Shalom

Entrevista com Moysés Azevedo

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Entrevista de Moysés Azevedo – fundador da Comunidade Shalom – à uma revista polonesa. Devido a tradução e a cultura local alguns termos foram utilizados diferentemente, tal qual lanchonete que foi substituído no texto por pizzaria

1. Você pode nos contar como é que a Comunidade nasceu, como foi o início? O que é que a Comunidade faz, o que ela tem como atividade?

O nascimento da Comunidade está ligado a minha história pessoal. Eu nasci em uma família tradicionalmente católica. Ao chegar à adolescência fui afastando-me da Igreja . Queria ser feliz e buscava todos o prazeres que a vida poderia me oferecer. Aos dezesseis anos, participando de um encontro de jovens promovido pela Arquidiocese de Fortaleza (cidade onde nasci) tive meu primeiro encontro forte com a pessoa de Jesus Cristo e aos dezoito anos, ao rezarem por mim em um seminário de vida no Espírito Santo, tive minha experiência de “efusão no Espírito Santo”. Estas experiências revolucionaram minha vida. Pude entender que só Jesus Cristo pode fazer um jovem, um homem, qualquer pessoa, verdadeiramente feliz. Passei a enxergar a vida de uma maneira nova, como nunca antes tinha podido enxergar, era como se ate aquele momento eu visse a vida em preto e branco e agora tudo tomava vida e cor. Minha vida tinha um sentido e eu tinha descoberto a alegria e a beleza  de ser de Jesus Cristo e de ter a Igreja como família.

Com a descoberta do Deus Vivo, veio também uma grande necessidade de comunicá-lo, especialmente aos jovens, que como eu procuravam a felicidade, mas que desconheciam que ela tem um nome e é uma pessoa: Jesus Cristo . Invadia-me uma necessidade imperativa de evangelizar, especialmente os jovens, e entre eles os mais distantes de Cristo e da Igreja. Mas como ir ao encontro daqueles que estão longe? Era uma pergunta da qual eu ainda não tinha a resposta. Foi quando em 1980 o Papa João Paulo II visitou a minha cidade e o então Arcebispo Fortaleza, Cardeal Lorscheider, pediu-me para em nome dos jovens de Fortaleza (hoje com 2 milhões de habitantes), eu desse um presente ao Papa. Alegre e honrado, perguntei-lhe que presente eu deveria dar. Ele respondeu-me: é você que vai escolher! Devo dizer que esta resposta desconcertou-me. O que eu, um jovem de 20 anos, poderia dar ao Papa? A resposta veio como inspiração: dar minha vida e juventude para evangelizar os jovens, os homens e mulheres, que estivessem longe de Cristo e da Igreja. E assim aconteceu: no dia 9 de Julho de 1980, ofertei minha vida e juventude  a Cristo e a Igreja, aos pés de João Paulo II. Foi um momento decisivo. O olhar de João Paulo II me traspassava, ele acolheu minha carta e tocou-me o rosto. Ao sair dali estava convicto que algo especial  tinha acontecido comigo. Um ano depois nascia a Comunidade Católica Shalom. Nascia de uma forma simples mas original, utilizando uma pizzaria para evangelizar os jovens.

2. Por que se pensou em começar uma pizzaria? Como foi a reação das pessoas, como é que essa idéia foi acolhida?)

A inspiração era a seguinte: um jovem que não vai a Igreja, não vai à missa, não aceita um convite para um grupo de oração com certeza aceita um convite para comer uma pizza, um sanduíche, tomar um refrigerante ou um suco. Ali, na pizzaria para evangelizar, os jovens e demais pessoas que chegavam se encontravam conosco, jovens que já tinham uma experiência com Jesus Cristo, e o encontro se tornava uma oportunidade de testemunhar com alegria e convicção a nossa fé. Os nomes das pizzas e sanduíches eram todos nomes bíblicos, para favorecer o diálogo e a evangelização. A casa tinha na frente a pizzaria e atrás uma capela com o Santíssimo Sacramento exposto e sempre um grupo em adoração No primeiro dia a casa já estava lotada e muitos jovens que nós nunca tínhamos visto corriam para conhecê-la. Nós que estávamos à frente, estávamos espantados. Sem muita experiência, nos revezamos entre as mesas e o testemunho de vida, entre a cozinha e a adoração. Os jovens se impressionavam positivamente com a originalidade da proposta, eles não só começaram a vir, mas também a convidar seus amigos e familiares. De repente tínhamos todo um povo junto a nós.

