Na série sobre Lectio Divina, de Germana Perdigão, aqui no comshalom.org, você aprende a, no dia a dia, tornar os seus momentos com o Senhor cada vez mais ricos, frutuosos e profundos. Vamos lá?
Começamos a Lectio Divina com leitura e terminamos em exercício espiritual. Era precisamente isto que buscávamos na Lectio Divina: apreender a intuição espiritual, o poder de Palavra, que está na Bíblia. É isto que a distinguiu de todas as outras leituras possíveis da Bíblia.
Precisamente por ser espiritual nem se dá conta quando uma começa e a outra termina . A Lectio é uma dinâmica vital, pelo que é difícil fixar-lhe com precisão cada um dos seus tempos. O que é claro é que metodológicamente volta sempre ao mesmo ponto de partida, para repetir o caminho de uma maneira tal que experimentemos o que disse o profeta Isaías: “Manhã após manhã fala-me ao ouvido, para que escute como os discípulos . O Senhor Deus abriu-me o ouvido “(Is 50,4-5 ).
Como uma ajuda para o nosso próprio exercício, sugerimos terminar com uma breve oração vocal, a fim de agradecer ao senhor o que vivemos ao longo da Lectio.
Uma vez mais damos a palavra a Guido, o cartuxo, para que nos ensine a sua formosa maneira de orar:
“Senhor, quando tu partes o pão da
Santa Escritura, tu te fazes conhecido por
esta Fração do Pão.
Quanto mais te conheço, mais desejo
conhecer-te, não só conhecimento do sabor
da experiência
Não te peço este Dom em razão dos
meus méritos , mas por causa da
tua misericórdia…
Dá-me, Senhor, os penhores da herança
futura, ao menos um gosto da chuva celeste
para refrescar a minha sede
porque eu ardo de amor”.
Formação em Cristo
“Filhinhos meus, por quem sofro dores de parto até que Jesus Cristo se forme em vós.“ (Gal 4,19 )
A partir da contemplação, último movimento da Lectio Divina, começam-se a vislumbrar horizontes na vida espiritual que a impelem por caminhos de maturidade cristã.
Porque o verbo habita em nós, fazendo-se um com a nossa carne, a prática da Lectio é uma educação contínua para que tenhamos “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus “(filip2,5 ) , a fim de sentir, decidir e atuar segundo o seu coração (Ver At 13,22 ). É, portanto, uma verdadeira escola de formação de discípulos de Jesus, na qual se aprendem os caminhos do Seu seguimento.
A sensibilidade à Palavra da Sagrada Escritura educa para a docilidade ao Espírito Santo, a fim de que, como disse S. João Eudes, “Ele faça do nosso ser um Evangelho vivo e um livro vivo, escrito por dentro e por fora, no qual a vida de Jesus esteja perfeitamente impressa (OC III, 54).
Vejamos, então, também à maneira de esboço, como num desenho, o prolongamento da Lectio. Apresentamo-la em outros novos cinco movimentos que se sucedem como as ondas do mar, uma por cima da outra, fortes, rítmicas, irresistíveis. Quando estas ondas se fazem familiares, pode-se aprender a melhor navegar nelas.
A ONDA DA CONSOLAÇÃO : NO GOZO DO ESPÍRITO
A oração que brota da Lectio vive-se com gozo no Espírito Santo ( Gal 5,22), emoção com a que Jesus orava também (lc 10,22), porque se sente intimamente o gosto de Deus, das coisas de Cristo. O gozo do louvor invade-o todo .
João da Cruz faz alusão a esta experiência quando canta a transparência de Deus em todas as coisas : “E todos quantos vagam de ti me vão mil graças relatando; mas todos mais me vai matando um não sei quê que ficam balbuciando “(Cântico 7)
Esta emoção vem incluída no Dom da contemplação, é o que no âmbito espiritual se chamou “consolação“.
A consolação chega a ser como uma atmosfera, na qual o coração se pode mover com liberdade.
Ensina o Cardeal Martini como “só da consolação nascem as opções corajosas de pobreza, castidade, obediência, fidelidade, perdão, porque é o lugar, a atmosfera própria das grandes opções interiores. O que não vem deste Dom , pouco dura e pode ser facilmente apenas fruto do moralismo que nos impomos a nós mesmos“.
A ONDA DO RECONHECIMENTO DOS IMPULSOS INTERIORES: O DISCERNIMENTO CRISTÃO
Expressa ainda com maior clareza as transcendências da consolação. O orante chega a ser como uma espécie de antena espiritual, que sabe captar o que é e o que não é do Evangelho.
