Igreja

Frei Patrício: É tempo de recomeçar o caminho ordinário

Mesmo quando tudo nos parece obscuro e difícil, nunca devemos perder a esperança de que o sofrimento vai acabar, e, ao mesmo tempo, devemos saber que somos responsáveis para que haja céus novos e terras novas. 

Há um ditado na Itália e quem sabe também em outros países do mundo que diz que “a epifania leva embora todas as festas”. A alegria das festas natalinas é verdade passada.  Recomeçamos, então, o caminho ordinário do ano. 

Neste ano A, nos acompanha o evangelista Mateus com suas sobriedades e com suas contínuas memórias do Antigo Testamento. Sabemos que ele escreveu o seu Evangelho para os judeus e queria provar a estes filhos de Abraão, às vezes cabeças-duras, que a Salvação chegou com a vinda de Jesus. Ele nem sempre tem uma linguagem fácil. 

O sofrimento sempre acaba

Caminhamos na luz da Palavra do Senhor, e Deus caminha sempre conosco. Mesmo quando tudo nos parece obscuro e difícil, nunca devemos perder a esperança de que o sofrimento vai acabar, e, ao mesmo tempo, devemos saber que somos responsáveis para que haja céus novos e terras novas.

A Igreja nunca desanima mesmo que os homens de igrejas às vezes façam discursos  “noturnos” de desânimo e gritem por todos os lados que tudo vai mal. 

Cuidar do mundo no ordinário da vida

Creio, sinceramente, que o mundo tem boa saúde, embora precise, como casa comum, de alguns cuidados para que o ar que respiramos seja puro e a água que bebemos não seja contaminada. 

Não é culpa do Deus criador se há desequilíbrio ecológico, mas, sim, do homem destruidor  da harmonia criada por Deus, feita para que tudo funcione à perfeição. 

Amo muito o Salmo 8 e convido todos a lerem esta obra-prima de contemplação e de mística, onde tudo se realiza através do respeito que devemos ter pela criação e pela nossa vida.

Um objetivo em comum: a santidade

“Não se deve esperar aqui um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação. 

O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades, porque o Senhor escolheu cada um de nós ‘para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor’ (cf. Ef 1,4).” (Gaudete et Exsultate, 2)

O Papa adverte que não quer escrever um livro, um tratado de espiritualidade, pois já existem muitíssimos e todos os anos se publicam novos livros sobre este tema. Mas ele quer simplesmente reavivar em nós o desejo de sermos santos, de viver em comunhão com Deus através da nossa vivência do Evangelho.

Não podemos fugir da nossa responsabilidade de sermos santos e íntegros diante Dele no amor (cf. Ef 1,4). Este convite do apóstolo Paulo à comunidade dos efésios é dirigido a cada um de nós. 

Talvez seja necessário recuperar o verdadeiro sentido da santidade no mundo em que vivemos, uma vez que estamos demasiadamente preocupados pelas coisas da terra e pouco preocupados pelas coisas do céu. 

O Papa Francisco quer fazer isso: aquecer nos nossos corações o chamado de Deus. Para isso, precisamos romper o muro da surdez interior, a indiferença ao Espírito Santo, e caminhar com coragem na vida da perfeição.

Não podemos ser servos mudos

Hoje, a liturgia nos oferece o cântico do servo sofredor de Javé em Isaías 49. Este é um texto belíssimo, no qual é delineada a nossa vocação de defensores da verdade. 

Deus suscita em todos os tempos os Seus profetas, não para que fiquem mudos diante de situações de injustiça, de pecado e do mal, mas para que gritem com toda a voz e reconduzam no reto caminho os que se afastaram de Deus. Uma missão difícil e às vezes dura que comporta até a morte dos verdadeiros profetas. 

O profeta sabe escutar a voz do Senhor e sabe distinguir quando deve falar e quando deve calar. Mas nunca pode se omitir. Desde o seio materno, somos amados por Deus e destinados a uma missão aqui na terra.

 Não se descobre de uma vez a nossa missão, mas ela vai se realizando na história de cada um. O salmista canta a alegria de fazer a vontade do Senhor. Não se escolhe nunca a nossa vontade, mas sempre a do Senhor, acolhendo dia a dia o que Ele nos pede, em conformidade com o Evangelho, com a palavra da Igreja e com a Tradição.

A Igreja de Deus que está no Brasil

O que o Senhor pede à Igreja de Deus que está no Brasil é a mesma coisa  que pede à Igreja de Deus que está no Egito e, ao mesmo tempo, não é a mesma coisa. Os valores fundamentais do amor são sempre os mesmos, mas sua encarnação é diferente. 

A Igreja do Brasil, por exemplo, pede pela ecologia, pela preservação da Amazônia, que é constituída de rios, de plantas, de impressionante biodiversidade. Já a Igreja de Deus que está no Egito pede pela defesa do deserto, para que não seja agredido pelas mãos dos homens e que não se quebre o equilíbrio do território.

 No entanto, a fonte da Igreja será sempre a mesma: o amor. 

Compreendemos as coisas à medida que nos colocamos à escuta do amor de Deus que ressoa nos nossos corações. Não deixemos se perder nenhuma palavra que o Espírito Santo suscitar dentro de nós. 

Todos os que invocam o nome de Jesus, não importa onde se encontrem, cooperam sempre para o bem do ser humano, do universo e da vida.

Jesus está sempre diante de nós

Como é maravilhoso o testemunho de João, o batista de Jesus, que é o seu credo. Ele crê que Jesus é o Messias, o enviado, e que, diante de Jesus, ele não é nada, a não ser uma voz que clama, aquele que deve  preparar os caminhos. 

João não se aproveita de sua fama, nem do povo que corre atrás dele, pois Ele sabe que não é o Messias. Esta humildade nos toca em profundidade e às vezes podemos correr o risco de crer-nos maiores do que somos ou querer ocupar responsabilidade que não são nossas. 

Algumas vezes, fico estupefato quando leio alguns comentários sobre a Igreja de leigos, de padres e de alguns Bispos que se acham mais importantes do que o Papa e que detêm leis e condenam ou aprovam como lhe parece ser o melhor.

João Batista nos ensina a fixar o nosso olhar somente em Jesus e aí está toda a nossa força e esperança.


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