3. Por um lado, uma pizzaria e depois a adoração ao Santíssimo… não parece uma ligação um pouco explosiva?

Realmente, explosivo no seu sentido mais pleno e espiritual. Passávamos do pão material para o pão espiritual, e isto era impressionante. Quantos jovens chegavam ali, sem nenhuma intenção religiosa, e, ao encontrar o menu repleto de nomes bíblicos referentes a pizzas e sanduíches, perguntavam: mas o que significa “magnificat”? O que significa “ágape”? Estas eram as perguntas que  esperávamos para iniciarmos a evangelização. Na mesa havia sempre um evangelho, e assim, entre a Palavra de Deus e um pedaço de pizza, um testemunho de vida e uma pergunta curiosa, muitos terminavam na pequena capela diante de Jesus Eucarístico recebendo a nossa oração. Quantas vidas foram e ainda são transformadas por esta ligação explosiva que o próprio Deus fez ao se tornar carne e ainda mais tornando-se pão e alimento para nós.

4. Você poderia nos falar do caminho que os jovens que encontrou percorrem? Eles vêm à pizzaria e depois, quando já se consegue convencer (quer dizer, evangelizar) um jovem, o que acontece depois? O que se propõe, qual a formação?

Depois do primeiro encontro onde se testemunha e anuncia a pessoa de Jesus Cristo, nós rezamos por este jovem e o convidamos para iniciar um caminho na Palavra, na oração e na vida litúrgico-sacramental. Assim iniciamos aquilo que chamamos Caminho da Paz. O jovem começa a frequentar um grupo de oração, onde a cada semana ele tem uma hora de formação e uma hora de oração. Esta formação vai desde o kerigma, passa pela efusão do Espírito Santo, continua com um crescimento na fé e na vida sacramental, visando uma catequese integral. Este caminho fundamentado na Palavra de Deus e no Magistério da Igreja é focado na formação da inteligência e do coração, ou seja, o conteúdo não é somente informativo, mas cada um faz um caminho diário de oração, aprofundando na vida aquilo que ele vai descobrindo no grupo. Além disso cada jovem é acompanhado de forma pessoal por alguém mais maduro na fé.  O objetivo deste caminho é formar jovens com uma fé solida e que possam se tornar testemunhas corajosas de Cristo no mundo de hoje. Em uma determinada fase deste caminho é colocada também a questão vocacional, onde em um clima de discernimento espiritual se é convidado a discernir seu estado de vida e seu lugar na Igreja.  Aqueles que se sentem chamados, podem fazer um caminho mais comprometido com o carisma Shalom, se fazendo membros da Comunidade de Aliança (permanecendo em suas atividades assumem uma vida comprometida com a Comunidade) ou da Comunidade de Vida (através de uma vida comunitária dedicando-se totalmente a  oração e a missão).

5. De onde vocês tiram força para as atividades que têm?

Creio que a força  vem do carisma que o próprio Senhor nos concedeu de vivermos. O nosso carisma é fundamentado no Evangelho de João 20,19-29, quando Jesus, o Ressuscitado que passou pela cruz aparece ao discípulos e lhes diz: Shalom! Diz o evangelista que “enquanto ele falava, ele lhes mostrou as mãos e o seu lado”. Aqui se encontra o primeiro ponto do nosso carisma: A CONTEMPLAÇÃO do coração aberto e ressuscitado de Cristo, daí brota a verdadeira e única paz para o coração do homem. Também diz o evangelista que quando Jesus apareceu, os discípulos estavam reunidos. Esta é a segunda dimensão do nosso carisma: a paz que recebemos pela contemplação do coração aberto do Ressuscitado deve ser encarnada na nossa vida de caridade pela UNIDADE.  E ainda seguindo o mesmo texto bíblico ouvimos Jesus dizer: “Como o Pai me enviou assim também eu vos envio…recebei o Espírito Santo”. Encontramos aí o terceiro fundamento do nosso carisma: a EVANGELIZAÇÃO, um testemunho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado,um anúncio forte, audaz e cheio de parresia. A força da nossa atividade consiste em, pelo poder do Espírito Santo, deixar nossa vida ser convertida a Jesus Cristo, o Shalom do Pai, através de um caminho de contemplação, unidade e evangelização.

6. Vocês chegaram até a espiritualidade carmelitana… Como é que “adaptaram” Santa Teresa? Como vocês vivem essa ligação com o Carmelo?

No caminho de contemplação foi uma grande graça conhecer S. Teresa de Jesus. Isto se deu de uma forma muito interessante. Quando iniciei meu caminho de fé, um dia conversando com o nosso Arcebispo, que era um franciscano (S. Francisco é também um dos baluartes da nossa vocação), ele me aconselhou a ler S. Teresa  d’Ávila. No outro dia recebi de presente de um amigo as Obra Completas de S. Teresa. Percebi claramente que a providência divina estava agindo. Debrucei-me e comecei a ler o Livro da Vida. Era a resposta que eu procurava: a oração. A via de contemplação de S. Teresa introduziu-me em um relacionamento de amizade e intimidade com Deus. Neste relacionamento fui descobrindo a força do amor divino e que este amor me chamava a esponsalidade. Dai veio a grande descoberta do amor esponsal. S. Teresa logo foi me levando a conhecer a bela via do Carmelo com seus santos e santas doutores, em especial S. João da Cruz, Santa Teresa do Menino Jesus, S. Benedita da Cruz (Edith Stein) e a beata Elizabeth da Trindade. Na nossa Comunidade temos como meta dedicarmos uma hora do nosso dia a oração pessoal e outra a Palavra de Deus, bem como participar da Eucaristia diária. Em uma vida pascal de intimidade e esponsalidade com Cristo é que tudo toma ordem e sentido na nossa existência. Através deste caminho fomos encontrando um caminho de amizade e afinidade spiritual com o Carmelo que através de muitos dos seus membros tem nos ajudado a aprofundar a nossa vida espiritual.