É a aprendizagem da sensibilidade espiritual de que fala S. Paulo : “O que peço na minha oração é que o vosso amor cresça mais e mais em conhecimento perfeito e em todo o discernimento(fina sensibilidade) “(Filip 1,9); que, na realidade, é sempre uma incomodidade , um contínuo viver desinstalados face ao mundo: “Não vos conformeis com o mundo presente, pelo contrário, reformai-vos com o renovamento do vosso espírito, de maneira que possais discernir a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável, o que é perfeito (Rom 12,2).
A ONDA DOS “SALTOS QUALITATIVOS”: AS OPÇÕES EVANGÉLICAS
Adquirindo a habilidade para discernir o pensamento de Deus, tal como se expressa em sua palavra, aprendemos também a “decidir segundo Deus “. Assim, escolhemos ou confirmamos ou continuamos renovando o nosso estado de vida.
Damos a palavra ao Cardeal Martini: “Se analisamos atentamente as opções vocacionais, damo-nos conta de que têm, talvez inconscientemente, um processo. A vocação de fato, é uma decisão que se toma a partir daquilo que Deus faz sentir e da experiência que se faz, segundo os parâmetros evangélicos”.
E não somente escolhemos o nosso estado de vida para a edificação do Corpo de Cristo, como também somos chamados a tomar atitude no meio da nossa sociedade: opções políticas , iluminadas pelas preferências evangélicas.
Nesta onda vemos aparecer a valentia profética do cristão (ver At 4,31), que pelas suas opções , se coloca no meio da sociedade como lâmpada que brilha no alto(ver Mt 5,16) e que por isso mesmo, também pode ser criticado.
A ONDA DA AÇÃO: OS COMPROMISSOS
Primeiro é a árvore depois vêm os frutos. A lectio Divina evitou tirar conclusões imediatas da Palavra, o “como se aplica isto “, e trabalha melhor a nível do “ser cristão”. É a fórmula conhecida: “o ser precede o fazer “. Mas chega agora o momento do fazer.
Como disse o Cardeal Martini , a ação “ é o fruto maduro de todo caminho… lição bíblica e ação, não de modo nenhum duas linhas paralelas”.
Tiago era claro neste ponto. Citamo-lo em toda a sua extensão: “Sede cumpridores da Palavra e não apenas ouvintes… Porque se alguém se contenta com ouvir a palavra sem a por em prática, assemelha-se aquele que contempla a sua imagem num espelho: mal acaba de a contemplar sai dali e esquece-se de como era . Aquele porém que medita atentamente a lei perfeita da liberdade, e nela persevera , não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel dos seus preceitos , esse encontrará felicidade no que fizer (Tiago 1,22-25) .
Nem sempre é fácil, sabemo-lo por experiência. Por isso poderíamos orar sempre como o fazia um santo: “Mas tu, Senhor, conheces a impossibilidade que tenho em amar-te .Por isso, Deus meu, dá-me, se quiseres, o que me mandas; depois , manda-me tudo o que quiseres”(João Eudes)
A ONDA DA COMUNICAÇÃO: A EVANGELIZAÇÃO
A luz não parece escondida. Os irmãos recebem do leitor-orante o testemunho do Evangelho. A Palavra que se anuncia está nele , em primeiro lugar, como uma presença que se capta na sua maneira de viver.
Mas disse S. Paulo que “a fé vem da pregação, e a pregação pela Palavra de Deus “(Rom 9,17). A palavra é fogo que queima dentro, e que há que anuncia também de viva voz.
Assim, a Lectio coloca-se à raiz da missão. É como se constantemente se nos dissesse: “Escuta a Palavra para que a anuncies ! “
Finalmente, digamo-lo assim, esta onda missionária expande-se lenta, mas irresistivelmente por todos os ambientes, em todos os momentos , dando à história o sabor do céu (ver mt 28,19-20).
Para começar sugerimos que se tome sempre o Evangelho, porque ele nos inicia na experiência de Jesus e é a chave de interpretação de toda a Bíblia.
TRES DIFICULDADES QUE HÁ QUE SUPERAR NA PRÁTICA DA LECTIO DIVINA
Temos apresentado o itinerário e as chaves para nos movermos amplamente dentro do método de leitura Bíblica Lectio Divina . E vários casos limitamo-nos simplesmente a delinear o ambiente, a insinuar as possibilidades.
Todavia, ficam por explicar três questões importantes para a regra do método, que são:
- Que textos escolher ?
