“Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35). A pergunta de São Paulo tornou-se o lema sacerdotal do Diácono Marcos Luann Queiroz e Carvalho, de Fortaleza (CE), que se prepara para dar mais um passo em sua caminhada de entrega a Deus: a ordenação presbiteral.
Aos 36 anos, Marcos olha para sua história e reconhece que, mesmo em meio às situações mais difíceis, o amor de Deus esteve presente e conduziu seus passos. Sua caminhada até o sacerdócio não começou em um lar de tradição católica praticante. Pelo contrário, durante a juventude, sua família não vivia uma experiência próxima da Igreja. Ainda assim, foi justamente em meio às circunstâncias concretas de sua vida que Deus começou a preparar o caminho para um encontro profundo com Ele.
>>Inscreva-se no nosso canal e receba atualizações diretamente no seu WhatsApp
Uma infância marcada pela dor
Durante a infância, Diácono Marcos enfrentou dificuldades familiares relacionadas ao vício em drogas de seu pai. Ele recorda que o pai era naturalmente um homem sereno e tranquilo, mas que, sob o efeito das drogas, tornava-se agressivo. Diante dessa realidade e da pouca idade da mãe, Marcos foi educado pela avó paterna. Foi ela quem, com amor e perseverança, o ajudou posteriormente a se aproximar da fé e a trilhar os primeiros passos de uma caminhada com Deus.
A adolescência, porém, foi marcada também por um forte distanciamento da fé. Aos 15 anos, Marcos chegou a afirmar que não acreditava em Deus e se considerava agnóstico. Em alguns momentos, chegou ainda a se envolver com práticas de ocultismo. A situação familiar também chegaria a um momento de grande sofrimento.
“Meu pai, não vendo soluções para sair dessa condição, cometeu suicídio. Isso me causou grande tristeza, levando-me perder o sentido de vida”, relata.
“Deus tinha planos muito maiores para mim”
Aos 17 anos, incentivado pela avó, Diácono Marcos iniciou seu caminho na Igreja. Nesse período, recebeu o sacramento da Crisma e começou a se aproximar cada vez mais da vida de fé. Dois anos depois, em 2009, aconteceu uma experiência que marcaria profundamente sua história: o Acamp’s. Ali, teve uma experiência pessoal com Deus que despertou uma pergunta fundamental em seu coração: para onde deveria ir?
“Essa experiência me tocou profundamente ao ponto de me perguntar para onde eu devo ir”, recorda.
A pergunta deu início a um caminho de oração no qual, pouco a pouco, Deus foi conduzindo o Diácono Marcos à descoberta de sua vocação. O jovem que havia passado por uma história familiar marcada pela ausência, pelo sofrimento e pela perda começou a perceber que sua vida tinha um sentido e que Deus o chamava a uma missão.
O chamado reconhecido diante de Jesus Eucarístico
A resposta começaria a ganhar contornos mais claros durante uma adoração no Réveillon da Paz de 2012. Enquanto contemplava o sacerdote que levava Jesus no ostensório, ele percebeu algo que ultrapassava a figura daquele homem. Diante do Santíssimo Sacramento, reconheceu no sacerdote algo que também estava sendo despertado dentro dele.
“Ao olhar o sacerdote que trazia Jesus no ostensório, eu reconheci algo que no sacerdote não estava somente nele, mas estava também dentro de mim. A partir desse momento, senti-me atraído ao sacerdócio”, testemunha.
Foi ali que o Diácono Marcos reconheceu o chamado. A experiência diante de Jesus Eucarístico tornou-se um marco em sua caminhada vocacional. A partir daquele momento, o desejo de seguir o sacerdócio passou a ser discernido e amadurecido de maneira cada vez mais concreta.
A Comunidade Shalom e o amadurecimento da vocação
Na Comunidade Católica Shalom, especialmente vivendo como Comunidade de Vida, Marcos encontrou um ambiente que foi fundamental para aprofundar e confirmar sua vocação. A vida comunitária e a missão o ajudaram a compreender que o chamado ao sacerdócio não seria apenas uma realização pessoal, mas uma entrega de toda a vida a Deus e ao serviço dos homens.
“Dentro da Comunidade de Vida Shalom, fui aprofundando ainda mais esse chamado em minha vida. A Comunidade foi muito importante para mim nessa descoberta, pois ela me ajudou através da vida comunitária e da vida missionária a dar esse passo”, afirma.
Ao longo desse caminho, a história pessoal do Diácono Marcos Luann também ganhou um novo significado. A experiência da ausência paterna, que havia deixado uma marca profunda em sua vida, passou a ser iluminada pela perspectiva da paternidade espiritual.
Da ausência paterna à paternidade espiritual
A história familiar não desaparece diante do chamado. Ela é integrada à missão que Deus confia ao, em breve, Padre Marcos. A ausência do pai, uma das grandes marcas de sua trajetória, não se tornou um impedimento para que ele reconhecesse em si o chamado a exercer uma nova forma de paternidade: a paternidade espiritual.
“Mesmo com a ausência paterna, que para mim foi uma grande marca em minha história, reconheço que Deus me chama a exercer a paternidade espiritual para aqueles que Ele me enviar”, partilha.
Essa compreensão se torna uma das grandes chaves de leitura de sua vocação. Deus não desperdiça nenhuma experiência e pode transformar até mesmo as feridas mais profundas em lugar de graça e missão. Por isso, Marcos testemunha: “As ausências daquilo que é mais valioso em nossas vidas são incapazes de barrar a glória de Deus em nós.”
>>Saiba mais sobre a primeira ordenação presbiteral na Igreja do Ressuscitado
“Quem nos separará do amor de Cristo?”
É nesse horizonte que ganha ainda mais força o lema escolhido para o sacerdócio: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35).
A pergunta de São Paulo ressoa na história do Diácono Marcos Luann de maneira particular. Diante das dores, perdas e caminhos inesperados que marcaram sua vida, ele reconhece que nenhuma circunstância foi capaz de impedir a ação de Deus. Agora, prestes a ser ordenado padre, deseja que seu próprio “sim” seja instrumento para que outras pessoas também possam experimentar essa realidade.
“Que a vontade de Deus possa ser cumprida em minha vida e o sim que eu darei possa colaborar para que muitos possam encontrar a beleza do Ressuscitado que passou pela cruz.”
Seu desejo é simples e, ao mesmo tempo, grandioso: “Tornar Deus conhecido e amado pelos homens.”
A história do Diácono Marcos Luann recorda, assim, que a vocação nasce da iniciativa de Deus e pode florescer mesmo nos terrenos mais marcados pela dor. Aquele jovem que um dia dizia não acreditar em Deus foi alcançado pela misericórdia, reencontrou o sentido da vida e, diante de Jesus Eucarístico, reconheceu o chamado a entregar-se inteiramente a Ele.
Hoje, sua história se encaminha para o altar com a certeza de que nenhuma ausência, nenhuma ferida e nenhuma circunstância são maiores do que a graça de Deus. Afinal, permanece a pergunta que orientará seu sacerdócio: “Quem nos separará do amor de Cristo?”
Serviço
Primeira Ordenação Presbiteral na Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz
Data: 16 de agosto de 2026 (domingo)
Horário: 10h
Local: Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz – Diaconia Geral – Aquiraz (CE)
Presidência: Dom Gregório Paixão, OSB, Arcebispo de Fortaleza
Transmissão: YouTube da Comunidade Católica Shalom