Em 7 de setembro de 2017, milhares de membros da Comunidade Católica Shalom deixaram Roma para seguir até Assis, terra de São Francisco. A peregrinação fazia parte da Convenção Shalom 35 anos e tinha como um de seus momentos centrais a pregação de Frei Raniero Cantalamessa, então Pregador da Casa Pontifícia. Na Basílica de São Francisco, o religioso dirigiu à Comunidade palavras que permaneceriam como uma espécie de profecia sobre sua identidade e sua missão: “Vocês são os franciscanos de hoje”.
Naquela ocasião, Frei Raniero destacou que a Comunidade partilhava com São Francisco duas paixões fundamentais: a paz e o amor pela Igreja. Recordando o chamado recebido pelo santo para “reparar a Igreja”, o frade estabeleceu uma relação direta com a experiência dos peregrinos que haviam chegado à Itália para reafirmar sua comunhão com a Igreja. “Assim que recebeu o mandato de ir reparar a Igreja, a primeira coisa que Francisco fez foi andar até Roma. E também vocês vieram até Roma”, afirmou.
Os franciscanos de hoje
A mensagem também apontava para uma identidade que ultrapassa fronteiras. Ao dizer que via nos membros da Comunidade “os franciscanos de hoje”, Frei Raniero não estava apenas fazendo uma comparação, mas reconhecendo uma forma de viver o Evangelho marcada pela paz, pela misericórdia e pelo ardor missionário. A própria história do Shalom, nascido em Fortaleza em 1980 e posteriormente presente em dezenas de países, revela esse movimento: uma experiência suscitada em uma cidade brasileira que alcançou diferentes povos e culturas.
Em 2026, a Comunidade volta a Assis. No contexto do Ano Jubilar, o retorno à terra de São Francisco ganha um significado especial. O que em 2017 foi vivido como uma peregrinação de uma comunidade que celebrava seus 35 anos agora pode ser contemplado à luz do caminho percorrido desde então. A pergunta deixada pelas palavras de Frei Raniero continua atual: o que significa ser “franciscano” hoje, em uma vocação chamada a levar a paz ao mundo?
A resposta passa novamente pela peregrinação. Voltar a Assis não significa simplesmente retornar a um lugar histórico, mas reencontrar uma fonte espiritual. É colocar os passos diante da história de um homem que, depois de encontrar Cristo, permitiu que sua vida se transformasse em testemunho do Evangelho. É também recordar que a missão nasce de uma experiência: quem encontrou a paz é chamado a levá-la a outros.
Em 2017, o Frei Raniero Cantalamessa também falou sobre a misericórdia, recordando que a Igreja é chamada a ser “o rosto da misericórdia de Deus no mundo”. Essa palavra se une de modo particular ao caminho da Comunidade Shalom, cuja própria vocação está marcada pelo anúncio da paz e pelo desejo de levar Nosso Senhor Jesus Cristo aos homens e mulheres do seu tempo.
Assis volta a ser ponto de encontro
Nove anos depois, a paisagem é a mesma, mas os peregrinos chegam carregando uma história ainda mais longa. Entre 2017 e 2026, muitas vidas foram alcançadas pelo carisma Shalom, missões nasceram e a vocação continuou seu caminho de difusão. O retorno à terra de São Francisco pode ser, assim, uma oportunidade de reconhecer o que Deus já realizou e, ao mesmo tempo, renovar o chamado a partir de suas raízes.
A frase de Frei Raniero, pronunciada diante do túmulo de São Francisco, permanece como um convite: viver a paz, amar a Igreja e deixar que o Evangelho ultrapasse fronteiras. Se, em 2017, ele reconheceu na Comunidade os “franciscanos de hoje”, em 2026 a peregrinação pode ser compreendida como uma nova resposta a esse chamado — não para permanecer em Assis, mas para partir novamente.