- Quando fazê-lo?
- Em que podemos apoiar-nos para crescer ?
Que textos escolher
O melhor é preferir sempre a Palavra, tal como diariamente a oferece a Igreja na Liturgia.
Para começar, sugerimos que se tome sempre o Evangelho , porque ele nos inicia na experiência de Jesus é a chave de interpretação de toda a Bíblia. Aos domingos recordaremos que a primeira leitura se lê em harmonia com o Evangelho.
Sem dúvida , os mais avançados poderão ir tomando gradualmente todos os outros livros da Bíblia . Os monges fazem a leitura completa de toda a Bíblia . Assim também o podemos fazer nós.
Não ajuda muito mudar de livro da Bíblia cada dia , ou escolher as passagens segundo o nosso gosto. A continuidade da leitura aumenta a compreensão , dá-nos o contexto literário e permite-nos captar melhor a pedagogia Bíblica.
E quando nos encontramos com um texto que consideramos difícil de entender, não caiamos na tentação de mudá-lo ; os Padres da Igreja dizem que as passagens mais difíceis são as que guardam um maior segredo . Paciência … pouco a pouco .
Em palavras do Diácono Santo Efrém :
Dá graças pelo que recebestes , e não te entristeças
Pela abundância que sobra . O que recebeste é a tua parte,
O que sobrou é tua herança . O que, pela tua
Debilidade, não recebeste num determinado momento
Podê-lo-as vir a receber em outra ocasião
Se perseverares . Nem te esforces avaramente por tomar
De um só trago o que não pode ser tragado de uma só vez
Nem desistas por preguiça do que só pode ser tomado
Pouco a pouco. (Diatessaron)
A aprendizagem de um ritmo
Os mestres da Lectio Divina são unânimes em afirmar que o mais importante na prática da Lectio não é a quantidade de tempo que se emprega de cada vez, mas ,sim, a sua continuidade . É uma disciplina!
A Lectio na qual inicialmente podemos colocar um pouco mais de empenho , é à do Evangelho do Domingo . Poderia , inclusive , abranger toda a semana, procurando um dia em que se possam partilhar os frutos da oração juntamente com os irmãos mais próximos na fé. Isto é o que os latinos chamam colatio.
Quando se aprendeu este ritmo semanal , pode-se começar o ritmo diário que é o ritmo normal. Esta seria uma maneira concreta de orar : “o pão de cada dia nos daí hoje “.
Qual é a melhor hora ? Recomenda-se que se escolha a melhor hora do dia ; aquela em que os cinco sentidos estão mais despertos , aquela em que é possível Ter um pouco de calma e de silêncio. A Lectio obriga-nos a tomar decisões com o nosso tempo ordinário , para dar o melhor espaço à palavra .
Mas, já o temos insinuado , não há necessidade de fazer tudo de uma vez. Por exemplo, (e apenas um exemplo!): à noite poder-se-á fazer a leitura do Evangelho do dia seguinte. Imediatamente vamos descansar , levando conosco a ressonância da Palavra , como uma maneira de viver as palavras do Cantar, “eu dormia, mas meu coração velava”(5,2). Pela manhã recolhemos o fruto na oração . Um mestre da Lectio disse aos aprendizes: “ocupar nesta oração quinze minutos , nem mais, nem menos !”. No decorrer do dia podemos levar ao seu ponto culminante a Lectio em alguma celebração litúrgica.
Um apoio para crescer
Referimo-nos, antes de tudo, a um acompanhante espiritual. Juntamente com ele podemos decidir a nossa maneira concreta de fazer a Lectio, partilhar as dificuldades que se apresentam , recolher os seus frutos e pedir sugestões práticas
É igualmente útil a vivência de momentos fortes, a fim de caminhar com fruto no método da Lectio. Por exemplo: os exercícios espirituais, uma jornada de oração, alguns encontros especiais à volta da Palavra, que se constituem em verdadeiras experiências formativas.
Outro apoio é a participação numa pequena comunidade na qual possamos partilhar a nossa experiência e acolher com simplicidade os ensinamentos dos outros. Nesta experiência comunitária da Lectio aprenderemos dos irmãos e da sabedoria da Igreja. Assim, poderemos dizer-nos mutuamente o que Guido dizia a Gervásio : “Tu que aprendeste melhor esta via pela experiência do que eu pela razão, serás juiz e corrector das minhas reflexões”.
Abrir-nos-emos, então, à aprendizagem desta experiência comunitária.
Germana Perdigão
Comunidade de Aliança
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