Cristo, o Bom Pastor: o mistério do ícone da Capela do Shalom Guarulhos
Desde 2018, a iconografia da Capela Bom Pastor da missão de Guarulhos, criada pela iconógrafa Guadalupe Monteiro, apresenta o Cristo que, tendo atravessado a cruz, carrega sobre os ombros a ovelha encontrada e chama cada pessoa a reconhecer sua voz.
Na capela Bom Pastor da Comunidade Católica Shalom em Guarulhos, uma imagem convida ao silêncio, à contemplação e à oração. É Cristo, o Bom e Belo Pastor, caminhando com uma ovelha sobre os ombros. O ícone nasce da contemplação do mistério apresentado por Jesus no capítulo 10 do Evangelho de São João: “Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11).
A cena apresenta Cristo em movimento, atravessando uma paisagem marcada por rochas, vales verdejantes e um redil ao fundo. Ele caminha levando consigo aquela que foi encontrada. Seu olhar, porém, permanece voltado para quem contempla a imagem, como se ainda procurasse outras ovelhas.
É justamente nessa dinâmica que o ícone revela seu primeiro mistério: o Pastor conhece cada uma de suas ovelhas pelo nome, e elas reconhecem a sua voz (cf. Jo 10,3-4). Entre Cristo e aqueles que lhe pertencem existe uma relação de intimidade, confiança e amor.
O Bom e o Belo Pastor
Na tradição dos Padres da Igreja, Cristo também é contemplado como o Belo Pastor. A palavra utilizada no Evangelho de São João, kalós, pode significar tanto “bom” quanto “belo”.
Não se trata apenas de uma beleza exterior. A beleza de Cristo está na própria beleza do amor que se entrega. Sua bondade é bela porque revela a plenitude do amor; sua beleza é a beleza daquele que oferece a própria vida para que todos tenham vida.
Por isso, o Cristo representado na capela de Guarulhos não é um pastor idealizado ou uma figura bucólica. Ele é o Ressuscitado. O Ressuscitado que passou pela cruz.
A cruz transformada em caminho de vida
A auréola crucífera identifica Aquele que venceu a morte. Em sua mão esquerda, o cajado assume a forma da cruz. O instrumento tradicional do pastor que conduz o rebanho torna-se, assim, o sinal daquele que deu a própria vida por suas ovelhas.
O pastoreio de Cristo não está fundamentado na força ou no domínio, mas no dom de si.
As marcas dos cravos nas mãos e nos pés aparecemde maneira discreta, mas são fundamentais para a compreensão do ícone. Elas recordam que a Ressurreição não apagou a Paixão. Ao contrário, a Paixão foi glorificada na Ressurreição.
É o mesmo Cristo que aparece a Tomé e diz: “Vê minhas mãos” (Jo 20,27).
O Pastor ressuscitado é aquele que antes entregou a vida. Por isso, pode conduzir suas ovelhas com autoridade e ternura. Ele conhece o caminho porque Ele mesmo atravessou o vale da morte.
A túnica clara reforça essa dimensão pascal. O branco manifesta a humanidade glorificada de Cristo, aquele que venceu a morte e abriu para a humanidade o caminho da vida.
A ovelha que foi encontrada
Sobre os ombros de Cristo repousa uma ovelha. A imagem remete diretamente à parábola da ovelha perdida: “E, encontrando-a, alegre a põe sobre os ombros” (Lc 15,5).
A ovelha não está simplesmente sendo conduzida. Ela foi encontrada.
Seu repouso expressa confiança. Ela se deixa carregar pelo Pastor. Enquanto isso, o olhar de Cristo permanece voltado para quem está diante do ícone, sugerindo que sua busca ainda continua.
Há, portanto, uma mensagem profundamente pessoal: cada pessoa pode reconhecer-se naquela ovelha. Há um Pastor que conhece seu nome, que a procura, que a encontra e que está disposto a carregá-la.
Um Pastor, um rebanho
Ao fundo, outras ovelhas permanecem reunidas no redil. A composição estabelece uma tensão simbólica: enquanto uma ovelha está sobre os ombros do Pastor, muitas outras permanecem protegidas e reunidas.
Cristo cuida de cada pessoa sem perder de vista a totalidade do seu povo. Ele não abandona o rebanho para buscar uma ovelha, nem deixa de cuidar de cada uma por causa do rebanho.
Mas o redil não é apresentado como um lugar fechado.
O próprio Jesus afirma:
“Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil; a essas também devo conduzir. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16).
Essa palavra ajuda a compreender um dos elementos mais significativos da iconografia da capela de Guarulhos: a imagem ultrapassa os limites da própria moldura e se prolonga pela parede.
A escolha não é apenas estética. A imagem parece recusar permanecer fechada em si mesma. O redil se abre. A pastagem continua. A missão permanece em movimento.
O amor do Bom e Belo Pastor não se limita aos que já estão dentro. Ele sempre vai ao encontro daquele que ainda está distante.
Entre as rochas e os verdes prados
A paisagem também participa da contemplação. As rochas evocam um caminho exigente, marcado pelas dificuldades e pelo caminho da cruz. O verde, por sua vez, remete à vida abundante prometida por Cristo: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
É uma paisagem que também faz eco ao Salmo 23:
“O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados me faz repousar; conduz-me às águas tranquilas.”
Nessa perspectiva, Cristo não apenas aponta para as pastagens. Ele próprio conduz até elas.
Nele estão o descanso, o alimento e a salvação.
À esquerda, a árvore pode ser contemplada como sinal da vida restaurada. Ao lado da cruz, a criação floresce novamente. A morte não tem a última palavra. Em Cristo Ressuscitado, a vida é restaurada.
Um ícone que continua a caminhar
Contemplar o Cristo Bom e Belo Pastor na capela do Shalom Guarulhos é entrar em uma experiência de encontro.
Ele é o Pastor que conhece cada ovelha pelo nome. É aquele que procura a que estava perdida, que a encontra e a carrega sobre os ombros. É aquele que passou pela cruz e venceu a morte. É aquele que conduz às pastagens da vida abundante e chama outras ovelhas para fazerem parte de um único rebanho.
O ícone também recorda à missão de Guarulhos sua própria vocação: não permanecer fechada em si mesma, mas deixar-se conduzir pelo Pastor e ir ao encontro daqueles que ainda estão distantes.
Texto construído a partir do depoimento explicativo da iconógrafa e autora do ícone Guadalupe Monteiro






