Ontem tive a alegria de participar de uma missa cujo presidente era padre do tipo que o Papa Francisco sonha: intelectualmente preparado, pobre, cheirando a ovelha, orante.
O Evangelho era aquele em que os fariseus pedem a Jesus um sinal. Jesus deixa claro que nenhum sinal os faria converter-se, pois estavam amarrados a sua autossuficiência. O Salmo falava da recompensa àquele que procede retamente, e a primeira leitura, da necessidade de praticar a justiça e a misericórdia. Terreno perfeito para falar de conversão. Porém, como ele havia preparado sua homilia através da lectio divina – orando com a Palavra – o Espírito Santo levou-o além da letra e preparou o belo presente que tento transcrever, acrescentando algumas reflexões e inspirações – também eu rezei com a Palavra e com a homilia!
O tema da homilia foi a conversão. O povo do Antigo Testamento considerava conversão uma volta. Pelo pecado, a pessoa se afasta do ponto onde o Senhor deseja que ela esteja. Arrependida, vira as costas ao pecado, pede perdão, oferece um sacrifício e volta ao ponto inicial, anterior ao pecado, em percurso semelhante à letra “U”. Sai do topo de um dos lados, desce ao pecado e se afasta para depois voltar pelo mesmo caminho ao ponto inicial.
Eis porque encontramos tantas vezes na Antiga Aliança a exclamação “Volta!”, especialmente nos profetas. “Volta, Israel, ao teu Deus!”, “Volta ao Deus dos teus pais!”, “Volta, dromedária errante!” Essa, também, é a razão pela qual muitos de nós temos, ainda hoje, conceito veterotestamentário sobre o que seja conversão: após o arrependimento e o perdão sacramental, ir de volta ao ponto onde se estava antes de pecar, de volta ao mero cumprimento dos mandamentos.
Isso tudo parece muito bom, e de fato é. Entretanto, não descreve o processo de conversão do Novo Testamento. Nele, o sentido de conversão (voltar ao lugar de antes) traduz-se melhor pela antiga palavra grega “metanoia”.
A palavra μετανοεῖν, cuja transliteração seria metanoein, é composta por μετά, transliterado como metá, que significa ‘além’, ‘depois’, ‘para além’, ‘acima’, como em “metafísica” e νοῦς, cuja pronúncia é nous, ‘pensamento’, ‘intelecto’, ‘maneira de pensar’, como em “noogênese”. A noção de conversão do Novo Testamento, presente nos Evangelhos e nas Epístolas, significa, portanto, mudar o próprio pensamento, a própria ideia, a própria mentalidade de forma a, coerentemente, abraçar novo modo de viver, que está acima, além, para além do vivido antes: o Evangelho e a amizade com Deus.
Os dois conceitos são apenas superficialmente semelhantes. No de “conversão”, a pessoa volta atrás pelo mesmo caminho, a fim de viver como antes de pecar, volvendo à sua vida reta.
Já no de “metanoia”, a pessoa toma um novo caminho, diferente daquele que trilhava antes de pecar. Essa seria já uma diferença enorme. Há, entretanto, outras diferenças essenciais: esse novo caminho, ademais de ser diverso do trilhado anteriormente, leva a pessoa para além, acima, mais alto do que ela iria pelo caminho anterior.
Outra diferença maravilhosa é que, no conceito de “conversão”, o homem volta ao passado, considerando-se reto, como faziam os fariseus que cumpriam toda a lei e, uma vez expiados pelos sacrifícios oferecidos, voltavam a viver exatamente como antes. O conceito de “metanoia”, por sua vez, remete ao futuro! Sim! A pessoa em processo de metanoia passa a viver de uma forma que não vivia antes, mais elevada, mais santa, mais próxima a Deus.
Eis a razão pela qual São João da Cruz, doutor em vida espiritual, ensina que, em cada noite escura, Deus deseja nos levar a uma metanoia e tomamos novo caminho não como quem sobe passo a passo uma ladeira, mas como quem é elevado a uma plataforma mais alta, superior em conhecimento de Deus e de si mesmo. O mesmo ocorre com relação ao pecado perdoado.
As diferenças, contudo, não acabam aí. O conceito de “metanoia” está necessariamente identificado com a realidade do poder da graça. Com razão diz nosso João da Cruz: “Senhor, como a ti se elevará o homem que criaste se tu mesmo não o levantares?” Sem a ajuda da graça, não há metanoia. O homem, por suas próprias forças, não tem como elevar-se em um processo de autêntica mudança de forma de pensar, de ideia, de mentalidade, de vida, de rumo, em direção ao alto, a Deus. Só a graça de Deus pode fazê-lo.
É maravilhoso pensar que cada vez que recorremos ao sacramento da Reconciliação recebemos a graça da metanoia. Fantástico lembrar que, ao receber a absolvição sacramental, podemos voltar por outro caminho, mais alto, mais próximo a Deus e olhar para o futuro, para a vida nova do Evangelho em que a Igreja, com o sacramento, nos introduz.
Meia volta! Volver!” E mais “Meia volta! Volver”? Nunca mais! Depois dessa homilia, a ordem é: “Levantar! Ao alto! Não volver! Seguir!” por novo e maravilhoso caminho de misericórdia que perdoa, esperança que eleva, fé que sustenta e graça que ilumina e dá asas de filho de Deus.
Maria Emmir Oquendo Nogueira
TT @emmiroquendo
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Coluna da Emmir – comshalom.org
Entrelinhas – Revista Shalom Maná
(Setembro 2014)
