no portão, tocar a campainha. Quando dei por mim, estava jogada na calçada, revólver apontado para a cabeça. Senti grande pena do mais jovem, completamente drogado, a gritar comigo e apontar a arma ameaçadora. Não senti medo. Nenhum medo. O que me admirou foi algo bem diferente: minha irmã não se preocupava um só minuto com ela. Só comigo.
Seus gritos eram para que não atirassem, para que me deixassem em paz. Quando entregou a chave do carro novinho em folha seu pedido foi: “Toma, toma a chave (deu também o celular sem eles pedirem, o que foi a parte cômica: presente de natal!) leva o carro, leva o celular, mas ‘deixa ela’!” Creio que gostaram da proposta. Melhor o carro e o celular do que uma coroa gorducha!
Entraram no carro e a preocupação da irmã continuou. Não correu. Me levantou. Tentamos novamente o portão, a campainha, gritar por pessoas. Nada! No meio da rua deserta e mal iluminada, sob a mira dos assaltantes, não tínhamos para onde ir. Lembrei-me – mesmo no meio da confusão – da famosíssima foto da menininha despida de Hiroshima. Senti-me como ela, mas não estava só. Minha irmã, que poderia ter “metido o pé na carreira” como se diz por aqui, me arrastava pelo braço, pois, operada há pouco tempo, não conseguia correr. Arriscou-se por mim mais uma vez. Eu vinha primeiro na cabeça e no coração dela. Valia mais que ela própria.
Foi então que apareceram nossos anjos. Também eles se arriscando, abriram a porta da casa e nos mandaram entrar para a varanda, nos altos. Os dois rapazes e sua mãe, cada um com um celular, tentavam chamar a polícia. Da varanda, víamos nossos assaltantes lutar contra o tempo, tentando ligar o carro, sem conseguir. Mais uma vez testemunhei que anjos entendem, sim, de mecânica. Assaltantes, não.
Resolveram, então – os anjos e os assaltantes – abortar a missão. “Abort! Abort!” gritariam em filme americano. Atônitos, vimos os três (minha irmã viu quatro!) passarem correndo por nós, tendo abandonado o carro. Como precisavam correr depressa – imaginaram, coitados, que a polícia viria logo – deixaram tudo, absolutamente tudo, dentro do carro, inclusive um pouco de pó branco entornado no banco de trás.
Na pressa, esqueceram-se de desligar o som que haviam acionado, talvez para ficar mais parecido com filme de violência que queriam imitar. No CD, indiferente à confusão, minha voz gravada dizia, de várias formas: “Você não pode imaginar como o Pai ama você!” Era a palestra do Seminário de Vida “Enchei-vos”, sobre o amor incondicional do Pai. Certamente a única palavra de Paz que, mesmo correndo contra o tempo, nossos irmãos escutaram naquele dia.
Maria Emmir Oquendo Nogueira
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Coluna da Emmir – comshalom.org
Entrelinhas – Revista mensal Shalom Maná
