Formação

Exame de consciência sobre o uso da internet

É preciso fazer uma revisão de pensamentos, palavras e ações, com a finalidade de verificar a conformidade com a lei moral, e isso inclui o uso nas redes sociais.

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(Imagem/Reprodução)

Algumas pessoas ficam impressionadas com a capacidade que os eletrônicos e redes sociais possuem de prender a atenção das crianças. Há 30 ou 40 anos, tal controle se dava através da TV, no entanto, os smartphones, laptops e tablets tomaram a dianteira desta forma de entretenimento há algum tempo e parecem exercer uma espécie de nova “hipnose” até sobre as crianças mais agitadas.

No entanto, sabemos que tal domínio se dá, sobremaneira, por causa do processo passivo de assimilação que é necessário para o uso da internet, o qual não custa quase nada ao espectador, que recai em uma confortável postura de apenas receber milhares de informações, sem o menor esforço para obtê-las, a não ser por alguns cliques.

A busca pela praticidade

Com os adultos, todavia, não é diferente. Diante do cansaço próprio da vida ordinária e de tantos esforços empreendidos no trabalho, nos estudos, no cuidado com a casa e com a família, e, no caso dos missionários, também nas ações apostólicas, a escolha mais cômoda para os momentos de lazer ou descanso seria, de fato, colocar-se diante de uma tela e receber o conteúdo “mastigado”. Tantas vezes, essa escolha é feita sem aplicar nenhum critério de discernimento, haja vista que tal ação se dá geralmente em um momento de relaxamento, onde a guarda dos sentidos e do coração pode estar desprevenida.

Desse modo, cada indivíduo corre um sério risco de um acomodamento que pode prejudicar a formação das áreas do ser (inteligência, vontade, imaginação, memória e afetividade), por meio de uma defasagem da absorção de valores, na administração do tempo, na capacidade cognitiva e no processo de formação dos critérios, que são os elementos que definem as nossas escolhas. 

Vida espiritual 

No que se refere à espiritualidade, o mau uso das redes sociais e dos eletrônicos pode ter sérias consequências, afinal, o homem é um ser integrado. Portanto, o que toca no ordinário da sua vida cotidiana reflete necessariamente em sua alma. Acostumado à postura de acomodação gerada pelos eletrônicos, que é agradável aos seus sentidos e ao seu corpo, pois não é nada exigente, também desejará a mesma facilidade em seu relacionamento com Deus e com o seu próximo, o que poderá acarretar em uma certa “moleza” espiritual e um afrouxamento da sua capacidade de resiliência diante das dificuldades. 

Além disso, o uso indiscriminado da internet tende a potencializar uma duplicidade de vida moral que gera um comportamento nas redes sociais diferente da realidade, por causa de uma certa “ilusão da invisibilidade e do anonimato” tão própria do mundo digital, o que pode provocar vícios e comportamentos imorais que não serão facilmente detectados como tais.

O perigo presente nas redes sociais

As redes sociais podem conter também uma forma de censura mais “fácil” do que na vida cotidiana, como afirma a neurocientista norte-americana, M. J. Crockett. Ao constatar que, no ambiente virtual, já não é necessário emitir um juízo de valor ponderado, como fruto de uma reflexão livre e pessoal sobre qualquer assunto, pois basta retuitar ou compartilhar uma informação que, a priori, pareça um tanto “aceitável” para cada um. Como consequência de tais ações, ao menos três comportamentos são mais relevantes: a tendência à polarização; uma maior dificuldade de distinguir o que realmente é uma ofensa real do que é apenas uma opinião diversa da sua própria forma de percepção do mundo; e o enfraquecimento do engajamento em serviços de voluntariado e doações. 

Não obstante tais riscos, sabemos o quanto o uso da internet e das redes sociais pode favorecer o nosso cotidiano, pois podemos encontrar desde simples receitas culinárias até sites de pesquisas científicas, documentos da Igreja, visitas virtuais a museus e exposições de arte e também grandes oportunidades de evangelização. Portanto, a internet é um bem, que necessita ser utilizado como tal, sem excessos ou escrúpulos inadequados.        

Pequeno exame de consciência        

Para favorecer o bom uso desse serviço, segue um pequeno exame de consciência a respeito de como temos nos relacionado com a internet e as redes sociais, a fim de proporcionar um melhor aproveitamento dessas novas formas de comunicação, entretenimento e pesquisa, que podem ser tão benéficas ao nosso cotidiano.

Leia também| Saiba como fazer um bom exame de consciência

  • Sobre a administração do tempo

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu” (Ecle 3,1)

Uma pesquisa recente apontou que, em média, um usuário gasta cerca de 2 horas  e 25 minutos por dia navegando na Internet. No Brasil, esta estatística sobe para 3 horas por dia. De forma pessoal, você percebe que o tempo gasto na internet tem interferido nos seus horários de oração, sono, apostolado e convivência “não-virtual”? 

  • Sobre a guarda dos sentidos

“Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma” (I Cor 6,12). 

Como vimos, a passividade no recebimento das informações através dos aparelhos eletrônicos pode “baixar a guarda” dos nossos sentidos e do nosso coração. Diante desta constatação, convidamos a uma reflexão a respeito da postura com a qual recebemos as informações enquanto navegamos nas redes sociais. Mantemo-nos em uma saudável conduta de alerta ou tendemos a relaxar o suficiente para deixarmo-nos envolver por tudo o que nos é apresentado?

  • Sobre a formação de mentalidade baseada no Evangelho

“A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto: cem por um, sessenta por um, trinta por um” (Mt 13,23).

Diante de tantas informações on-line, sem perceber, podemos absorver um conteúdo contrário à mentalidade do Evangelho, e até ter os nossos critérios e convicções paulatinamente abalados, tudo isso, de forma velada e discreta. De forma sincera, reflita a respeito dos valores que você tem absorvido por meio do conteúdo da internet que você consome. Tais informações têm lhe afastado ou atraído à vivência da sua vocação de filho de Deus e de cristão?   

  • Sobre o imediatismo e a ansiedade

“Espera no Senhor e sê forte! Fortifique-se o teu coração e espera no Senhor” (Sl 27,14).

Em 2019, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas constatou que 41% dos jovens brasileiros afirmaram que o uso das redes sociais já lhes causaram ou agravaram sintomas como ansiedade, depressão e tristeza. De fato, o volume de informações e a facilidade com a qual são obtidas pode gerar uma certa frustração no que tange às “demoras” da vida real, pois o imediatismo e a velocidade da internet não correspondem ao ritmo normal da vida humana. Por isso, é imprescindível trilhar um caminho de autopercepção do uso das redes sociais e serviços de streaming, a fim de que algo que deveria favorecer o descanso não se torne um gatilho de desenvolvimento de doenças psicológicas graves. Diante do exposto, convidamos você a mais uma vez refletir até que ponto a internet tem prejudicado ou colaborado com este aspecto da sua vida? 

 


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