7. Uma pergunta um pouco pessoal relacionada ao seu nome, Moysés: você vê qualquer semelhança com a sua vida e a do Moisés do Antigo Testamento ? Você também quer libertar um povo do “Egito”? De que forma?

Trago o nome do meu pai que também se chamava Moysés. Sem dúvida este nome é bastante inspirador. Ao contemplarmos a pessoa de Jesus Cristo o vemos como o “novo Moisés”, que faz a passagem definitiva do homem da morte para a vida plena que só Ele pode dar.

Ao lançarmos nosso olhar para o mundo de hoje veremos por um lado um cenário de uma sociedade pluralista, secularizada e globalizada que sofre com os frutos de suas escolhas relativistas, hedonistas e consumistas que colocam em risco os valores essenciais da vida e da família humana.

Diante destes desafios queremos afirmar que não olhamos para eles com desesperança. Ao contrário. Foi em meio a este tempo que nossa comunidade foi gerada. Olhamos para a humanidade do nosso tempo, com suas dores e alegrias, com o olhar de Cristo que se enche de compaixão diante da multidão que são com ovelhas sem pastor.  Somos atraídos por esta humanidade. Por isto com alegria e parresia queremos unir a nossa vida a vida de Cristo e animados pelo Espírito, colaborarmos na grande e urgente tarefa da evangelização deste terceiro milênio.

Como fazer isto? Com ousadia e audácia, com um coração inflamado de amor a Cristo e compassivo para com a humanidade, imersa em novas escravidões. Somos assim impulsionados a ir ao encontro das pessoas onde elas vivem, convivem, trabalham, sofrem ou se divertem, e com criatividade de meios e linguagem, apresentar a feliz verdade de Cristo e da Igreja, abordando os “Tomés” do nosso tempo que estão longe da Igreja e não acreditam que Jesus está vivo. Estes, ao verem, ouvirem e tocarem o discípulo, vêem, ouvem e tocam o próprio Cristo Ressuscitado e recebem o choque da sua Ressurreição tornando-se pessoas de perfeita fé, capazes de exclamar: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28).

Estou convencido que urge anunciar explicitamente a pessoa de Jesus Cristo!

Tenho descoberto que a melhor resposta ao desafio da secularização se chama “Parresia”: Apresentar com audácia Cristo!

8. Que projetos a Comunidade Shalom tem para o futuro?

Daquela primeira noite, na pizzaria para evangelizar, onde nasceu a nossa Comunidade passaram-se 27 anos. A Comunidade cresceu em seus meios e formas de evangelizar. Hoje somos cerca de 4.000 membros efetivos da Comunidade (famílias, sacerdotes, celibatários pelo Reino) e aproximadamente cerca de 40.000 pessoas engajadas na Obra em todo o mundo. Evangelizando os jovens, as famílias, os pobres e utilizando os mais variados e criativos meios (centros de evangelização e formação, eventos de massa, porta a porta, grupos de oração, edições, arte e música, meios de comunicação, escola e universidade e etc) a Comunidade está presente hoje em cerca de 50 dioceses no Brasil e em mais de 15 países da América, Europa, África e Ásia. Em 2007 a Comunidade foi reconhecida como Associação Internacional de Fiéis pelo Pontifício Conselho para os Leigos. Quando iniciamos jamais poderíamos imaginar onde o Senhor nos conduziria. Tudo foi um caminho da Providência. Também hoje não podemos dizer onde o Senhor nos conduzirá. Da nossa parte existe a disposição de colocarmos a força do nosso carisma, o seu impulso missionário, os métodos e itinerários de educação da fé, a serviço da missão da Igreja no mundo.

9. Uma última pergunta que é preciso fazer, quando é que a Comunidade Shalom começará suas atividades na Polônia?

Nós acreditamos que a Comunidade Shalom é um dom do Espírito em vista da evangelização do mundo de hoje. Temos como um dos princípios do nosso discernimento para abrir uma nova casa da Comunidade o convite de um bispo, pois este é um sinal inequívoco que o nosso carisma pode contribuir para a edificação daquela  Igreja Local. Sem dúvida para nós que nascemos aos pés de João Paulo II chegar a sua amada Polônia é algo que é presente no nosso coração. Deixamos este encargo aos cuidados da Virgem de Częstochowa. Totus Tuus Maria.


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