Neste sábado, 17 de maio, celebramos um marco de fé e graça: os 100 anos da canonização de Santa Teresinha do Menino Jesus, proclamada santa por Pio XI em 1925. Ao longo desse século, a jovem carmelita de Lisieux conquistou o coração do povo de Deus com sua pequena via, um caminho de santidade marcado pela confiança, simplicidade e amor radical.
Para celebrar essa data especial, conversamos com Frei Patrício Sciadini, carmelita descalço, missionário e autor do livro A confiança de Teresinha, publicado pelas Edições Shalom. Profundo conhecedor da espiritualidade carmelita, Frei Patrício comenta sobre a atualidade da santa, sua influência no mundo e a força da sua mensagem para os dias de hoje.
A devoção que cresce com o tempo
Comshalom: Frei Patrício, como o senhor percebe a devoção a Santa Teresinha nos dias de hoje?
Frei Patrício: Estamos diante de um verdadeiro Kairós, um tempo de Deus. A canonização de Teresinha em 1925 foi um sinal profético que continua a se expandir. Teresinha quis ser missionária e colocar a cruz de Cristo nos cinco continentes. Não pôde fazer isso em vida, mas hoje suas relíquias já visitaram mais de 80 países. Isso é mais que uma homenagem: é um sinal profundo do amor e da graça de Deus no mundo atual.
Vivemos em um tempo de muita superficialidade espiritual, mas há um desejo latente por algo autêntico. É nesse contexto que Teresinha aparece como resposta. Como o Papa Francisco afirmou na Carta Apostólica C’est la confiance, ela é uma santa cada vez mais atual, amada por todos. No número 2 dessa carta, ele mesmo a coloca entre os santos mais amados do mundo, junto de São Francisco de Assis.
Uma mensagem para os tempos modernos — e para os jovens
Comshalom: Qual seria a principal mensagem de Teresinha para os desafios do nosso tempo, sobretudo para a juventude?
Frei Patrício: A juventude precisa redescobrir o afeto, a sensibilidade e o sentimento humano orientado para Deus. Teresinha nos lembra que Deus não espera obras grandiosas, mas sim o amor com que fazemos cada coisa. Ela reconhece que Deus nunca coloca no coração humano um desejo que Ele mesmo não queira realizar. E isso vale especialmente para os jovens, que vivem cheios de desejos, sonhos, mas também confusões e desilusões.
O desafio, hoje, é ver Deus no cotidiano, na simplicidade. Teresinha é a santa da presença silenciosa, da oração que abraça o mundo, da solidariedade com os sacerdotes e pecadores. Ela sonhava em ser o “sal do sal da terra”. Isso diz tudo.
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Esperança que não decepciona
Comshalom: Quais pensamentos de Santa Teresinha mais fortalecem a virtude da esperança?
Frei Patrício: Teresinha viveu uma esperança teologal profunda — uma esperança que não confunde, como diz a Carta de abertura do Ano Jubilar. Ela confiava no amor de Deus, mesmo sem ver os frutos imediatos. Acreditava que a santidade era possível para todos, inclusive para os pequenos, os fracos, os pecadores.
E o mais belo: ela não desistiu do seu ideal de santidade por não se parecer com os grandes santos da história. Pelo contrário, buscou um caminho diferente: a pequena via, que é acessível a todos. É uma estrada reta, breve, feita de pequenos atos com grande amor. Teresinha semeia essa esperança nos nossos corações. Ela nos ensina que Deus se manifesta na nossa história concreta, e que a santidade é viver com alegria a vontade de Deus no ordinário da vida.
Santidade possível, amor vivido
Comshalom: Como a vida de Teresinha nos ajuda a crescer espiritualmente?
Frei Patrício: O conhecimento da vida de Santa Teresinha nos mostra que a santidade é real e alcançável. Sua vida foi breve — apenas 24 anos —, mas profundamente fecunda. Ela tinha o desejo de viver todas as vocações, mas compreendeu que o amor era o centro de tudo. “No coração da Igreja, serei o amor”, ela dizia.
Ela nos ensina que viver bem o presente, com dedicação e fé, é mais importante do que alcançar feitos extraordinários. Numa sociedade que valoriza a aparência e a performance, ela nos convida a viver o essencial, a amar no concreto do dia a dia, no silêncio, no escondimento, no serviço.
Uma verdadeira influencer da fé
Comshalom: Podemos dizer que Santa Teresinha é uma influencer da juventude?
Frei Patrício: Sim, com toda certeza! Ela é uma influencer não pelas redes sociais, mas pela força da sua vida e da sua doutrina. Sua influência se espalha desde 1897 até hoje: na teologia, na espiritualidade, na vida cristã. Antes dela, a espiritualidade era muito voltada à penitência e mortificação. Com ela, abrimos as portas para uma espiritualidade de abandono, confiança, oração simples e acessível a todos.
Sua linguagem fala ao coração. “Todos os livros me cansam, menos um: o Evangelho”, ela dizia. E é isso que a torna tão atual — sua fé é encarnada, próxima, empática. Ela não evangeliza só pela palavra, mas pelo afeto. Seu exemplo é uma resposta ao mundo hiperconectado, mas emocionalmente isolado. Ela nos lembra que a verdadeira comunicação é feita de presença, de partilha, de amor concreto.
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