Formação

Governos e prioridades

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A Doutrina Social da Igreja advoga que “a comunidadepolítica e a sociedade civil, embora reciprocamente coligadas einterdependentes, não são iguais na hierarquia dos fins”. A compreensão desteprincípio esclarece que a comunidade política está essencialmente a serviço dasociedade civil, das pessoas e dos grupos que a compõem.

 Neste horizonte, sublinha-se que a comunidade civil não podeser considerada como um apêndice ou uma variável da comunidade política. Pelocontrário, ela tem preeminência. Ora, a justificação da comunidade política sedá no seio da comunidade civil a serviço desta. Essas considerações acenam paraa importância determinante dos governos e de suas instituições na sociedadecomo instâncias de serviços na sociedade civil. Suas prioridades devem serdefinidas a partir das necessidades que se patenteiam no tecido da sociedadecivil, considerando-se sua heterogeneidade, articulações ou desarticulações,ambigüidades e contradições, enquanto lugar de embate de interesses diversos.Aqui se configura o cenário de disputas com riscos sérios que geramcomprometimentos, tal seja o risco do mais forte prevalecer-se sobre os maisfracos.

 Portanto, no tecido da sociedade civil, os pobres serãosempre a preferência no atendimento de necessidades e na definição deprioridades. A opção preferencial pelos pobres não pode se dar apenas no âmbitodas razões e práticas religiosas como o faz e se deixa permanentemente desafiara Igreja Católica, como reafirmou a Igreja Latino Americana na 5ª Conferênciado seu Episcopado, no documento de Aparecida. O Papa Bento XVI, no seu discursoinaugural afirmou que a Igreja está convocada a ser “advogada da justiça edefensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais eeconômicas”. A Igreja compreende esta opção como capítulo implícito à fé queprofessa em Cristo, Deus e Homem, seu Mestre e Senhor.

 Os rostos sofredores, dos pobres, são como os de Cristo,pois tudo o que tem relação com Cristo tem relação com os pobres. Esta opçãopreferencial pelos pobres tem que ser determinante no horizonte dos governospara definir suas prioridades. Governos, com suas instâncias todas, servidoresna sociedade civil têm a enorme tarefa de propor mudanças de estilos de vidaque substituam aqueles contrários à natureza e à dignidade do ser humano como acultura atual alimenta e se deixa fascinar por eles.

 A idolatria do poder, da riqueza e do prazer efêmeroprecisam ter um forte contraponto na organização social como norma máxima defuncionamento, de tal maneira que nada esteja acima do valor da pessoa. Nessadireção, a consideração dos pobres é determinante na definição de prioridades.Basta levar em conta a sua condição social – ferida que revela adesconsideração de sua dignidade, a falta de moradia, trabalho, oportunidades,educação, saúde.

 A discussão dos programas de governo apresentados peloscandidatos deve merecer especial atenção de todos nas eleições deste ano. Éverdade que não basta colocar no papel. Diz-se que papel aceita tudo. É precisoregistrar nos programas de governo e ser acompanhado pelos eleitores, emsintonia com posturas pessoais e num horizonte de compreensão da realidade quepossibilite a escolha de prioridades que possam, com rapidez, realizar mudançassociais mais significativas.

 Apesar de todo o desenvolvimento e aumento de riquezas nasociedade brasileira, a luta contra a pobreza permanece como um desafio. Énecessária a participação efetiva de cada cidadão, com critérios advindos deuma mentalidade cultivada por compreensão política e de condução institucional.

 O desenvolvimento proposto nos programas de governos, e paraas ações parlamentares, não pode deixar de incluir conquistas significativas noâmbito empresarial, tecnológico e organizacional. Contudo, deve ser capaz deenfrentar, com inteligência e sensibilidade, problemas gravíssimos como odéficit habitacional, a real qualificação da educação, oferecendo oportunidadesmais ampliadas, entre outros itens que favoreçam a mudança deste cenáriovergonhoso desenhado pelas feições sociais da miséria.

 A realidade cultural e as condições favoráveis da sociedadecivil precisam contar com homens e mulheres que na comunidade política, definamsuas prioridades de governo a partir deste desafio que a condição dos maispobres está exigindo e urgindo, para associá-los aos que gozam de condiçõesadequadas à dignidade humana. É hora de discutir e compreender mais paraescolher bem.


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